“Notas” – 06/11/2014

Durante o último diálogo com Lobão, Olavo de Carvalho declarou que a Esquerda deu seus últimos frutos culturais com as obras “Quarup” de Antonio Callado, e Pessach” de Carlos Heitor Cony, ambos publicados em 1967. Depois disto, a Esquerda viveu do que semeara até ali, e patrocinou a “ocupação de espaços” com a qual promoveu alarmante inversão de valores na Cultura e na Política. O Brasil de hoje, violento e mergulhado na ignorância da ignorância, seria conseqüência da ação dos que de suas cadeiras no estamento universitário – e no domínio dos órgãos de comunicação – ditaram os usos e costumes da vida nacional. Olavo recordou anos em que saía de São Paulo para passear no Rio de Janeiro, indo a bailes na favela e pernoitando na praia. Lobão recordou sua vivencia na Mangueira – e suas amizades com vultos da favela mítica – que foi interrompida por um episódio de brutalidade. Olavo lançou a ideia de se traçar a trajetória do País rumo ao quadro atual: ”Como chegamos a isto?”

Ainda que seja discutível a inclusão de Cony entre os ícones da Esquerda e de que “Pessach” seja sua obra mais importante, ou última grande obra (Cony fez ainda outros dois clássicos: “Pilatos” no início dos anos ’70 e “O Piano e a Orquestra” na sua retomada de ficção nos ’90) ou que Callado não tenha feito coisa relevante após o livro citado (fez os excelentes “Reflexos do Baile” e “Sempreviva”), ou que a Esquerda não tenha exibido sua exuberância no cinema e teatro, é certo que há um deserto plantado por quem ocupou (e ainda ocupa) o alto clero cultural no Brasil. Não se chega ao “Nada Sem Saída” por acaso. Concordo com a necessidade de se traçar a História do Brasil com bases em biografias, ensaios sobre publicações, tratados sobre criminalidade e sexualidade, etc, etc, etc.

Mas pergunto: quem fará isto fora das universidades? Pois das universidades virão repostas de rotina: o Brasil chegou aonde chegou pelo processo de avanço industrial sem planejamento que causou o inchaço das grandes cidades, o ensino não propicia mais o surgimento de gerações de intelectuais (tanto de produtores de cultura como de publico receptor), e outras explicações que, embora válidas, são meias verdades obtidas após exercícios apressados de sociologia. Seriam respostas que não encheriam um artigo ou ensaio substancioso, que dirá um livro ou série de livros. Pois da Universidade só surge isto: clichês de sub-ciência social.
O que falta ao Brasil das últimas décadas é a figura do mecenas – que já tivemos. Autores que foram lançados ou descobertos por exemplo pela Ed.Companhia Nacional – desde ensaístas do tempo da Coleção Brasiliana até tratadistas e historiadores de outros séculos que a Brasiliana relançou- ou a José Olympio Ed. Ou o Augusto Frederico Schmidt inquirindo um político alagoano sobre livro que este deveria ter na gaveta, e lançando Graciliano Ramos; ou Ênio Silveira lançando não um livro , mas um autor, comprometendo-se a lançar seus livros doravante e lançando Carlos Heitor Cony. Ou o publicitário Marcus Pereira garantindo ao jovem Martinho da Vila sua carreira fora do Exército, ou José Luiz Magalhães Lins emprestando do Banco Nacional ao Cinema Novo e patrocinado coluna de Nelson Rodrigues.

Sem estes empresários, sobra somente um mecenas: o Estado, e este patrocinará somente o que advém da Universidade e nada que desafie as convenções deste meio virá à tona. Não teremos escritores traçando a história das favelas independente de organismos de sociologia canônica, ou pesquisadores investigando sem pré -justificativas de sociologia de gabinete manifestações de violência recente que arrepiam membros veteranos da Polícia e mesmo do Crime. Sem biografias de revistas e jornais – sobretudo autobiografias de Diretores de redação e de jornalistas que traçaram marcos – como traçar a hegemonia das Esquerdas no que esta tem de mais medíocre na mídia brasileira? Mas pergunto: quais editores fazem ofertas tentadoras aos pesquisadores e atores de relevo para que estes se animem a contar suas jornadas nas redações? Onde algum mega empresário de mídia que se interesse pela preservação da memória de sue negócio, sobretudo quando este se encontra ameaçado por sonhadores de um modelo de jornalismo totalmente nas mãos de “Conselhos”?

Eu lancei neste blog minhas campanhas, como a de um livro- depoimento de Helio Fernandes ou de visitas à Coleção Brasiliana em seu acervo digital, ou ainda a Biblioteca Virtual de Jornalistas Brasileiros. Acredito que sem o conhecimento do que fomos capazes fica difícil estimar o estrago e o que pode ser feito através do estudo demorado do que obtivemos de melhor no que somos competentes. Se um jornalista como Helio Fernandes morrer sem ser ouvido como Carlos Lacerda; ou se textos de publicações extintas virarem definitivamente pasto de ratos em depósitos, condenados ao esquecimento perpétuo; ou ainda autores que nos livram de complexos de inferioridade como ensaístas e tratadistas e que ensinam como estudar o Brasil em seus mais variados tópicos continuarem como leitura exclusiva de pesquisadores universitários, que poderemos exigir de gerações futuras? Como poderemos projetar um Brasil menos miserável se não nos aproveitarmos dos tesouros que possuímos por preguiça e falta de visão de longo alcance (sobretudo empresarial) dos formadores de opinião?

Uma nova Coleção Estudos Brasileiros ou Coleção Brasiliana tratando de nossas décadas se afigura impossível e muito do que vivemos será desconhecido dos que nascerão nas próximas décadas – seremos enfim como um (mau) sonho que passou muito depressa. Não acredito que não haja gente capaz de escrever e pesquisar, mas isto custa dinheiro para passagens aéreas, alimentação, salários (ou os escritores farão exercícios místicos durante o trabalho?); e quem fora do Estado seria capaz deste investimento? Ou: quem, dos quadros da Universidade, faria pesquisas corajosas e independentes, desafiando juízos cristalizados como dogmas?

Quem subiria favelas e ouviria vítimas pobres de criminosos que sempre foram justificados por sociólogos como lutadores sociais? Quem se mostraria capaz de procurar na subcultura do gueto a mitologia do criminoso como paradigma de masculinidade como formadora de mentes juvenis? Participariam da pesquisa repórteres policiais, peritos de psicologia forense, ou policiais que enfrentaram bandidos bem armados a despeito da remuneração baixa? Ou seriam reverenciados, como de costume, “doutores em causas da violência”?

No tocante ao estudo das ideias propagadas pela mídia quem seriam os autores? Professores universitários que nunca pisaram numa redação referencial; ou jornalistas que acompanharam grandes coberturas, ex- Diretores, ex-aspirantes aos cargos de Direção, que foram preteridos por motivos que, investigados, seriam valiosos para traçar perfil do que foi a instância formadora, por décadas, de homens comuns que engrossaram as fileiras do eleitorado?
Como levar esta discussão adiante, se este mesmo blog não encontra promoção e muitas de suas ideias morrem nele? A ideia do livro-depoimento do Helio Fernandes foi publicada em outros espaços sem repercussão. Não parece ter comovido nem seus adoradores mais ciumentos, candidatos à presidência de fãs clubes do veterano jornalista.

Enfim, a ideia do Olavo de Carvalho é excelente, mas não a vislumbro aplicada- e ela é – e por ela passa- a solução de muitos dos nossos enigmas.

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