“Notas” – 08/11/2014

Recebo de amigo cobrança pelo que ele considera “amargura” em posts recentes: “A oposição está na rua pedindo a derrubada deste governo, não era isto que queríamos? Ora, se a queixa usual era a da apatia da dita Oposição, a gritaria dos oposicionistas não seria um retorno das ‘Jornadas de Junho’? Ao menos, estes manifestantes não desertam de seus postos de combate, pois é fácil ser cínico e combater somente na escrita. O espetáculo da volta às ruas – quando seria compreensível certa prostração- não te comove?”

Não, não me comovo com manifestantes que já deixam a cinza apagar no fogareiro das redes sociais- em sites do governismo, os MAVs já sufocam as poucas vozes que se aventuram em seus domínios. A fúria dos comentaristas da dita Oposição parece ter abrandado uma semana após a eleição, e o que restou foi aposta em intervenção militar, ou alguma atenção do governo americano quanto à eleição que, se indigna de confiança, deveria ter sido abortada com renuncia da candidatura assim que o Tribunal Eleitoral anunciou suas regras de apuração.

Aécio Neves anunciou sua determinação de exercer oposição digna do nome, mas pergunto: “Quantos processo aos que o atacaram na sua intimidade ele tem cuidado de tocar?” Parece que, consumada a eleição, águas passadas não tomam impulso, seguindo mortas ao destino de podridão e esquecimento, com os agressores admitindo em momentos de franqueza espiritual que “pegaram pesado”, sem qualquer conseqüência prática como nota pedagógica.

Tudo faz prever uma posição resmungona e lamurienta, depositando suas expectativas nos desdobramentos de uma crise hipotética: a decorrente das delações de doleiros e de diretores da Petrobras. O que faria nítido à opinião pública quanto ao malogro do governo petista continua esperando por 2018, enquanto militantes do PT já trabalham no futuro.

O que se conhece como mídia simpática aos desejos do Capital parece segura em sua posição, ainda que o Governo tenha anunciado sua discordância quanto à divisão empresarial das mesmas e diga, agora que o gato já está no saco, que não se permitirão monopólios. Não se admite a ameaça, num mecanismo psicológico de negação que ilude somente estes empresários. A pregação nas redes sociais, obra de ex-funcionários de grandes empresas de comunicação, ora em função anti mídia “burguesa”, martela a necessidade indiscutível de adotar o modelo americano, ainda que estes bem-intencionados inimigos das grandes empresas não digam quem serão as empresas independentes e não subsidiadas que se beneficiariam do fim dos supostos monopólios. O clima psicológico está sendo preparado para o bote, mas os proprietários dos grupos que têm algo a perder agem como se nada ameaçasse a cidadela. Talvez mereçam mesmo o que terão em breve.

“Talvez mereçam”? As “Organizações Globo”, o grupo que mais tem a ser fatiado caso uma regulamentação da mídia ao gosto dos governistas seja efetuada, nunca discute política com as massas, exceto em períodos eleitorais. Os debates e programas de entrevistas com políticos em período eleitoral têm seus segundos cronometrados e a rede não parece convencida da necessidade de instruir as massas com programas de teor político e jornalístico mais doutrinário, deixando esta tarefa – que não rende lucros imediatos – para os grupos interessados em doutrinar as massas. Os episódios de depredação da sede da Globo no Jardim Botânico da História e da Ed.Abril por ativistas que se nomearam justiceiros da História parecem não ter ensinado nada aos senhores que preferem não se deixar fotografar contrariados.

“A imagem de fortaleza inexpugnável torna a fortaleza inexpugnável”- o mantra desta casta, enquanto hordas abrem avenidas em suas muralhas.

O estrago que esta casta jornalística provoca nas mentes pouco habituadas aos exercícios de leitura e análise é visível nas caixas de comentários dos articulistas de “Veja” e no que declaram estes “indignados” quando entrevistados. O filme da “TV Folha”sobre eleitores do PSDB nas vésperas do Segundo Turno está destinado a ser o documento para a posteridade do que foi feito nestas mentes que não parecem acostumadas ao hábito de leitura de livros, sendo a mídia a instancia formadora única da ideologia desta classe recém apresentada ao drama político. Muitos destes manifestantes tinham como herói e preferência eleitoral frustrada o Ministro Joaquim Barbosa, o mesmo que se deixou enxotar do Supremo Tribunal Federal – por ataques ao seu trabalho, realizado por blogueiros do governismo e replicados em redes sociais sem qualquer ação mais enérgica de sua parte.

Estes setores da sociedade, surpreendidos por monstro que se anuncia há décadas, esperam por salvadores (ainda que pouco animados ao estudo de biografias destes heróis providenciais) e por uma saída deste pesadelo, mas que esta saída não exija muito, sim? Quantos destes marchadores estão prontos a rever seus hábitos e valores; hábitos e valores que os tornam vulneráveis ao avanço dos inimigos de suas liberdades?

Os formadores supremos de opinião no Brasil, os grandes empresários de mídia, não se mostram dispostos a pagar os tributos que este posto no sacerdócio cultural implica: economizar sem sacrificar o produto, sem demitir bons jornalistas, mas diminuindo suas margens de lucro, ainda que por um tempo e concentrar esforços na doutrinação eficaz das massas contra o inimigo comum: a casta universitária que pretende, por meio de movimentos sociais, impor seu modelo de sociedade às massas desinformadas e desarticuladas.

Não há outra função social da mídia que não a de informar e formar mentes famintas por leitura e reflexão sobre o que se lê. E devemos todos cobrar dos ocupantes do clero cultural o cumprimento desta função- comentando em seus espaços, escrevendo em blogs, ou simplesmente boicotando seus produtos, pelo cancelamento em massa de assinaturas. Talvez por este expediente, leitores possam ser percebidos como consumidores críticos e forçar a melhora do produto, podendo mesmo sugerir contratações de articulistas e demissões de outros sem receber risos de zombaria dos diretores das publicações: “Estes caras não são formados em Jornalismo e querem me ensinar a trabalhar”.

Bom, que esta dissertação sobe Imprensa e pressão de leitores tem a ver com o ceticismo deste blogueiro sobre os manifestantes? Tudo. Verifico que, uma vez mais, a fantasia da massa espontânea assustando Governo e seus agentes nas Universidades e Imprensa é vendida,e à excitação cívica sucede a apatia característica da massa pouco amiga de leitura e reflexão.

Talvez certos males sejam mesmo necessários à nossa formação e se não matarem de vez o Brasil deixarão o País mais vigoroso: o espírito de classe que noto nos donos de órgãos de comunicação talvez surja revigorado e aprimorado, lapidado mesmo, depois das violências econômicas que eles venham a sofrer, tendo que assistir suas propriedades serem fatiadas e leiloadas entre gente do apoio a Governo. Os empresários que conseguirem sobreviver serão mais atentos e certamente darão ênfase ao jornalismo político em detrimento da sub-dramaturgia e do entretenimento idiotizante que hoje oferecem.

Mas não aposto nesta sobrevivência todas as minhas reservas de expectativa. Talvez mereçam mesmo desaparecer do ramo e que outra matriz formadora das mentes surja em um país mais amargo e afeito ao espírito de luta permanente.

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