“Notas” – 27/11/2014

Salomão, ao pedir Sabedoria, não se mostrou homem já sábio?

Não conheço maior mostra de sabedoria manter-se calmo diante de provocações de tolos e presunçosos, enfrentando-os com fatos, fatos e mais fatos, mesmo quando a vontade de recomendar-lhes leitura mínima e debochar das suas bobagens surgir imperiosa.

Jean Wyllys no episódio recente, onde confrontado por jovem negra que o qualificara como “apenas um ex-BBB”, demonstrou ser um homem sábio, ou um militante muito experiente, e conhecedor das técnicas de desestabilização emocional do oponente – técnica consagrada nestes dias como modo argumentativo dos movimentos sociais simpáticos ao Governo, que obedecem à lógica de destruição do oponente, pelo coro de risinhos, ou pelos exercícios de “democracia do grito” (“Quem é você para opinar sobre alguma coisa? Quem é você?”).

O deputado Wyllys enumerou suas iniciativas e projetos que, ainda que não se esteja de acordo com parte delas, revelam coerência e operosidade com ideário pelo qual se notabilizou. Não deixou de citar autores como Jacques Derrida, Jean Baudrillard e Antonio Gramsci para, além de ancorar suas concepções sobre Cultura e Política, marcar território- “apenas um ex-BBB”não apresenta discurso organicamente construído como o que expôs, e que contrastava de maneira tão inequívoca com o de sua inquiridora, notadamente inarticulada, mera recitadora de clichês ditados por lideranças de seu movimento.

Wyllys foi apresentado, ao que parece pela primeira vez, ao que muitos destes militantes entendem com debate: ”Eu posso falar porque membro de uma minoria vítima de perseguições e você tem o direito de ouvir calado gritos e (tentativas de) desqualificação de seu ponto de vista, posto que branco, classe média, rico, etc”.

“Não apoia cotas? Claro, o que um branco rico como você entende de não ter acesso às oportunidades?”

”Olha, você tem colegas de etnia e classe social que estão lá, aos quais você insulta com sua lógica”. Não preciso dizer como se dá o resto da “troca de ideias”, preciso?

Relatei aqui no blog discussão minha com militante (jovem) que desconhecia Abdias do Nascimento, mas se julgava portadora exclusiva do direito de discutir questões de classe e raça, e senhora do vocabulário a ser usado na roda aberta a todos, pois em recinto público.

Não relatei diálogos com professora negra visivelmente irritada por eu demonstrar conhecer de James Baldwin tanto ou mais que ela, ou olhares de indignação que minha mãe e sobrinha receberam de alguns negros em show de Luiz Melodia no Parque Municipal (“Que fazem aqui estas loiras?”, diria a legenda sob seus olhares).

São oriundos de gente que toma a luta – mais que legítima, pois necessária – dos negros como um trampolim social. Não invalidam, e tenho certeza que Jean Wyllys pensa como eu, a luta e o Movimento Negro em sua luta já antiga de décadas. Recomendaria a estes deslumbrados com o poder da militância leitura de “O Negro Revoltado “ de Abdias do Nascimento, sobretudo as transcrições dos debates dos Congressos de organizações dos negros; perceberiam então que a luta que tomam para si tem heróis verdadeiros, muito anteriores aos líderes do dia. Gente que tomou defesa dos seus direitos muito antes da fundação do PT – que muitos destes desavisados tomam como pedra inaugural de lutas sociais no Brasil.

Jean Wyllys teria a sabedoria, pergunto, de problematizar este episódio como emblemático de muito do que corre no Brasil por militância em movimento social, de ver nele uma constante e não exceção? Miraria para muitos exageros de gente do Movimento dito LGBT? Terá compreendido o perigo de estabelecer entre nós código estrito de linguagem, muito dele importado sem filtro de outros países, e culturas? Wyllys fez referencia à “República dos Especialistas” que determina até mesmo quem pode ser considerado negro (ele fora rotulado”Afro Conveniente”) e por conseqüência autorizado a discorrer sobre assuntos da população negra, mas terá se perguntado se muitos militantes do Movimento Gay não agem de forma idêntica (chegando mesmo a interromper argumentos em conversa para “corrigir” termos)? Não teria ocorrido ao militante, hoje deputado, que muitos dos juízos que se formam sobre pessoas que discordam das diretrizes do Movimento no qual milita não seriam tão autoritários como os que ele experimentou no debate ao qual fora convidado?

A tentativa de suprimir trechos de livros de religiões (religiões estas que não exigem adesão), ou de afrontar líderes que somente pregam para pessoas de suas confissões religiosas, não parece ao ilustre professor universitário, hoje deputado, também um abuso, um avanço ao totalitarismo? Não têm os religiosos direito à indignação com o vilipendio praticado a pretexto de “luta contra a intolerância e homofobia?” Não teriam homossexuais que escolhem não se manifestar o direito à discrição, e portanto ser também autoritária a acusação de que estes “não saem do armário por covardia”? Enfim, questionamentos que talvez tenham ocorrido ao estudioso das questões de Poder e Cultura, Deputado Jean Wyllys.

Não digo que ele incorreu, ou que apoie (não sou um estudioso de sua biografia, confesso) qualquer dos procedimentos enumerado no parágrafo anterior, mas muitos militantes da causa dos homossexuais, sim, e com freqüência. Não seria momento de reflexão sobre excessos e equívocos do Movimento? Reflexão e consequente reexame de estratégias para que a desmoralização não seja o resultado pelo qual muitos inimigos desejam?

O que acredito é na força pedagógica de certos dissabores, e homem que não se destemperou, antes mantendo-se calmo e forte, é sábio o bastante para extrair deste episódio os elementos para muitas discussões consigo e com os que o admiram. Poderia pensar: “Bem feito, provou do próprio veneno”. Mas lembro que não será assim que construiremos uma Nação crítica e pronta a combates, uma democracia de contrários se respeitando.

Eu confesso que passei a perceber este homem de outra maneira.

X
Escrevi no texto anterior sobre os senhores de certos assuntos, sim? Os que detêm o direito a discutir certas questões, pois membros de segmentos “com carga histórica”.

A moral sexual é bandeira que, em se tratando da recusa de valores já defuntos, caberia à Esquerda, não? A Direita, em sua maioria defendendo valores da família e da moral de aparências. Assim divide-se o tabuleiro, com algumas exceções (por exemplo, os velhos stalinistas do “Partidão” -Partido Comunista Brasileiro) de outras décadas.

Há surpresas para os que leem, contudo. Mesmo homens cultos da Esquerda, fora do influencia do Partidão, guardam suas prevenções à revolução dos costumes, e neles notamos puritanismos que julgamos ser deboche dos puritanismos da Direita, mas que não o são. Lembro de jovem meio hippie, simpático ao PT, que conheci em meus dias de universitário que me repreendia quando olhava (sem cuidados com discrição, admito) os encantos de nossas colegas. Um dia, ao emitir juízo sobre uma paixão do jovem hippie levemente esquerdista, ouvi dele palavrão e olhar de censura, que sustentou enquanto se afastava de mim, a mímica do homem são recusando o convívio com o leproso sendo encenada de maneira que nem o riso foi possível.

Folheando livro – coletânea de artigos de Roland Corbisier para a “Tribuna da Imprensa” (penso que “As Raízes da Violência”, ou “As Origens da Violência”, ou algo do tipo) – leio considerações de Corbisier sobre o estupro. Segundo o intelectual (que morreu militante do PC do B, salvo engano), “mulheres que saem às ruas vestidas com biquínis sumários, como se no banheiro de suas casas” seriam tentações aos homens que, por sua condição social, só teriam acesos sexual a elas pelo estupro. Elas, portanto, seriam culpadas por provocar trabalhadores subjugados pela condição social adversa, agindo como lembretes insultuosos da miséria na qual eles viviam. Que tal, feministas?

Fosse esta tese defendida pelo Olavo de Carvalho, o livro já teria sido apreendido, após abaixo-assinados e passeatas. Como foi o venerável Corbisier…

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