“Notas” – 01/11/2014

Quando escrevi comentário a um artigo publicado na coluna de Ricardo Setti deplorando as capas de “Veja” sobre dietas, previ (no próprio comentário) que este seria vetado – como foi. Afinal, conhecia as regras para publicação de comentários que proíbem críticas à revista sob alegação de que o destinatário para reclamações sobre a linha editorial da revista deve ser o Diretor de Redação. Não me queixei, embora pense que permitir críticas à linha editorial da revista quando ela é distinta de um artigo publicado naquele espaço seria lembrete útil à Direção de equívocos editoriais que podem ser sanados. Por ex:

Setti mantém há meses na página link para artigo sobre a pouca confiabilidade do modelo de urnas eletrônicas utilizado no Brasil – parece que somos o único ou um dos poucos que permitem este modelo. Não me lembro de capa da revista a este tópico de gravidade indiscutível – capa que colocaria, em matéria na qual especialistas forneceriam parecer sobre a vulnerabilidade das urnas, a discussão nas mentes brasileiras. Uma capa do tipo estimularia discussões nas redes sociais, e em filas de todo tipo. Isto, fosse feito com meses de antecedência, tornaria as decisões do Supremo Tribunal Eleitoral escandalosas por si.

Mas já que não foi esta a oportunidade escolhida…que as determinações do Min. Dias Tóffoli fossem a capa da edição anterior às eleições e não a capa controversa, de denúncia de comprovação problemática, que garante que “Lula e Dilma sabiam de tudo” que acontecia na Petrobras.

Como a Direção da revista apostou tudo em escândalo que não comoveu minimamente o eleitorado do PT- que julga que “o PT não é o único que rouba, e pelo menos no governo deles a minha vida melhorou”- a matéria sobre as determinações do TSE para eleições mereceu duas páginas de texto que admoestava a sanha dos Ministros sobre a propaganda – o foco da matéria era liberdade de expressão, e não o fato de que um ex-advogado do PT em função ministerial estivesse se manifestando inequivocamente em favor de uma tese  falaciosa – a da igualdade de proporções entre as agressões das campanhas. Ora, quem quer que caminhasse nas ruas das grandes cidades via cartazes contendo ataques à vida pessoal do candidato do PSDB, ataques que foram repetidos em comício em Belo Horizonte no qual o ex-Presidente Lula estava no palanque. Qual ataque remotamente parecido à pessoa da candidata à reeleição Dilma Rousseff foi feito pela campanha do candidato do PSDB, Aécio Neves? Mas o TSE não viu assim, e o PSDB e seus aliados não parecem ter cogitado de anunciar ao Mundo renúncia da candidatura ou protestos mais veementes.

Hoje pedem auditoria sobre a apuração. Não sei se as eleições permitidas durante o AI- 5 tinham apuração tão secreta, mas os partidos que permitiram que somente o TSE tivesse acesso à apuração não podem ser livrados de sua parcela de culpa. A imprensa emitiu nos dias anteriores sussurros de ironia (sobretudo a matéria citada, da “Veja”) e não berros de indignação. Não posso afirmar com segurança que a direção de “Veja” não procurou a imprensa internacional, mas ao que sei isto não foi feito- alega-se nestes casos que não é esta a responsabilidade da Imprensa, embora Carlos Lacerda em ocasiões acionasse seus amigos da imprensa internacional para divulgar o que fosse de seu interesse.

Mencionei aqui neste blog a falta de senso de oportunidade da Oposição, ela é muito lenta para detectar ameaças e articular reações – estes senhores esperam o PT dar várias voltas da corda em seus pescoços tão polidos para protestar por socorro.

Esta falta de marcação de tempo é uma decorrência de falta de senso de dramaticidade dos homens da Oposição, estejam na política partidária, ou na Imprensa. Eles não mostram apreço por dramatizar a ação política, parece que tomam por vulgaridade o que quer que se afaste de fala tecnocrática ou de apelos morais que sensibilizam somente quem já esteja simpático a eles. Onde algum apelido inspirado? – as Esquerdas no Brasil contam com oficinas de textos nesta função. Uma charge de fácil absorção nas mentes interessadas na política? Uma imagem síntese adorada com logotipo ou slogan? Os talentos nesta área, Augusto Nunes e Olavo de Carvalho, por ex, não são ecoados e replicados tanto quanto deveriam – insultos e admoestações moralistas – quando não apelos aos militares – tomam o lugar das criações dos dois polemistas nas redes sociais dos seus admiradores. Enquanto isto, MAVs bolam apelidos e espalham seus boatos sem sofrerem maiores sobressaltos jurídicos.

Hoje se manifestaram contra a Presidente, alguns pediram seu impedimento do cargo, certamente outros a anulação das eleições. Que continuem se manifestando, que não esmoreçam com o resultado previsível do pedido de auditoria e de um hipotético impedimento. Que não mais deixem para pensar em política em ano eleitoral, e que incluam como assunto obrigatório em churrascos e cervejadas composições partidárias e ministérios. E que aprendam a exigir dos órgãos de comunicação que compram ou assinam compromisso com suas lutas escrevendo ao Diretor de Redação protestando contra capas mal escolhidas, ou deixando de adquirir, cancelando assinaturas.

Como os petistas fazem há décadas. Vivem a paixão política como traço existencial, dramatizam cada gesto e impregnam suas relações pessoais com proselitismo franco, sem temor de parecer fanáticos religiosos, residindo neste ânimo a matriz de força.

Estas eleições parecem ter ao mesmo tempo ter feito surgir a figura do “petista envergonhado” (‘Não sou petista, mas votar no Aécio…”) e a do tucano sem temor de colar adesivos no carro. Ambas manifestações que sugerem depurações de ambos os lados – quem apoiou envergonhado o PT e quem enfrentou o medo de represálias sendo, nas fileiras respectivas, o fiel da balança entre Governistas e Oposicionistas. Pode-se dizer:

“Em ambos, a vivencia partidária é secundária, diletante”- como o saber?
Simples. A persistência na trincheira desfaz qualquer equívoco.

Aceitou o atual sistema de forças sem espernear, debochar, cobrar dos bem assentados na Imprensa entre os oposicionistas: “Pediu prá sair”. Eu, de minha posição neste blog nada promovido por quem porventura o leia, continuo na guerra, vide arquivo .

Como entre os governistas, a cobrança, sobretudo a autoimposta, continua sendo a medida do soldado e o que o separa do simpatizante sem comprometimento.

X

A eleição para a Academia Brasileira de Letras do Zuenir Ventura me leva à sua participação num destes programas de escritores palestrando, respondendo aos estudantes em turnês de autógrafos. Foi em Viçosa por volta de 2003 ou 2004.

Na ocasião Élio Gaspari lançava sua tetralogia sobre a Ditadura, e Zuenir fazia as vezes de mestre de cerimônia da obra do amigo, avesso às entrevistas, dedicando boa arte do evento falando de Gaspari e seus livros.

Contou episódios de sua vida profissional, suas intervenções na cena cultural através dos órgãos em que editou Cultura: “Veja”, “IstoÉ”, “Jornal do Brasil”. Lembrou amigos célebres, suas atribulações durante os anos militares–  tudo num espírito de bate-papo carioca. Senti-me no “Antonio’s” mitológico dos anos do “Pasquim”, ladeado por Tarso de Castro e Chico Buarque em mesa dividida ainda com Vinícius de Moraes e José Carlos Oliveira.

As particularidades de uma “cidade aberta, com belas mulheres expondo seus corpos na praia com sua violência igualmente exposta” (cito de memora sua definição do Rio de Janeiro) foram enumeradas quando debruçou-se sobre “A Cidade Partida” (um de seus livros), e as contribuições da sua geração à cultura brasileira em sentido amplo- no que devemos de liberdade comportamental – quando tratou do seu “1968- O Ano Que Não Terminou”. Os estragos da inveja foram igualmente analisados a pretexto de explicar seu “Mal Secreto”.

A paciência com que respondia às perguntas mais tolas (“Em que você se inspira para escrever?”) ou às mais pedantes, não o impediu de ser enérgico com o que julgava mal elaborado nas perguntas e impreciso em julgamentos de estudantes que, doutrinados por professores imbecis, viam-se habilitados a discutir “politização” com um ator dos dias turbulentos nos quais muitos de seus mestres teriam se ocultado sob suas camas. Muitos ali não sabiam como nomear sentimentos de indignação e/ou perplexidade.

Eu perguntei sobre o futuro do jornalismo sob a proteção da reserva de mercado para jornalistas formados; mais precisamente se ele considerava possível surgir grandes nomes como Paulo Francis, Élio Gaspari e Helio Fernandes. Este último encaixei como provocação (não lembro se na palestra ele mencionou o episódio da lata de tinta marrom esvaziada sobre o diretor da “Tribuna da Imprensa”) que, se percebida, não mereceu dele resposta. Não lembro o que ele respondeu, pois ele foi o mais diplomático possível e estas respostas mornas do tipo “Sempre surgirão grandes nomes” não me obrigo a lembrar. Mencionei seu ensaio pra a revista “Imprensa” sobre Élio Gaspari, e ele disse o título:”Kid Megalô”.

Uma noite que me senti presenteado por um mestre do grande jornalismo (o bem apurado e melhor escrito) me vem quando invejo (no bom sentido- na palestra estabeleceu a distinção entre ‘Cobiça” e “Inveja”, a primeira sendo o desejo de possuir o que de outrem e a segunda o desejo de que outrem não o possua) seus colegas de ABL, presenteados com longas tardes de conversa deliciosa. Dá pra se invejar o fardão em casos assim.

Zuenir Ventura, O Brasil que ameaça acabar sob o avanço dos opacos e miseráveis espirituais.

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