“Notas”- 29/11/2014

“Ali ,onde está aquela banca de revistas, nos reuníamos, e quando chegava o Sebastião Nery a gente falava: ‘Cuidado, lá vem o Olho de Moscou’ ”.

Meu pai me mostrando a Pça Sete, do ponto de vista do”Café Pérola”:

“Aqui na frente cansei de ver Pedro Aleixo, com as calças ’pega frango’ “, continuava.

“Ali está o Dídimo Paiva, um dos jornalistas cultos do Brasil” e me apresentava ao amigo de juventude.

Acostumei a ter o “Pérola” como muito mais que um café de esquina da Pça Sete, mas como templo da Cultura de Belo Horizonte, pois dele me contava meu pai os encontros com gente que fez história na cidade, muitos deles seus professores na FAFICH, como Francisco Iglésias e João Camilo de Oliveira Torres.

Os azulejos, os pires, as colherinhas e mesmo os cones de açúcar me pareciam mágicos, pois tocados pelos mineiros que levaram Minas Gerais à mitologia, como Carlos Drummond de Andrade, e Paulo Mendes Campos, e mais Fernando Sabino, Helio Pellegrino e o Otto Lara Resende – quantas reportagens de TV não trouxeram estes já visitantes ilustres para tomar café na esquina da Afonso Pena com Av. Amazonas, no “Pérola”, comparando a cidade atual (do tempo em que filmavam, sim?) com a cidade do tempo do “Encontro Marcado”?

Hoje no lugar do “Pérola” , vistoso Mc Donald’s.

Este um exemplo que colho por acaso entre tantos pedaços de uma BH destruída por um progresso que não a deixou mais progressista, ao contrário.Ela era cidade mais civilizada quando na mesma Pça Sete rodas de velhos discutiam política, próximos dos jornais pendurados nas bancas de revistas. Lembro da primeira eleição do Marcio Lacerda, em que me deixei conversar com um seu eleitor (ainda que eu não me tenha deixado convencer, nunca votei no atual prefeito) pelo prazer da prosa, pelos argumentos de café, as recordações de uma BH onde era possível esta conversa me arranhando a memória carinhosamente.

Hoje há, onde décadas funcionou o “Cine Brasil”, centro cultural. Nunca entrei, cheguei mesmo a perder mostra de Portinari (painéis que são disponíveis somente aos representantes na ONU), pois aquela sala está a mim carregada de memórias, me seria opressivo entrar na sala onde lançamentos de Hollywood eram saudados com comentários da platéia ruidosa e muito, muitíssimo escrachada:”Galoooooooooooooooooo!!!”, “Cala a boca faveladoooooooooooooo!!!”, entre outras manifestações como arrotos, uivos, assovios, etc, etc, que são, todavia, mais civilizados que os atuais freqüentadores das salas de cinema de hoje que encostam o pé nas nossas costas e braços enquanto conversam baixinho durante toda a exibição, e sequer têm a gentileza de nos fazer rir um pouco. O que aquele templo tinha de cultural, se entendermos como cultura algo vivo, não está lá hoje.

O que me lembra de bares também míticos que fecharam, em Belo Horizonte e em tantas cidades. Bares que foram palcos de parcerias musicais, de discussões que resultaram em jornais e revistas, onde montagens teatrais foram tramadas, e que não resistiram às pressões da praga do movimento imobiliário, este cupim devorador de cidades. Há um deserto cultural onde certas revitalizações urbanas são realizadas, nos parques temáticos para contemplação de caipiras que não supõem o que estas cidades já foram e jamais tornarão a ser, e aos que rotulam quem lamenta isto “saudosista”, respondo: “Fácil não ser saudosista quando ignorante da cidade, quando se é um animal falante apenas, alheio à vulgarização e ao nivelamento por baixo, característicos do que passa por progresso no dias de celebração da mediocridade como meio de sobreviver sem sustos”.

Novaiorquinos cultos lamentam o preço pago pela paz que desfrutam, pois fruto de política que, embora apresentasse queda expressiva da criminalidade, resultou na completa descaracterização da cidade, hoje centro gravitacional de turistas incultos e lar de gente que parece aceitar sem queixas a mudança de vocação da cidade- de polo de cultura, onde muita gente sem grana e muito talento aportou- a destino de turismo de compras. O lendário “Chelsea Hotel”, hoje em outras mãos, não mais recebe gente como Arthur Miller, Patti Smith, Bob Dylan e os brasileiros Jorge Mautner e Antonio Bivar, entre outros tantos sonhadores e artistas que nele fixaram residência em épocas distintas. Outros tantos hotelecos da mesma região também desapareceram, e NY não mais sediará revoluções culturais que a fizeram ser admirada e modelo de cidade para todos que ambicionam fazer história com os meios imateriais que dispõem.

O Rio de Janeiro perdeu nas últimas décadas quantos bares como o “Antonio’s”, palco da boemia de militância política e cultural mais relevante que o país testemunhou? Não passa por este fechamento de lugares de convívio inteligente muito do triunfo da vulgaridade e da violência? Não se poderia deter o processo de demolição dos sítios culturais com políticas de parceria entre empresários e Governo, em forma de incentivos fiscais à manutenção destes estabelecimentos que são muito mais que meros empreendimentos privados? Qual a serventia das secretarias de Cultura, afinal? Somente guichês de captação de recursos para espetáculos e prêmios de consolação aos políticos derrotados em eleições? Por qual razão se permite que a Cultura fique em mãos de insensíveis aos avanços da praga da especulação sobre as cidades?

Voltando a Belo Horizonte, não se percebeu no fechamento do “Café Pérola “ agressão incontornável a tudo que Belo Horizonte tinha de mais precioso- o espaço de reunião de inteligências? Não se avistou naquele vácuo os futuros ocupantes, a degradação cada vez mais desoladora do Centro? Desconfio que estivessem na ocasião discutindo a bilionésima reprise do “Carmina Burana “ no Palácio das Artes, ou o loteamento de cargos.

Tudo isto torna observadores como eu amargos e nada otimistas quanto ao futuro;  como teremos gerações  civilizadas se os espaços públicos são desestimulados, ou não preservados, por gente que se supõe talhada para esta missão? Não tem como a negar que as cidades são mesmo mero depósito de gente inculta e afoita, pontos finais na rota de caipiras desgarrados e de aventureiros de todos os tipos.

Parece ser este fenômeno comum a todos os países, numa volta às cavernas celebrada por imbecis: ”Tenha tudo no seu bairro, vamos tirar o trânsito do Centro, etc, etc.” Cidades dominadas por estúpidos ao volante e por búfalos em filas de ônibus, em supermercados que recebem senhoras que não são capazes de manobrar seus carrinhos sem atropelar quem esteja no caminho. Quem não presenciou este zoológico se expandindo?

Este abrir de jaulas começa no fechamento de lugares onde o ser humano se encontra com iguais para tratar de coisas humanas. Quem não percebe isto é parte do problema.

X
Quem que tenha lido qualquer livro do Fernando Morais duvida que se ele redigisse a lista telefônica, esta seria leitura prazerosa? Mesmo seus livros mais descaradamente apologistas do stalinismo como “A Ilha“ e “Olga” fixam leitores.  Sem mencionar obra como“Chatô”, que faz leitores como eu salivar pela biografia do Antônio Carlos Magalhães, adiada para dar passagem a livros sobre personagens do PT.

Não li sua biografia do Paulo Coelho, nem a de um pioneiro da aviação, “Montenegro”, mas sei que estou perdendo bocados de prazer, pois lendo agora seu “Corações Sujos”. Livro que parece obra de ficção, sobre japoneses que se recusaram a admitir a derrota do Japão na Segunda Guerra, e que embarcaram na loucura de reescrever a história para os seus patrícios no Brasil, adulterando edições de revistas e produzindo noticiário delirante sobre a humilhação de outras nações diante do Japão, que fora alvo de ataques devastadores dos aliados e que na ocasião não fazia prever seu renascimento como potência econômica dali a duas décadas. Os delírios destes nacionalistas divertem, embora sejam, como frisa o autor, retratos de demência coletiva, amostras de patologia mental.
Como não lembrar destes japoneses do imediato pós guerra sem ler o noticiário produzido pela imprensa governista no Brasil de hoje, coalhado de recriminações ao “derrotistas” e “mal agradecidos” (estes qualificativos moralistas, emitidos por gente de Esquerda, confundem observadores que esperam alguma lógica). Declamações de números, ainda que evidentemente maquiados, ou de promoções de massas inteiras ao status de classe média, por decreto, formam o material que divertirá futuras gerações de estudiosos do fenômeno.

Um dos mais apaixonados cantores das glórias do governismo é , por ironia, Fernando Morais. E isto sim, demandará estudos caudalosos , comparações divertidas entre seu livro sobre japoneses lunáticos e suas declarações sobre o Governo que , ao que parece, terá no escritor integrante na área de Cultura.

Sempre é possível, no Brasil, a história se apresentar como peça de ficção, de humor absurdo.

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