“Notas” – 06/12/2014

Público alimentado por vinhetas de noticiosos com o usual close de coturnos marchando e flashs de estudantes levando bordoadas – a dieta de cultura histórica servida por redes de TV – acredita que a Ditadura foi o resultado lógico de uma quartelada precedida por marchas de donas de casa que assistiam Flávio Cavalcanti, casadas com leitores de David Nasser. As movimentações golpistas em torno dos comandantes do Golpe de ’64 da parte de civis que desejavam uma nova ordem político-partidária (sobretudo nomes da UDN que não mais queriam subsistir à sombra de Carlos Lacerda) e de juristas que elaboravam seus projetos de “Constituições Revolucionárias” (vários aspirantes a constituintes de gabinete) parecem não ter sido apresentadas a muitos dos que versam nestes dias de inquietação sobre intervenção militar- contra ou a favor. O que se lê em caixas de comentários (o post anterior deste blog trata disto) não deixa dúvidas sobre o jejum de História do Brasil dos comentaristas.

 

Deveriam ler o volume 1 de “Os Militares no Poder”, do Carlos Castello Branco, primeiro livro da série de coletâneas de seus escritos da “Coluna do Castello”, leitura obrigatória de jornalistas e políticos , em décadas de pág 2 do “Jornal do Brasil”, diário da evolução da tomada do Estado pelos golpistas militares e civis. A leitura deste material corrigiria muitos equívocos de análise de conjuntura baseada em supostos exemplos da História. Parece que a “Nova Fronteira” (editora do Carlos Lacerda que lançou os livros originalmente) relançou a série, e há também textos disponíveis no endereço eletrônico http://www.carloscastellobranco.com.br- site dedicado ao jornalista do Piauí que elevou a coluna política ao nível de arte. Quem o assistiu no “A Idade da Terra “ de Glauber Rocha, discorrendo sobre o “Golpe dentro do ‘Golpe de 64’ ” sabe a gema que este material representa aos interessados em Jornalismo e em História do Brasil. Portanto, “fica a dica”- como nossos contemporâneos terminam seus aconselhamentos. Quem ainda palpitar sobre acontecimentos dos anos ’60 de maneira apressada, confiante na ignorância da plateia que faça-o sabendo que material para embasar opiniões há, e acessível.

 

A recomendação de leitura necessária em Jornalismo para lastrear discussões políticas que busquem sustentação histórica nos eventos das décadas de ’60, ’70, e ’80 deve incluir também colunas de Villas -Bôas Corrêa – e do Marcos Sá Corrêa- do Fernando Pedreira, do Hermano Alves e do Helio Fernandes- não esquecendo do Élio Gáspari – de seus artigos no “JB” e na “Veja” até sua tetralogia sobre a Ditadura. Estes jornalistas que citei não estão sós em uma lista de leitura obrigatória, são os nomes que me lembro de imediato apenas. Sem estas leituras, depoimentos de militares nonagenários e de “vítimas da Ditadura”são a única fonte de conhecimento – e clichês de retórica de oratória de pátio de colegial alternam-se aos saudosistas de militares que já não existem há décadas, nos fóruns de discussão de internet. Mas como parece que estas leituras – escritos dos mestres do jornalismo brasileiro – não parecem constar do mínimo exigido nas faculdades de jornalismo, o exemplo para discussões embasadas não vem de onde deveria vir, não é mesmo?

 

As fantasias e as simplificações são conseqüências lógicas da falta de leitura- lessem e muitos opinadores compulsivos talvez trabalhassem em suas mentes outras saídas  do Inferno do Brasil de hoje.

X

Não lembro se no livro-entrevista ao Joelmir Beting ou no congênere do Frei Betto, Fidel Castro lamentou que a União Soviética, embora tivesse programa espacial, não era “capaz de fabricar um sapato decente”. Lembro que este é um, entre tantos exemplos na literatura sobre Comunismo, que confirma o que Olavo de Carvalho adverte sobre a inutilidade de se combater o Comunismo declamando leis da economia clássica que o demonstram falho e inviável. Isto eles sempre souberam. A guerra cultural – o combate mente a mente – é onde comunistas colecionam suas vitórias, tocando nas cordas sensíveis de milhões de não contemplados com as delícias do capitalismo.

Um “fracassado” aos olhos dos capitalistas é uma alma a ser trabalhada pelos vendedores de sonhos, ou aos doutores em recalque. Esta verdade permanece ignorada pelos adversários do Comunismo, sobretudo no Brasil. Aqui “os homens que sabem das coisas”, tão satirizados por Carlos Lacerda,  recomendam injeções de lógica empresarial, e não entendem a razão por trás de vitórias eleitorais de projetos que já se provaram ineficazes, além de criatórios de corruptos  (”Será que eles não conseguem ver?”) e a distribuição de culpa – sobretudo aos nordestinos – substitui, uma vez mais, “o exame da conjuntura”, tão caro às Esquerdas, há décadas. As rodinhas de autocrítica, lembram?

Portanto, sou um cético quanto à derrubada da Presidente Dilma Rousseff – ela cai e Lula volta, ou outra criação do laboratório de Ciências Sociais, sempre laborioso. O ambiente propício ao florescimento das lideranças demagógicas e do nivelamento por baixo segue intocado, e o que estes senhores da Oposição têm oferecido como alternativa aos milhões que esperam – como? – seduzir.

O “enigma dentro da charada dentro do mistério”, como disse Winston Churchill, me parece ser este: “Como convencer milhões de mentes prostradas pela miséria e ignorância que há alternativas aos programas que não erradicam a miséria, e somente a maquiam? Como provar que não somos os monstros de egoísmo e indiferença que a mídia governista – sem pausa e sem medo de represália – nos retrata, já há doze anos?”

Escrevi texto no blog sobre os miseráveis que seguiram Jim Jones no pesadelo da América do Sul – “A desolação, mãe do terror” (14/10/2011) – no qual me mostrei tocado com as expressões dos norte-americanos vítimas daquela fantasia que desembocou em pesadelo fatal – suas fisionomias de derrota e de desistência do “sonho americano”, tão tocantes como as pilhas de cadáveres do suicídio coletivo, pois anunciadoras do que aconteceria. Não haverá em toda a Oposição – dos políticos à imprensa – quem esteja atento aos olhares de seguidores do atual sistema de Poder, e que busque neste estudo das fisionomias marcadas pelo fanatismo e desconfiança aos oposicionistas, pistas para se chegar ao ponto de convencimento destas mentes?

Pois deve haver um canal de esclarecimento funcionando nestes integrantes da massa, por menos informação que eles tenham, e é o dever da Oposição – se verdadeira, se não composta unicamente de amadores – tentar encontrá-lo. Este exercício deve consumir atenções e todo o esforço possível, pois dele depende o futuro da Democracia e de traços civilizatórios mínimos no Brasil.

Claro que se as fantasias e exibições de retórica de orador da turma de ginásio permitirem.

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