“Notas” – 26/12/2014

Assistindo ao vídeo da homenagem ao Elio Gaspari no Nono Congresso da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), lamentei não ser um seu colega de profissão. Porventura o conhecesse, e teria que me apresentar como modesto “blogueiro”,  palavra que detesto por ser, além de nada nobre, imprecisa; não designa ofício ou profissão.

Entre os tantos blogueiros do mundo, há os que desistem após os primeiros posts (dói a leitura do número de acessos) e há os que perseveram por não se preocupar com a qualidade mínima do trabalho- para estes, o post ser redigido em português ordinário, numa travessa de clichês, e abusando do copia – e – cola não os inquieta.  Há blogs de culinárias, crítica cinematográfica, fotografia, blogs sobre funcionamento de utensílios diversos, sobre bisbilhotagem da vida de celebridades, e mesmo blogs sobre blogs. Todos estes, caso obedeçam à regularidade mínima e observem a qualidade, são, no meu entendimento, produtos jornalísticos.

Diga isto a um beneficiário da reserva de mercado para formados em Comunicação, e ele explica, com candura, que não – eles, os jornalistas formados, detêm técnica que diletantes sequer desconfiam ser necessárias; embora haja – mesmo em grandes veículos, como no site de “Veja”- falhas técnicas grotescas (há aqui no blog alguns exemplos mencionados), que demonstram que apuração e checagem não devem ser traços profissionais muito ensinados nas ditas escolas de Jornalismo. Leitura de clássicos do ofício parece ser, a muitos, uma obrigação curricular das menos necessárias.

Meu blog funciona desde Dezembro de 2008, embora com algumas interrupções. De tempos para cá, tem sido mais regular. Meus textos são redigidos com precisão – não cito o que não posso comprovar em fontes – creditadas, naturalmente. Fontes estas muitas vezes colhidas em livros e não no “Mestre Google”.  Comento a própria imprensa e mesmo campanhas como o livro – depoimento do mais antigo jornalista do Brasil (talvez do Mundo),  Helio Fernandes, este blog já lançou (textos publicados e replicados em outros sites e blogs). Outra campanha – a criação de uma biblioteca virtual de textos jornalísticos brasileiros. Se nenhuma das duas campanhas frutificou,  não foi culpa deste blogueiro – que teve a ousadia de propor sem ser um “jornalista formado”, sendo um “amador”. Onde os “profissionais” que não lançam campanhas como as que empreendi?

Quando Olavo de Carvalho debateu com Aleksandr Dugin eu tomava notas das réplicas e tréplicas em inglês, sem esperar tradução, para já ir elaborando artigo – artigo modesto publicado no “Mídia Sem Máscara” e replicado em alguns blogs. Não foi uma atitude jornalística? Onde os jornalistas formados, mesmo entre os simpatizantes (ou antagonistas) do Olavo de Carvalho e do Dugin? Que notas tomaram? Que artigos escreveram que tiveram a mesma repercussão? Repito que foi artigo modesto, e sem pretensão de esgotar o tema, mas que foi, em suas poucas linhas, redigido de olho nas anotações.

Quando apontei erros primários no site de “Veja” (eu e outros tantos, diga-se) não exerci o ofício de revisor ou copydesk? Exercer a função voluntariamente não me habilitaria a ganhar a vida exercendo-a? Não para os “formados”que não perceberam os erros, que cometeram os ditos erros grotescos).  Eles,  embora muitas vezes sem competência mínima, podem se apresentar como “jornalistas”.  Os “jornalistas práticos”, não. Por mais que demonstrem conhecimento. Não preciso perguntar se isto é justo, preciso?

Interlocutor freqüente volta e meia se espanta com minha memória jornalística. Menciono matérias da década de ’80, algumas em pormenores. Ao mesmo interlocutor, traço diferenças em órgãos como “Veja”, por exemplo, através dos diversos diretores da publicação. Quantos formados são capazes disto? Os que tentam emitir juízo repetem (até nas vírgulas) juízos decretados pelo jornalista X ou Y (jornalistas que funcionam como críticos da imprensa não subsidiada) sem conseguir estabelecer distinções entre estilos e escolas.

Muitos dos que gargalharam nos episódios referidos por Gaspari em sua palestra (evento histórico, que propiciou a muitos, como eu, conhecer sua voz) teriam rido menos tivessem lido o que deles relatou Mario Sergio Conti e Zuenir Ventura em seus textos sobre o jornalista mítico. Eu não teria gargalhado nada. Conheço por leitura e releitura muito do que ele contou de si. Que me vale este conhecimento, afinal? Não sou colega do Elio, do Zuenir ou do Conti.

Lembro de passagem de minha biografia. Eu tinha o hábito de freqüentar as sessões da Câmara dos Vereadores de Viçosa, Casa que foi presidida por um futuro presidente da República, Arthur Bernardes. Não perdia sessão, e anotava o que ouvia. Meu pai sugeriu que eu procurasse o Diretor de um jornal da cidade, e este me sugeriu entrevistar os vereadores (a jornalista que cobria – justiça seja feita, também não formada, embora provisionada-  entrevistava apenas um ou dois do total de quinze) como uma espécie de estágio não remunerado. Durante um mês e meio, as minhas crônicas saíram no jornal semanal. Não eram obras-primas- e a revisão do jornal conseguia piorar, suprimindo palavras corretas, substituindo-as por incorretas; mesmo o Diretor me causava embaraços do tipo. Mas tive neste capítulo de minha biografia uma lição de Jornalismo – e de vida.

No dia seguinte à Sessão, levando meu texto ao Jornal (ao qual comparecia diariamente para estudar o arquivo e conversar com os repórteres),  encontro o redator-chefe apreensivo. A repórter do jornal teria redigido matéria na qual o Secretário de Cultura local dizia:

“Enquanto eu sou recebido pelo s secretários estaduais os vereadores não são recebidos nem pelos assessores”.

Eu,  que estivera atento à Sessão e tinha as anotações garanti que isto não havia sido dito,  e sim:”Sou recebido pelos secretários estaduais e pelos assessores”.

O redator-chefe tinha uma bomba nas mãos, pois mandaria o jornal, a ser fechado dali a duas horas, com informação na qual não confiava e que sabia ser de publicação temerária. Me ofereci para ir na Câmara (que ficava perto do jornal) e ouvir a fita, o redator-chefe sem jeito de aceitar, pois eu não era pago para isto. Pois fui, ouvi a fita umas duas ou três vezes, e com as anotações da fita, voltei ao Jornal. Eu anotara certo na véspera.

Anotei com atenção, apurei, e tranquilizei o chefe. Fizera a reportagem completa, sendo repórter, apurador e editor. Mas mais do que isto, firmei ali, nesta operação sem qualquer pagamento, no mais apaixonado “vestir a camisa”, minha confirmação vocacional – a disposição para dar meu melhor, ainda que sem pagamento. Isto me é útil no blog.

Ah, quantos fazem isto? Muitos se queixam por horários de fechamento “desumanos”, das broncas dos superiores hierárquicos, como se a carreira jornalística (Paulo Francis defendia que “jornalismo é carreira, não profissão”) fosse como a de um comerciário, ainda que sonhem com as pompas de uma carreira bem sucedida.

Não sei como se virarão com a temporada de vacas esqueléticas, temporada prevista como extensa, a internet não deixando muitos postos (e salários, e pompas) de trabalho sobreviventes. Talvez exijam dos blogueiros diploma em Jornalismo também.

Os cadernos e os sonhos de publicar livros com textos avulsos não estão ao alcance dos jornalistas formados e sindicalizados e eles que tomem a internet quando se perceberem sem trabalho. Ninguém os lerá mesmo…

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s