“Notas” – 15/11/2014

Sobre a “Marcha”

E Lobão desistiu da Marcha que promovera ao perceber que nem todos manifestantes ali agem com sensatez e boa fé. Um bloco de manifestantes pedindo a volta dos militares desanimou o compositor e músico, um dos maiores incentivadores da marcha. Esperava o quê de gente que se coloca a marchar sem formar antes o que esquerdistas sabem imprescindível a qualquer manifestação: prévia formação de grupos e de diretrizes de ação. Há um histórico de passeatas ditas conservadoras que acabaram em palhaçadas, em presentes para governistas- mas quem aprende?

Não saberia explicar como a Direita cresceu numericamente (tanto em adesões como em coragem para se mostrar) e não qualitativamente, se me fosse dado o posto de explicador de fenômenos políticos brasileiros. Há quem ganhe para isto, e que explique, portanto.

 

Eu, do que observo, noto que muitos consideram o que chamam de “autoridade moral” um substitutivo de planejamento e estudo sério das conjunturas. Como os escândalos não dão pausa, a certeza de marchar “do lado certo” deve ser responsabilizada pelo não planejamento que torna possível grupos de saudosistas da Ditadura tomar o protesto. Tem sido assim desde ano passado (vejam o texto anterior do blog) e não noto muitos avanços, exceto declarações de líderes sobre “agentes infiltrados” e lembretes que esclarecem a não vinculação dos promotores das marchas com estes participantes (que afinal julgam ser de seu direito engrossar o cordão anti-PT) que surgem infalíveis em manifestações anti-Governo: “Eles não nos representam”. E “eles” podem responder ao feitio de Zé Pequeno: ”E quem falou que a rua é tua ?”

Não acho que seja minha função dar conselhos, sobretudo a quem não conheço e que ocupa lugar na estrutura social mais invejável que o meu, mas tentarei ainda assim:

“Lobão, não se meta com esta gente, e volte para o Rio de Janeiro e seu posto de combatente cultural na Política. Estes simplistas, tão encontradiços em São Paulo, não mudarão por suas boas intenções, e encontrarás aí um inimigo a cada passo, mais da Direita que da Esquerda – que esta nada poderá contra você, senão te aborrecer e irritar”.

Mas não sou amigo dele – que nem sabe que existo- e, portanto, me limito a dividir com meus leitores o que diria a ele se fosse alguém digno da atenção do artista. Que haja amigo que o aconselhe, espero .

Os ânimos que foram despertados pela ação de intelectuais conservadores e pelo espetáculo de arrogância do Governo e seus apoiadores são promissores, mas não se pode contar com eles se não forem educados, como seria injusto exigir do gênio liberto da garrafa alguma noção de gratidão que o fizesse dar mais que três desejos realizados ao libertador.

Há que insistir na formação de grupos de estudo e discussão política, núcleos como os da Esquerda, antes de se pensar em “sair às ruas para protestar contra estes bandidos que querem implantar o comuno- bolivarianismo no Brasil”. E de construir pontes em direção a setores representativos da imprensa internacional para que ela, não aparelhada ideologicamente, possa cobrir com isenção as passeatas. Porque contar com os serviços de “Veja” neste particular parece ser alienação, pois se fosse interesse divulgar ao Mundo o que aconteceu nestas eleições (das acusações pessoais à apuração fechada, passando pelo terrorismo econômico) a revista teria divulgado- ou é publicação chefiada por incompetentes, o que dá no mesmo quanto a esperar algo dela. Não aceito manifestações anti-Governo sem cobrar da revista sua incompetência e falta de preparo intelectual para combater, com a força no mercado que dispõe, inimigo tão perigoso – a marca, enfim, da presunção, do amadorismo, da pressa e falta de zelo.

Talvez tenha chegado a hora da autocrítica aos líderes e promotores destas manifestações, que não digam, como de costume, que “ao menos demos a cara pra bater, e você ?”

Eu não espero de manifestações mais do que o espírito de massa propicia – imediatismo, simplismo, emocionalismo. George Uscatescu,  no seu “A Rebelião das Minorias” adverte que o espírito de massa, com todas as suas tendências à barbárie que tudo arrasta consigo, é presente também na massa anti-comunista. Sem o espírito aristocrata, ou “elitista” (no sentido de depuração do populismo que corrompe a discussão política), toda a arregimentação das massas cede ao espírito da maioria unicamente numérica, que exige ser respeitada como maioria intelectual e moral. Não há sentimento nobre que sobreviva ao desfile das multidões encantadas por slogans (sem discussão de ideias) ainda que slogans anti-comunistas.

Que Lobão imaginasse uma massa razoável, cumpridora de não se sabe quais compromissos com a organização de evento aberto (o que me parece absurdo por si), é sintomático de falta de certas leituras. Que aconselhem o “Psicologia das Multidões” de Gustav Le Bon, onde multidões desfilam seu irracionalismo natural diante dos fenômenos  (sociais e religiosos) mais diversos em diferentes épocas. Ou o Ortega Y Gasset e seu “A Rebelião das Massas”- e ele não mais terá desapontamentos com as massas indóceis aos apelos à razão.

X

De um capítulo d”Autobiografia de Fernando Pawwlow”: “Meus três quase encontros com Brizola”

Foi no início de minha vida como um interessado em política que me fascinei pelo Leonel Brizola – sua oratória, sua personalidade marcante e recursos cênicos me pareceram personificar a libertação do Brasil de seu subdesenvolvimento. Não perdia entrevista dele e guardava reportagens sobre o “Engenheiro”. Não posso afirmar com toda certeza que estou curado da miragem do gaúcho mítico que foi o único político brasileiro eleito para governar dois estados diferentes, ainda que esteja hoje muito crítico das certezas nacionalistas do líder do PDT. PDT ao qual por muito pouco me filiei, tamanho meu brizolismo.

Frequentei reuniões do Diretório Municipal do Partido Democrático Trabalhista de Viçosa, cujo líder era Xico Simonini, educador e jornalista  (fundador de vários jornaizinhos nanicos na terra de Arthur Bernardes). Meti os pés pelas mãos em reuniões nas quais arengava por candidatura própria do Partido, alheio à realidade municipal, acreditando que ideias da grande política devessem moldar os fatos da política interiorana. Um bobo presunçoso nos meus 19 anos, em suma. Quem não teve esta idade e não se pronunciou gravemente sobre o que não entendia me apedreje. Lembro deste Fernando sempre que ouço petistas defender o que não se defende senão com sentimento cego, ainda que alguns destes apaixonados tenham bem mais idade que eu nesta época.

E vem destes dias minha primeira oportunidade de “apertar as mãos do Brizola” (lembram do slogan de 1989?): soube que Brizola viria a Viçosa em ‘94 e me juntei aos que o esperavam debaixo do sol durante horas.

Brizola enfim não veio, e desembarcou Darcy Ribeiro. Muitas carrancas de decepção não se desfizeram mesmo com o visitante ilustre. Ouvi de pertinho o antropólogo explicar a “adesão de Fernando Henrique aos americanos”, ele parecendo miúdo debaixo do boné xadrez, e me despedi um pouco do brizolismo diante deste momento menor do intelectual do Partido.

Alguns anos depois,  eu já de volta a Belo Horizonte (onde preenchi ficha de filiação ao PDT e jamais voltei ao partido- devem ter invalidado a ficha) soube por um pedetista que militava em Brizolândia improvisada na Pça Sete que Brizola viria no dia seguinte e que iria se encontrar em almoço com simpatizantes no aristocrático Minas Tênis Clube. Tentei argumentar no telefone com o colega de adoração do político que estaria trabalhando, e o brizolista foi tão seco (chegara a me corrigir quando eu chamei-o de Zé, “José”, e terminou o telefonema com “Bom. Aviso dado.”) que eu percebi que não tinha o que conversar com membros desta seita.

Pensei :

“Rose Marie Muraro quando vem a BH em seu proselitismo petista, almoça na Cabana do Pai Tomás,  e Brizola se reúne com seus idólatras no ‘Minas’. Tá explicado porque Brizola aqui não tem vez, enquanto o PT só cresce .”

Haveria última oportunidade em 1998, quando Brizola candidatou-se a vice, na chapa de Lula. Brizola estava certo como atração em comício na Pça da Estação, e para lá marchei. Avistando militante com bandeira do PDT, pedi que me apresentasse ao ídolo de adolescência e com esta garantia, esperei cerca de duas horas, tempo em que, abraçado à bandeira, senhorial, o militante expunha suas ideias sobre socialismo, nas quais tempos históricos se fundiam como em um samba enredo, lembro que ele mencionou os “etruscos” com indisfarçável volúpia na exibição de erudição histórica. Ao lado militante loiro de barba dizia a outro militante loiro de barba, ambos com estrelinha vermelha do PT na lapela: “Este comício está demorando, o voo está atrasado, os ‘Racionais’ estão segurando a barra aqui”e me compenetrei do papel de militantes ponta- de- lança com o proletariado o grupo de rap desempenhava.

A notícia então foi anunciada: o voo havia sofrido atraso e nele não vinha Leonel Brizola. Deixei a praça, o militante-carnavalesco do PDT, e o show dos “Racionais MCs”e a esperança de apertar as mãos do líder – e busquei o ponto de ônibus.

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