“Notas” – 20/12/2014

Recebo ontem e-mail de leitor e interlocutor frequente:

“Atendendo aos seus pedidos, Aécio Neves vai processar os tuiteiros que o atacaram mencionando uso de drogas”.
“Sim, amigo zombeteiro, meus pedidos foram ouvidos, porém pela metade e demasiado tarde”.

Fosse eu leitura do Senador pelo PSDB, soubesse que existo e me considerasse como conselheiro, ele teria processado não simples tuiteiros, mas blogs e sites que abrigam comentaristas caluniosos, e articulistas que produzem o veneno replicado nos tuítes.

E isto a uns dois anos das eleições, no mínimo. A iniciativa atual pode ser prenúncio de que Aécio se entende como candidato em 2018, quem sabe?

Quando eu tentava alertar jornalistas que funcionavam como oráculos do universo tucano, lia sempre a resposta infalível:
“Você está atribuindo importância a uns pobres diabos, de leitores reduzidos”.

O que em certa altura era verdade. Lembro que certo blogueiro tinha uns dez comentaristas – quando muito – quando iniciei meus avisos. Leitores e comentaristas multiplicados e fiéis replicadores depois, meus avisos não obtiveram resposta diferente. E o resultado é este aí…

Enquanto não sair caro, o hábito de substituir argumentos com ataques pessoais sobreviverá, pois vital a muitos que vivem de comentar (nem me refiro a supostos pagamentos aos MAVs, mas ao status de militante que pode render oportunidades a quem não dispõe de qualquer talento), e que nada leem. E sair caro significa baterias de processos, um departamento jurídico funcionando em tempo integral, cada piadinha sendo motivo para interpelações. Como eles fazem, falando nisto. Fazem sem esperar garantia de condenação da parte adversária. Perturbar e fazer o oponente gastar com advogado já basta.

Terão aprendido algo? A contemplação da imundície não tem mesmo qualquer eficácia pedagógica aos senhores de punho de renda? Como diz o “Bonde do Stronda”: “Pra quem é descaralhado, bullying nunca existiu.” Os ataques à intimidade familiar florescem no jardim dos que “não se rebaixam”. “O que vem de baixo não me atinge”. “Não jogarei o jogo sujo desta gente”. “Homens honrados não aceitam os valores dos bandidos”.

Há quanto tempo somos apresentados a esta declaração de cavalheirismo após cada derrota (ainda que a derrota seja visível já durante a campanha)? Declaração de cavalheirismo sendo interpretada (e não sem razão) como choro do derrotado. O problema é que contam com 2018 sem qualquer estratégia visível, contando com os desdobramentos de escândalos e possível piora na economia. Autocrítica? Ah… quem tem a maioria moral não precisa deste prestar de contas com a militância, não?

Me pergunto o que estudam no “Instituto Teotônio Vilela”. Lerão Antônio Gramsci, e outros estudiosos da dinâmica do Poder, como Gaetano Mosca, ou C. Wright Mills? Acreditam na necessidade da formação de quadros qualificados para combater militância igualmente qualificada (não falo de MAVs analfabetos, e sim dos operadores por trás de tudo), ou apostam tudo no esclarecimento das massas, supostamente promovido por uma imprensa pouco apta a iluminar as discussões públicas? Pelo que noto nas discussões nas caixas de comentários,  pelo que percebo de ausência de pressão sobre líderes após cada derrota, se há estudiosos sérios no PSDB, são estudiosos tremendamente perigosos, pois discretos ao extremo. A imagem de um assustador deserto mental me ocorre quando penso nestes quadros partidários, mas posso estar enganado pelas aparências.

Sei que meus três leitores dirão: “E você acha que o PT está tão bem guarnecido de mentes assim? Você não viu a perplexidade do Lula quanto aos intelectuais que faltam ao PT após terem sido tantos e tão atuantes?”

Sim, concordo que o PT atravessa uma entressafra já antiga – mas perdeu os que ainda vivem para o PSOL, o que soa mais como transferência (ou mudança da pele da cobra) de casa dos combatentes do mesmo projeto. O PSDB não parece – ao menos aos observadores externos, como eu – ter como se aproveitar da seca mental do partido antagonista, antes que novas turmas cheguem ao PT (sempre chegam, ainda que menos brilhantes que as gerações imediatamente precedentes). Para este avanço onde o adversário exibe fraqueza, precisa haver a humildade mínima para se reconhecer que o trabalho será duro, e que consumirá anos. E o que mais vemos nos campos liberais e conservadores é gigantesco desejo de iniciar fase da vida brasileira sem o PT, desde que este desejo não cobre muito, naturalmente. Desde que não exija mais que o oferecido até agora.

Lembram-se meus poucos leitores do “Governo Paralelo” que o PT ensaiou logo após a derrota de Lula em ’89? Um ministério inteiro de notáveis (nomes como Francisco Weffort e Antonio Candido, por exemplo), de intelectuais que militavam no partido desde sua fundação. A foto do encontro, publicada na “IstoÉ” (seria ainda “IstoÉ /Senhor”?) imortalizava a iniciativa de homens com expressão decidida, o malogro eleitoral recente tendo os excitado, parece. O PSDB na ocasião não exibia o mesmo ânimo – o que me lembro é de divertido desenho animado com personagens da política representados por bichos, num incêndio na floresta, o tucano encarnando a calma e a inteligência. A raposa brizolista compondo com o monstro rei do pedaço, e o ( salvo engano) gambá petista metido em trapalhadas conviviam com o elefante peemedebista, esperto incentivador de obras absurdas (também salvo engano, usina que separaria vento de água da chuva, tudo, naturalmente,”sem licitação,sem licitação” no dizer do elefante com pronúncia quercista) .

Fora esta interessante incursão pela fábula, que esforço apresentou para a hegemonia, hegemonia que absorvia todas as forças de cada militante do PT? Um professor meu na época, petista militante,  garantia que a hegemonia que estava sendo construída iria surpreender a muita gente, e que o que víamos sobre o Leste Europeu estava sendo um recuo. Por mais que gostasse deste sujeito, ria incrédulo. Hoje, quando leio Olavo de Carvalho descrevendo a trajetória do “Foro de São Paulo” me lembro com amargura das risadas do que me parecia otimismo (eu votava na ocasião no PT, explico) de esquerdista romântico – mencionei, falando nisto, esta historinha em comentário que fiz no Ricardo Setti, ou no Augusto Nunes, certa vez.

Por que lembro tudo isto? Por que discurso apontando o dedo? Para registrar que não, meu amigo leitor, não foi em atendimento aos meus pedidos que Aécio Neves resolveu processar insultadores profissionais (ou meros replicadores, por tolice).

Ele me ouvisse, soubesse quem sou, conhecesse este blog, teria, há muito tempo, devastado com ações judiciais os pontos de encontro de militantes virtuais – teria iniciado sua campanha sem ter que se preocupar com algo mais que apresentar projetos.

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