“Notas” – 18/12/2014

“E o Reinaldo Azevedo, hein? Nunca imaginei…”
“ Até o Reinaldo …estou decepcionada. Não compro mais a ‘Veja’”!

Ouvi esta semana estas frases algumas vezes, e li nas caixas de comentários outras tantas. Decepcionados, afinal, com o quê? Qual expectativa alimentavam em relação ao jornalista que, à falta do Olavo de Carvalho, o próprio, no site da revista, adoravam como o guia conservador máximo na grande imprensa? Que ele defendesse um personagem como Jair Bolsonaro, se nunca houvera se declarado um partidário de suas ideias? Mesmo na fase da “Primeira Leitura”, ele citava Bolsonaro como exemplo de simplismo, tão nocivo quanto os primitivos da Esquerda.

Como nunca o tive como um autor referencial (vejam que poucas vezes o cito no blog), meu susto foi nenhum. Não tive como me decepcionar. Vejo-o como jornalista de méritos (verve – alguns textos são muito engraçados – a disposição de enfrentar sofismas e tabus instituídos pela casta acadêmica), com participações importantes em algumas batalhas – nas quais exibiu determinação de combatente – mas nunca tomei seus textos como inspiração, como formador de mentes como tenho Paulo Francis e Olavo de Carvalho.

Comentei poucas vezes no blog dele em “Veja” e em duas ocasiões tive comentários vetados: uma vez por lembrar- somente lembrar- que Elio Gaspari era atacado por setores da imprensa por suposto “tucanismo”, logo não poderia ser tão simpático ao PT como os textos de Reinaldo sugeriam, e por manifestar discordância com os ataques dele a um ex-Diretor da revista, Mario Sergio Conti, pois ele teria obrigação (como formador de leitores) não deixar seu público na ignorância dos méritos do então apresentador do “Roda Viva”. E eu já tivera comentários publicados ali, e no Augusto Nunes e no Ricardo Setti. Desde então, leio rápido a lista de assuntos, e só me detenho se o tema me parecer interessante.

Portanto, pouco tenho a responder aos que me interrogam sobre o tema.

Penso o mesmo que Olavo de Carvalho sobre o assunto: por mais estúpida que a frase tenha sido, e por mais simplismos que o deputado ex-militar cometa, ele não fez qualquer elogio do estupro. Ele, ainda concordando com Olavo, paga por não ter se recusado a bater boca e deixado à Justiça os reparos da acusação de ser estuprador, pois tivesse feito isto, e tudo teria se resolvido, talvez em uma retratação- acredito que, assim como ele neste momento, Maria do Rosário tenha agido emocionalmente, na tradição de insultar quando se vê sem argumentos em uma discussão.

Estes combatentes políticos estão ainda por se civilizar, por se educar como oradores e subordinar emoção ao conhecimento – isto tanto na Esquerda como na Direita. Este deveria ter sido o juízo do Reinaldo, sempre atento aos sofismas e às armadilhas emocionais. Ele não o fez. E seus leitores mais apaixonados não o perdoaram, deseducados por ele (vide o episódio Conti, citado neste texto), acostumados a reagir como público de auditório e não como conjunto de leitores críticos – leitores críticos que, discordando, se mantivessem ainda confiantes em quem acertou muitas vezes, e que tomou para si brigas com o lobby dos engenheiros comportamentais da Academia. Ele, Reinaldo Azevedo, ajudou a fomentar este emocionalismo.

E o público que o tomava por guia espiritual (na ausência do Olavo, diga-se) viu-se órfão. Descobriu o autor referencial (a eles) como um temeroso de se sujar com a imagem estigmatizada do deputado pelo Rio de Janeiro. Público que parece ter descoberto agora a amizade entre o ídolo e Jô Soares, e que, distraído na adoração, não tenha percebido a omissão do nome de Olavo de Carvalho em seu blog por longo período- só voltou a citar Olavo por ocasião do livro -coletânea de artigos. O público acreditou que o jornalista era “um deles”, e recua com rancor à revelação do engano. Acontece. Eu, como não o tinha como guru, avalio com frieza sua exigência quanto ao “pedido de desculpas “ do Bolsonaro. Para mim, ele pesou seu espaço na mídia liberal, seu lugar entre os convidados de Jô Soares e sua imagem perante o público da “Folha de S.Paulo”, e decidiu se dissociar de parte de seu público que se declara representado por Bolsonaro, através de um gesto grandiloqüente.  Como ele nunca gostou mesmo do militar -deputado…

Olavo de Carvalho enviou mensagem ao jornalista, “ignorada solenemente”, mas ainda assim reiterou seu respeito e sua amizade. Eu próprio me referi, em conversas com amigos, ao blogueiro de “Veja” como “genérico do Olavo de Carvalho “, um Olavo para público menos exigente.

E por muito tempo, este foi o elemento dominante em seu público – que certamente desertará depois da esnobada no ídolo. Talvez seja precisamente este o seu desejo, se ver livre desta associação automática com setores com os quais, embora guarde afinidades, não se sinta com eles conectado. Muitos foram os pontos de vista que desafiam sua qualificação como “ultraconservador”, como a adoção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo, por exemplo. Ou sua manifestação freqüente contra o celibato clerical (com argumentação que julgo inconsistente, pois ingênua ao acreditar que homossexuais deixariam assim de buscar refúgio no clero). Lembro destes dois no momento, mas há outros pontos que evidenciam seu não-alinhamento aos conservadores mais estritos. Mas eles parecem ter notado somente agora – e isto diz muito do que acadêmicos chamam de “público receptor”. É uma gente, sobretudo a da internet, que lê para concordar, e se nutrir de certezas em seus articulistas de fixação- fenômeno presente na Esquerda e na Direita. Público de reações emocionais e de pouca ou nenhuma leitura senão a destes seus guias no jornalismo.

O hábito de ler os jornalistas que pautam os debates públicos, ainda que defendam pontos de vista adversos – ou mesmo que escrevam em estilo desagradável – para saber que rumos a discussão publica toma, é, a muitos, intolerável. Leem para reforçar opiniões, e alicerçar preconceitos contra articulistas contrários aos de sua devoção. Nada de analisar com isenção, ou tentar perceber nuances, ou assimilar complexidades. É um público, repito, deseducado, infantil, composto por simplistas que volta e meia se voltam contra seus deseducadores, quando adivinham enfim que estes têm individualidade e não são uma tela de projeção de suas personalidades por se formar. A tecnologia fornecendo leitores recém-descobertos, sobretudo no Brasil, país que vinha de queda de leitores de jornais impressos e de diminuição dramática de títulos nas bancas- desde os anos ’60- para, com a explosão da internet, se tornar um carnaval de opinadores sem leituras prévias. Daí a necessidade do articulista exercer o papel de educador deste público novo, que busca por respostas e que, em sua afoiteza, acaba sendo vítima de processos históricos que avançam sem pausa ou piedade.

Quando um determinado jornalista é, por força desta circunstância histórica (explosão de público) promovido a sacerdote cultural e político, não é justo que ele fique somente com os benefícios desta condição, ele precisa dar de si aos leigos que nele depositam confiança e que recorrem aos seus escritos para se situar na História dos dias presentes. Precisa, como educador, explicar suas opiniões que por acaso pareçam despropositadas.

Este foi o erro de Reinaldo Azevedo neste episódio que fragiliza a Oposição (falo do campo cultural, matriz do Político) e que ameaça ser uma cisão entre conservadores e liberais.

Governistas e propagandistas do populismo obscurantista sorriem, esfregando as mãos.

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