“Notas” – 11/12/2014

Em algum ano da segunda metade da década de ’80, em um restaurante da região da Pampulha (Planalto ou Itapoã, acredito), entro com meu pai, à procura de uma mesa. Acabamos por nos decidir a deixar o restaurante, do qual lembro um jacaré empalhado na parede. Noto, antes de partir, uma mesa com um trio, duas mulheres e um homem; elas parecendo ter saído de um editorial de moda da revista “Manchete” – longos vestidos, e argolas, e pulseiras e sombras azuis nos olhos – ele robusto quarentão (idade aparente, assim como suas interlocutoras sentadas lado a lado, de frente a ele) com bigode fechado e penteado cortina – de -circo. Elas defendendo com olhares e gestos de convicção:

“ Julio Iglesias é muito mais romântico que Roberto Carlos.”

Ele: “Não, imagina, Roberto Carlos é muito mais romântico que Julio Iglesias, não tem nem comparação.”

Comento com meu pai: “Discussão filosófica interessante, a daquela mesa”.

“É…deixa…melhor do que se estivessem discutindo partilha de roubo ou qualidade de maconha.”

Hoje não riria da polêmica que absorveu o trio, e mesmo pediria para participar da conversa e manifestar adesão à tese defendida pelas duas:”Iglesias sim, é um romântico. RC é um existencialista que se desconhece”. Partiria seguro de que me achariam maluco, mas eu não deixaria de colaborar no debate de mesa.

 

Toda discussão, seja por música romântica, ou por futebol, ou mesmo estilos de publicação para adultos (eufemismo para revista de assuntos sexuais) tem, em sua coleção de signos, importância e um traço que prova a humanidade como racional, pois nas discussões, ainda que não explicitamente políticas, o homem avança para longe da caverna.

 

Por esta razão, reincido nos comentários em sites e blogs alheios, ainda que me arrependa depois, e julgue o que se discute nestes ambientes virtuais mais raso ainda que o tema cuja discussão presenciei em minha adolescência. Discussão sobre intervenção militar, por exemplo. Ou aprovação de contas da candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Tudo para anestesiar a certeza de que este modelo político que governa o Brasil durará ainda muito, e que as defesas exigidas por esta situação não se encontram visíveis, a estrela do PT parecendo destinada a brilhar por nosso tempo de vida. Como contemplar este destino sem disposição para combater tabus, e sem ânimo para discussões políticas que pareçam desperdício de tempo e energia?

Aécio Neves declarou ter sido vencido por “organização criminosa”, mas o fato é que este desabafo veio tarde. Isto deveria ter sido dito ao Mundo, em uma renúncia dramática da candidatura, na qual o candidato explicasse aos correspondentes estrangeiros a situação que vivia como candidato atacado na vida íntima e protagonista de candidatura retratada aos setores dependentes de assistencialismo governamental como vilão que viria para eliminar benefícios. Denunciasse ataques de comentaristas em sites patrocinados pelo Governo. E após esta renúncia, que cumprisse compromissos na condição de anticandidato. Isto não aconteceu, e a reeleição é fato que, como escreveu Elio Gaspari, tem sua legitimidade garantida pela realidade dos números apurados, uma “legitimidade aritmética”.

 

Oposicionistas sonharam com a rejeição no Congresso de artifício que livrasse a Presidente de não ter cumprido a meta fiscal e a rejeição das contas da campanha pelo Min.Gilmar Mendes. Ambas não se realizaram. O mandato de quatro anos (mais possível retorno de Lula) não é mais um temor a ser desfeito com a chegada do dia, e sim uma realidade concreta.

 

Jornalista de Oposição mantiveram a confiança na candidatura do PSDB, sobretudo em “Veja”. Quem não se recorda das contagens regressivas para o fim do petismo nas colunas de Augusto Nunes e Ricardo Setti (os quais sempre duvidaram da eficácia da imprensa patrocinada por estatais na destruição de reputações), relógios mágicos que devolveriam o Brasil de antes de 2002, a era PT dando seus últimos arrancos no leito de morte?

A vida teima em desapontar otimistas, e premiar os que contam com o pior. Petistas parecem considerar cada dia como uma batalha, e as discussões (as discussões que parecem conversa de maluco, lembram?) internas como treino imprescindível. Ainda que não mais discutam tanto, e com a franqueza de outrora, conquistaram território assim.

“Gramsci é muito mais revolucionário que Marcuse.”

“Não, Marcuse é que é mais revolucionário que Gramsci, não tem nem comparação.”

Enquanto tucanos riem…

X

As lágrimas de Dilma Rousseff no fim dos trabalhos da dita “Comissão da Verdade” irritaram muitos: “ E os mortos do lado dos militares , mesmo de civis que não tiveram escolha, colhidos pelo destino que os colocou na reta de fanáticos?”

“Chorará esta senhora por Mário Kozel Filho, inimigo compulsório?”

Bom, ela tem o direito de chorar por seus companheiros de devaneios tombados em combate (ou torturados), e mesmo por lembrar dos seus momentos de dor e apreensão. Penso mesmo que ela tem o mérito da autenticidade, por não fingir compaixão que não parece mesmo sentir por quem não foi próximo a ela – soaria cínica ao mencionar mortos do “outro lado”, e nossa Presidente reeleita não é possuidora de habilidades cênicas que permitam aventuras interpretativas desta natureza.

O que irrita é a compreensão de que estas pessoas que militaram na luta armada exibem do resto dos brasileiros, os que vivem e morrem neste tempo: pessoas menores, cujo sofrimento não tem a dramaticidade dos que “enfrentaram a Ditadura”, vidas arrastadas na mediocridade, contrapostas às biografias destes combatentes, épicas por definição.

Dezenas de milhares de homicídios por ano? “Ora, eu fui torturada “.

Vítimas executadas com os requintes extremos do sadismo? “E meus amigos que tombaram heroicamente no Araguaia?”

Lembram do menino arrastado pelo cinto de segurança? “E eu que fui torturado(a) barbaramente com chutes e pontapés, assim que cheguei ao DOI- CODI da Barão de Mesquita?”

Como eu escrevi no blog sobre esta autocelebração de biografias logo que iniciaram os trabalhos destas Comissões : “seres diferenciados”, que com sua epopeia celebrada e indenizada de “enfrentamento às forças da Reação configuram a verdadeira aristocracia do sofrimento.” Estou zombando do sofrimento e da dor destes militantes? Absolutamente. Apenas penso que mortos anônimos (e de origem- muitas vezes- mais modesta que muitos destes “revolucionários”) também merecem as lágrimas presidenciais.

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