“Notas” – 13/12/2014

Em uma das comemorações na Savassi por jogo vitorioso do Brasil na Copa de ’98 na França –vitórias que desaguariam em uma goleada contra o Brasil – fui apresentado a uma atriz que comemorava com familiares (uma sobrinha bonita e educada) em um bar: Wilma Henriques. Ela própria me contou de algumas passagens de sua carreira, e eu , sem saber quem era a atriz de “O Menino e o Vento” do Carlos Hugo Christensen (que na ocasião ainda ignorava, o diretor e o filme) apenas balançava a cabeça sem ter o que conversar, temendo parecer um bocó que estivesse duvidando daquela senhora encantadora. O encontro fosse hoje e a senhora tão educada e simpática se cansaria de minhas perguntas sobre o filme, o diretor, as montagens teatrais que renderam a ela o título de “Dama do Teatro Mineiro”, etc, etc,etc.

Logo, amigos, presenciar algo não é necessariamente compreender algo, não basta vivenciar quando dados necessários ao entendimento estão por conhecer. Quem não acha graça das celebridades brasileiras – que em reportagens em suas casas exibem paredes nuas de livros – anunciando passeios a Paris ou Londres? Sem noção mínima da história destes países, não aproveitarão intelectualmente da viagem mais que os cachorros que levam na bagagem. São como os vira-latas que desfilam nas referidas cidades, que passam todos os dias pela Torre de Londres ou pela Praça da Concórdia sem desviar o focinho do chão.

Muitos brasileiros opinam hoje sobre fatos da História nacional com o mesmo espírito de ignorância do que ignoram – e que é necessário não ignorar para opinar com propriedade.

Não parece razoável entender a mente dos militares da Ditadura sem estudar as revoltas tenentistas (berço político de muitos deles) e a formação positivista que muitos tiveram nas academias militares. Sem noção mínima destes elementos, não é possível compreender a lógica de linha reta que eles exibiram durante seus governos; insensibilidade para nuances e ignorância de correntes de pensamento cavando crateras sob seus pés.

Penso nos formadores de opinião que pouco contribuem neste particular, seu público exteriorizando os emocionalismos que fazem rir os inimigos, nas demonstrações de desconhecimento total da História do Brasil, acompanhadas de imprecações contra os que desfrutam o Poder neste momento, e lembro de militante do PT que, na véspera do Segundo Turno jogou a toalha em discussão comigo, pois ignorante de História recente (episódio relatado aqui no blog).

Quantos petistas poderiam ser apresentados ao espelho nestas discussões, tivessem oponentes que lessem minimamente- que relessem e discutissem em seus grupos de discussão antes de tentar a sorte em redes sociais e mesas de bar. Como encontram os passionais de sempre…adivinhem quem leva a melhor?

Um esquerdista confrontado com antagonista que conhece tão bem quanto ele –ou melhor- os escritos que são de sua obrigação dominar é sempre algo a ver com satisfação. Passam a especular se o interlocutor é da CIA… ou de alguma corrente nova da Esquerda…

E o Brasil precisa, mais que nunca em toda sua História de cafés de discussão política, de novos jornais de análise (ainda que na internet), de gente vasculhando livros e discutindo noites afora, tendo que ser expulsos dos bares nas madrugadas – e continuando as batalhas de argumentação pelas ruas. O Brasil já teve loucos cívicos do tipo e começou a enterrar seu futuro quando o elemento dominante – alérgico a qualquer material impresso (e que dirá de discussões intelectuais)- convenceu os verdadeiros intelectuais a desistir, a se render, “pois que não vale a pena mesmo pelejar por aqui.”

O domínio dos tipos de hoje na Política e na Academia , na celebração do nivelamento por baixo mais absoluto é conseqüência. Não podemos nos declarar surpreendidos: eles não chegaram do nada, são apenas a parte mais estridente da massa que triunfou pela esperteza, pela lógica da sobrevivência animal mais estrita. Os intelectuais entre os que agora nos governam não desmentem a frase acima, antes a confirmam de forma perversa – desviaram o conhecimento para a luta pela hegemonia por se anteverem membros de uma casta dominante num país de analfabetos na faculdade.

Portanto, reitero o que já disse aqui (e em outros textos) sobre a urgência de uma boêmia militante: ou ocupamos os lugares de discussão e diversão pública enquanto ainda os temos, ou nos rendemos, em caráter definitivo, às fileiras do pior totalitarismo que ameaça triunfar: os tiranos da estupidez e da castração existencial.

O Brasil, nesta geração, nunca esteve tão ameaçado de sucumbir aos piores ânimos.

X

O assassino de mulheres brancas preso nesta semana não terá sido notado pelos legisladores? As discussões sobre reabrir processos de quarenta anos atrás (para levar aos bancos dos réus torturadores decrépitos) não deixam espaço aos comentaristas de telejornal, e assim, sem ênfase no que o caso tem de tenebroso, mais um horror será engolido pela população que há anos engole horrores sem pausa para vomitar: o menino arrastado pelo conto de segurança (que motivou do então presidente Lula recomendação de que não julgássemos o caso “com paixão”), a dentista incendiada por não ter o dinheiro para o assalto, e agora conhecemos todos o assassino “étnico”. A Presidente Dilma Rousseff terá se lembrado das vítimas ao chorar?

A entrevista do assassino impressiona: discorre sobre a elaboração e execução dos crimes como que descrevendo os critérios de organização da estante de CDs e DVDs. Assegura que reincidirá, pois sem qualquer arrependimento.

Qual político se manifestou favoravelmente à reforma de um Código Penal contemporâneo do mundo sem TV? Qual órgão de comunicação fez do caso um exemplo (a mais) da necessidade imperiosa de discutir prisão perpétua para crimes de motivação vil? ”Veja” planeja capa do caso? A Rede Globo (ou a “GloboNews”) iniciará rodadas de programas discutindo crimes hediondos e mudanças nas leis ?

O distinto público estará estudando boicotar órgãos de comunicação cúmplices, pelo silêncio ou cobertura displicente, destes horrores?
Ou realmente merecemos tudo pelo que passamos, pelo que nos resignamos a padecer?

Sou um desconfiado de “culpas coletivas”, mas o Brasil deste nosso tempo faz acreditar sim em um karma coletivo, em uma purificação em massa.
Nunca uma Nação desceu tão fundo, tão sem chão à vista.

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