“Notas”- 04/12/2014

A História do Brasil parece ser (pelo que se lê em comentaristas e mesmo em alguns articulistas), redigida em bilhetes dos quais observadores extraem fórmulas de análise política. Nuances e fatos colhidos em épocas distintas não contam aos que emitem seus juízos sobre temas e termos -chave como “Democracia”, “Ditadura”, “Futuro X Passado”, “Cidadania“, entre outros recursos retóricos mais batidos ainda. Quando algum forasteiro interrompe discursos com fatos e possibilidades que eles contêm, ou atribuem ao intruso intenções oblíquas ou ignoram a intervenção, como se esta tivesse sido ruído apenas.

Traindo meus votos de não mais comentar em sites e blogs (pois blogueiro, que pode, e deve, utilizar o próprio espaço para se manifestar), comentei em texto de comentarista – que se assina “Valentina de Botas” – freqüente no blog de Augusto Nunes , no site de “Veja”. Texto no qual respondia aos comentaristas que haviam se declarado ofendidos com texto anterior de sua autoria (ou comentário convertido em texto na coluna) no qual admoestava os manifestantes que pedem a volta dos militares ao governo do Brasil. A argumentação dela era semelhante à do titular do espaço: “Os militares aceitam o pedido de intervenção, e ficam então vinte anos cobrando o favor”. Ou : “Não se pode declarar surpreso com Ditadura quem pede socorro aos milites,pois eles não intervirão e voltarão depois aos quartéis”.

Bem… quem lê História do Brasil sabe que 1964 não foi a única intervenção dos militares na política. A República foi um Golpe no Império, e 1930 foi movimento militar, ainda que houvesse um líder civil, Getúlio Vargas, encabeçando a governo. Ou 1945, ou 1954, ou 1955 … Historiadores poderão enumerar outros pronunciamentos que não foram seguidos da permanência no Poder, e não esgotarei o assunto aqui no blog, pois livros – e mesmo a internet- estão disponíveis aos interessados. Mas no caso de 1964 penso que cabe um parêntese explicativo – o qual expus na caixa de comentários do artigo da comentarista:

Quando derrubaram João Goulart, os comandantes do movimento militar não tinham sequer candidato ao cargo de Presidente – Carlos Lacerda conta, em seu “Depoimento”, a reunião que governadores que apoiaram o golpe tiveram com o Marechal Costa e Silva, no qual o chefe militar deu murro na mesa quando comunicado que o candidato a ser apoiado pelas lideranças civis seria a do Marechal Castelo Branco: “Mas ficou combinado que nenhum de nós assumiria”. Lacerda conta ainda que a prorrogação do mandato de Castelo Branco fora aceita tacitamente por muitas lideranças civis (lideranças da própria UDN) e que mesmo ele fora dissuadido de resistir com energia, por conselhos de seu amigo Julio de Mesquita Filho, proprietário de “O Estado de São Paulo”.  Helio Fernandes conta versão próxima a esta. Portanto, atribuir aos militares somente a Ditadura que se seguiu, ou sustentar que a derrubada de Jango foi a mãe da Ditadura, é maquiar a História de acordo com ideologias – não importa se liberal ou comunista. Os civis tiveram sua culpa, pois colaboraram prestimosamente com o enterro da “República de ‘46”. Omissões de civis são o fermento do desespero de quem sonha com Militares de volta à cena.

O comentário que postei no dia 02/12/2014, às 1:07 – o primeiro a comentar, verifiquem- foi repetido (ainda que melhor desenvolvido aqui, mas com os mesmos fatos enumerado) no parágrafo anterior, basicamente. Mereceu do titular do espaço e dos demais comentaristas – e sobretudo da comentarista que teve seu texto publicado como artigo – o silêncio destinado às coisas desprovidas inteiramente de importância. Um nada, um zumbido, cujos dados (pelo visto desconhecidos da maioria ali) embutidos nele não mudassem em nada qualquer lógica de Poder, como se não provasse – com fatos e nomes- que a premissa do texto da comentarista (repito, a mesma do articulista dono do espaço) era falsa, carecia de sustentação histórica.

Em meu comentário, manifestei concordar com Augusto Nunes em algumas de suas respostas aos leitores que insistem na “saída militar”: os militares de hoje não são os mesmos das décadas de ’40, ’50, e ’60, oriundos do “Tenentismo”, que tiveram como guias espirituais veteranos da Guerra do Paraguai. O Exército de hoje parece transfigurado ao gosto do PT (utilizei estas palavras) e nada impede que o socorro não venha atender necessariamente o chamado da Oposição, e sim ao Governo, ao atual sistema hegemônico.

Mas os comentários todos que vieram em seguida trataram de suposta “arrogância” da comentarista- articulista, de brios de comentaristas ofendidos com a veemência, etc, etc, etc.

Não deveria me surpreender, mas ainda me surpreendo com o vazio mental desta gente que se debate sob o PT, fantasiando retorno mágico ao pré- 2002, sem qualquer exame de suas práticas cívicas e, vá lá, intelectuais. Agem quase todos (senão todos) como se o atual quadro fosse nada mais que um pesadelo que esteja demorando excepcionalmente a terminar, como um engano histórico cujo desenlace não exigisse mais que insultar em caixas de comentários ou postar memes nas redes sociais. Por que então levariam em conta comentário que mostra, com fatos, nomes e fontes (o livro de Lacerda,ou arquivo de textos de Helio Fernandes) que nem toda intervenção militar leva fatalmente a uma ditadura? Afinal, nem a articulista de turno nem o titular do espaço se manifestaram…

Com oposicionistas deste calibre, o Governo não carece de amigos, e com imprensa adversária deste tipo, gastos com imprensa favorável tornam-se anda mais obscenos.

X

Falar em dados importantes considerados minúcias, a fala de Vladimir Putin, ontem, na qual ele mencionava o apoio que conta de países da América do Sul não mereceu maiores considerações, ainda que seja confirmação suprema do braço russo, comprido como ele só, agindo no “Foro de São Paulo”. Parece que foi apenas um zumbido de microfonia que tivesse sido captado pelo áudio das TVs, nada mais. Nenhum comentário, nenhuma menção ao perigo que corremos todos; as reservas ideológicas se fundindo na incompetência – tudo a serviço de um suicido das grandes empresas em mãos de herdeiros pouco apegados aos livros.

Lembrei do Olavo de Carvalho e de outros combatentes que tiveram perdas reais em suas tentativas de alertar a classe jornalística, para que estas informassem as massas – em vão.

Mediocridades são sempre premiadas entre nós e as páginas mais amargas –embora satíricas- do Lima Barreto em seus livros de crônicas- “Bagatelas”, por exemplo- me ocorrem, e ouço então o sussurro zombeteiro: “Você ainda espera algo do País, rapaz? Melhores que você sucumbiram sob o silêncio dos sabotadores de carreiras e da ação eficaz de demolição de vocações. Recorda a História e a biografia de algumas de tuas admirações”.

Não sei se haverá o que lamentar quando venezuelanos e bolivianos, sob orientação de colombianos comandados diretamente por cubanos dominarem por completo o Brasil- o qual será mera província da “Pátria Grande” sul-americana, associada à Rússia de Putin.

Não teremos merecido? Acaso ensaiamos algum esforço de recuperação intelectual das massas, massas que abraçarão os “libertadores” sul-americanos (o exemplo recente dos médicos cubanos sendo recepcionados com carinho pela população sem médicos brasileiros dispostos a socorrê-la, dispensando explicações), e não sem razão?

Vi nos olhos do líder russo a certeza dos que sabem próxima a hora de uma vitória decisiva aos rumos da História, pois conhecedores da nulidade intelectual e de vontade do inimigo, e não me congratulei pelo achado. Sofreremos todos, afinal.

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4 respostas para “Notas”- 04/12/2014

  1. Valentina de Botas disse:

    Olá, Fernando!
    Não achei nem deixei de achar que seu comentário, lá no AN, ao meu texto merecesse “o silêncio destinado ás coisas desprovidas inteiramente de importância” (sic). Não tenho tempo, caro Fernando, de responder a cada leitor que me deu a satisfação de ler o que escrevi, concordando ou discordando dele. Não escrevo procurando concordância. Na verdade, só soube que meu comentário tinha se transformado em um post quando o vi, no dia seguinte, publicado na home. Escrevo aqui para você, rapidamente, apenas para dizer que não é minha resposta que dá mais ou menos importância ao que você pensa. Nem é sua leitura que dá mais ou menos importância ao que penso, como não é eu ser publicada na home da coluna de um grande, talvez o melhor jornalista brasileiro da atualidade, que dá mais ou menos importância às minhas opiniões. Visibilidade não é sinônimo de importância. Alguns leitores se aborreceram com o que escrevi, você se aborrece com meu silêncio. De resto, Fernando, o fato de nem todas as intervenções militares terem resultado em ditadura não elimina o perigo. E daí, Fernando? De fato, nem todos os atropelamentos resultam em morte, mas não conheço ninguém que queira se arriscar. Nos meus textos, não relaciono subsequência à consequência: a ditadura militar que amargamos veio na subsequência à intervenção, mas não foi apenas a intervenção a causa da ditadura. Ainda que nunca tivéssemos tido uma ditadura militar, eu não apoiaria o cartaz cretino que pediu a intervenção pela mera razão de que não vivemos nenhum problema de natureza militar, que requeira expertise militar. Precisamos de mais democracia. Essa era a premissa dos meus textos, e não o que você julga ter provado falso com a bibliografia dos seus comentários. Enquanto você achou que não dei importância, falo por mim, claro,pois não sou porta-voz do colunista titular, eu apenas não tenho tempo. Não se aborreça, amanhã tudo já será ontem.

    • fernandopawlow disse:

      Cara Valentina de Botas, muito me honra ter seu comentário em meu blog. Você é -junto com o Oliver e o Reynaldo-BH- os melhores comentaristas em expediente cívico no Brasil.Alguns outros são bons, mas vocês ajudam a enobrecer o espaço de um jornalista que,de fato,em seus melhores momentos,é de nível de Carlos Lacerda e Paulo Francis.AN quando tocado pela fúria tange mesmo Nelson Rodrigues.Tem a coragem (e o verbo inspirado) de David Nasser.
      Por isto,por minha admiração por este jornalista e por seu “Timaço de Comentaristas”, sou muito exigente com o que sai ali. O que sai no 247 (do qual desertei como colaborador voluntário, quando o site se provou governista)e no blog “Tribuna da Internet” (idem ),ou em outros redutos de governistas (os quais não merecem citação nominal, mas que você certamente sabe de que falo) não me irrita.Sei que nada de bom pode florescer nestes vasos,e não me pronuncio.Nem mesmo em outros blogueiros de “Veja” (exceção ao Ricardo Setti,outro soberbo jornalista, com elenco notável de comentaristas) colho tópicos.Portanto, fico chateado quando ignorado em comentário que julgo (concorde-se com ele ,ou não) embasado e minimamente bem redigido,por mais infantil que isto seja.Sou um blogueiro com alguns anos de blog e algumas batalhinhas (que não foram e não são divulgadas por ditos “admiradores” do meu blog) contra este mar de esgoto opinativo na internet.Mas reconheço que você não é obrigada a saber quem sou.
      Não defendo intervenção militar,principalmente pelo que nota o “Bravo Augusto” : O Exército de hoje em dia não é, muito ao contrário,garantia contra o domínio petista absoluto. Considero apenas que Intervenção Militar somente não nos dará Ditadura, o que a bibliografia citada por mim e a História do Brasil mostram.Quis enriquecer o debate,não defender o que,repito, julgo inconfiável.Penso que sem mergulho em nossa literatura histórica e sem enfrentamento de tabus,cara Valentina de Botas, a Democracia corre perigo.E contra esta simplificação e contra este obscurantismo é que meu texto se dirigiu.
      O sarcasmo ao espaço e aos comentaristas – e não serei hipócrita- a você, é antes de tudo,e sobretudo,reconhecimento de relevância.
      Não debocho – ou combato com carinho- de quem não tem importância, de quem nada contribui.
      Se você me honrar com mais visitas (nem falo de comentários), perceberá este padrão em minha conduta.
      Continuemos nosso combate,pois do contrário, amanhã estaremos todos sob ordens de Comissários do Povo.
      Saudações do Pawwlow

      PS-Agradeço à comentarista a transcrição literal de frase que necessitava de correção gráfica- efetuada,afinal.Sempre apanho da crase na digitação de meus textos e muitas vezes a crase invertida repousa anos no blog.Mais uma vez,obrigado.

  2. Valentina de Botas disse:

    Quem agradece sou eu, Fernando. Compreendo seu ponto e lamento a descontinuidade do debate. Mas, tenho certeza, ainda voltaremos a falar a respeito, pois, infelizmente, essa nostalgia pelos militares é bem real, ainda que difusa. Há um novo post meu lá no AN sobre a covardia dos jornalões (a chamada grande imprensa que só se apequena) que, inclusive deram a repercussão absurda ao tal cartaz, como se ele representasse o espírito daquela manifestação. Visitarei este seu espaço sempre que puder. Um abraço

    • fernandopawlow disse:

      Lerei o post no AN, Valentina.Quero acrescentar uma coisa que minha resposta não deixou clara – ainda que eu tenha certeza que você tenha percebido:

      O que mais me irritou no episódio do seu post foram os comentaristas imbecis que passaram ao largo do mérito das questões colocadas por AN,por você e por mim, e te rotularam de “arrogante”, dona da verdade”, entre outras demonstrações de subnutrição mental.Eles desanimam e fazem qualquer debate gorar.Os petistas sorriem…
      Volte sempre a este espaço,e debata sempre que desejar.
      Abraços do Pawwlow

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