“Notas” – 22/11/2014

Leitor me envia email questionando minha sugestão de marcha aos órgãos de comunicação, principalmente contra a “Veja”, alvo já do ódio de esquerdistas que depredaram a sede da Ed. Abril, pois descontentes com a cobertura que a revista e seus colunistas na versão eletrônica deram às eleições e aos desdobramentos das denúncias envolvendo a Petrobras.

Esquerda e Direita podem ter o que Ortega Y Gasset chamava de “afinidade negativa, onde dois sujeitos têm em comum o fato de nenhum dos dois se chamar João”. Esquerdistas e direitistas juvenis podem ter os mesmos objetos de desejo sexual entre as musas do momento sem partilharem o motivo do desejo. Idem para repulsas da mesma natureza. Mas simplistas de lado e outro da trincheira acreditam que posicionamentos políticos e culturais são como devoções religiosas, e assim a fantasia de um país maduro pelos reveses guiar-se pela reflexão se adia no infinito.

“Você formando com os inimigos da gente?”

Não é possível admitir que “Veja” seja absolvida das acusações feitas aos outros órgãos de mídia, ainda que ela tenha se portado com coerência, pois o trabalho de formação das mentes foi tão falho nela quanto nos órgãos repletos de governistas; suas capas sobre dietas ou recomendações sobre manter vida sexual na velhice no lugar de avisos reiterados sobre o inchaço dos órgãos públicos e o que dele resultará como ameaça aos programas assistenciais a médio prazo. A tática do medo, de eficácia não discutível e tão cultivada entre os cantores das glórias governamentais, sendo usado contra eles. Mas apostaram tudo no escândalo da Petrobras, que tem sido de eficácia nula como arma política.

Fizeram, além disto, qualquer autocrítica? Seus colunistas admitiram ter subestimado o esquema de poder hegemônico?

Logo, não compreendo a defesa apaixonada de “Veja” por parte dos marchadores destes dias, ou o culto “ao verdadeiro partido oposicionista do Brasil, a revista ‘Veja’”. Parece mais um culto à garrafa requintada de vinho ordinário, típico do Brasil, e marca registrada dos otários de todos os matizes em todos os tempos. Muitos dos que esperam dos militares a solução da enrascada política decerto ignoram que os militares de hoje são em tudo diferente dos militares advindos das fileiras do Tenentismo e que as forças civis de hoje preferem se ajustar ao Sistema – desde que continuem lucrando- que derrubá-lo em nome de defesa de princípios estranhos a muitos deles. O PT sorri na contemplação desta massa entregue às fantasias do Passado, e trama suas armadilhas de olho no Presente.

Atribuem aos magos do marketing a derrota do candidato que escolheram sem maior filtro crítico, sem maiores exigências quanto à sua capacidade de responder aos ataques  em tempo útil . “A maioria moral não precisa lutar para derrubar organismos apodrecidos” – o mantra cantado em editoriais e artigos pomposos (sem leve rubor do ridículo) que contavam segundos para o retorno do Brasil pré –PT.

Ricardo Setti, este sim, há tempos observava avisos de especialistas sobre urnas violáveis e publicava links relativos aos pesadelos em vigor nas vizinhanças. Mas mesmo Setti depositou esperança em partido que deixou para a última hora escolha de candidato e que custou a abandonar o discurso do bom moço na apresentação aos pais da namorada. Hoje demonstra pouca cobrança com comentaristas que cobram dele maior veemência, recomendando que procurem outro blog para comentar, que do dele ele não precisa de conselhos, etc.

Mas perguntará meu amigo: “e há outra escolha entre os veículos de mídia?“ Não, não há, e nem por isto deve a fidelidade a símbolos vazios ser mantida. Blogs de análise dos fenômenos culturais e políticos brotam diariamente na internet, e estes devem ser valorizados e prestigiados, mas quais dos insatisfeitos com a mídia quer dar aos blogueiros independentes e não pagos, que trabalham num exercício de renuncia de caráter místico leitores a mais que os de hábito (amigos e parentes)?

Não, muitos destes críticos rigorosos da grande imprensa (e falo também de críticos da mesma imprensa que militam no governismo eletrônico) tratam de mencionar e elogiar somente vacas sagradas, de tetas já gastas. Por coleguismo, ou vergonha de citar ilustres desconhecidos.

Este blogueiro é um que coleciona elogios que não se convertem em citações ou elogios públicos; e que sabe, portanto, da fragilidade de ânimo de muitos dos que praguejam contra a “mídia esquerdista, inchada de militantes advindos das Universidades”.

O Governismo e o que responde por Oposição no Brasil se merecem e espero somente que se destruam o mais depressa possível, para que possa surgir então possibilidades reais.

X

“O Intelectual do Povoado”, quanto deste arquétipo a sátira não aproveitou? O provinciano deslumbrado, promovido por si e pelos seus familiares e amigo virgens de experiência no Grande Mundo a homem de cultura na cidade pequena ou no estado mais remoto chega por vezes ao cargo vitalício de Secretário Municipal de Cultura (vitalício, pois renovado seja qual for o partido que ganhe a eleição no arraial) ou peça da decoração da mesma pasta no nível estadual. Lembro de certo Secretário Municipal de Cultura de Viçosa que discutiu comigo sobre Paulo Francis, este sendo para ele “jornalista reacionário que escreve para jornais de Direita como ‘Estadão’”, mostrando este sábio de paróquia desconhecer o Francis de “O Pasquim” e “Folha de S.Paulo”. Como ele, há tantos…leitores se lembrarão da professora doutora em Literatura Brasileira que desconhecia Dalton Trevisan, confundindo-o com um quase homônimo autor de livros espiritualistas…

Carlos Imperial certa vez, no início dos anos ’80 visitou, não sei o motivo, Uberaba, cidade que morei de 1979 a 1984. Havia, não me lembro se na repetidora local do SBT, ou da Band, ou da finada Manchete, programa de debate de nome “Bigorna” e Imperial fora convidado.

Quem numa cidade do interior não estaria diante da televisão numa ocasião deste tipo, no qual visitante ilustre do “eixo Rio -São Paulo” (clichê da comunicação mineira que irrita, pois busca se desculpar de suas deficiências com resmungos de recalque contra grandes centros que chegaram aonde chegaram pelo grau de exigência) se digna a falar aos aldeões?

Conhecia Imperial por seu programa de sábado na já extinta “TV Tupi” e acordado fiquei junto aos meus pais num dia de semana, com aula a comparecer na manhã seguinte. O apresentador e compositor discorrendo com a ironia característica (eu diria deboche) sobre moral, costumes, cultura popular, controvérsias sobre “músicas roubadas” (plágios) e explicações (as quais ele dava com o enfado de quem já as havia repetido milhares de vezes) sobre suas máximas. Esclareceu controvérsias (ou tornou-as ainda mais controvertidas) com figuras da cultura  brasileira e justificou sua militância no brizolismo pela preocupação dele e do líder Leonel Brizola com a educação para as massas.

Uma entrevista que poderá ter se perdido sem que autoridades municipais de Cultura tenham feito qualquer esforço para preservar este momento destinado a ser histórico.

Como de hábito, esta entrevista contou com perguntas gravadas previamente com público de externas, e em uma delas, “O Intelectual do Povoado” surgiu. Filho de intelectual veterano na cidade, com casa literalmente lotada de livros que cobriam a parede de ponta a ponta, era figura constante no “Bar da Viúva”, versão uberabense do “Antonio’s”, ponto da intelectualidade esquerdista local, um destes locais que, se houvesse serventia real para Secretarias de Cultura, esta seria preservar da voragem imobiliária estes templos de boemia e cultura (escreverei a respeito, em breve). Quando o “Intelectual de Cachimbo” apareceu no vídeo, Imperial defendia a necessidade primeira do investimento em educação. Interrompeu para ouvir a pergunta:

“O Sr acredita estar contribuindo com a cultura no Brasil com estes filmes ‘pornográfico’ (sic)?”
Imperial começou respondendo, sem transição, com:

“Não disse que o problema do Brasil é falta de escola?”

Meu primeiro contato com a palhaçada que é a “vida cultural brasileira” foi este.

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