“Notas” – 27/12/2014

O Acaso no “Mestre Google” nos dá muito mais que as buscas, aprendi. O sujeito acessa procurando algo que não consegue encontrar por mais que tente as mais diversas combinações no campo de busca, mas encontra, em compensação, resultados que não se conseguiu buscando com outras intenções, em outras ocasiões. Assim a internet se confirma como ferramenta que exige a virtude da paciência combinada com a virtude da perseverança.

Buscando não sei qual artigo ou biografia sobre determinado jornalista, encontro o projeto “O Mercado de Notícias”, o qual descubro ser projeto citado por muitos, mas do qual desconhecia. Há um site do projeto, que inclui peça de teatro (de Ben Jonson) e os depoimentos. Além de “casos jornalísticos”, dentre eles o as “bolinha de papel”. Tudo de primeira, direção do cineasta gaúcho Jorge Furtado, que imagino petista (posso estar enganado). Projeto com aval do Ministério da Cultura.

Dou olhada na lista dos entrevistados. Lembro agora Geneton Moraes Neto, Renata Lo Prete e Raimundo Pereira entre depoimentos que tenho que assistir. Outros, como Bob Fernandes não preciso assistir, pois uma frase pinçada de seu depoimento e colocada como destaque me libera de conferir o conteúdo – nela, o jornalista que conheci da colaboração com Mino Carta lamenta a censura econômica da imprensa conservadora, mais abrangente que a do Estado. Assisti depoimentos de Mino Carta e Janio de Freitas, depoimentos que acredito ser a síntese das intenções do projeto: lembrar, uma vez mais, os compromissos ideológicos e financeiros da mídia que critica o governo do PT. É o discurso contra o “PIG”, elaborado por mentes menos primárias para público menos primário. Nem só de blogs subsidiados será a dieta do defensor do Governo entre os de seu meio. Necessário fornecer proteínas argumentativas para as batalhas que fatalmente surgirão na internet, e um projeto deste porte com entrevistados de credibilidade (goste-se deles, ou não) cuida de guarnecer as mentes em combate pelo Governo. Lançado em 2014, garante combustível até as eleições de 2018.

Claro que os idealizadores devem jurar pelo interesse artístico e educacional, e não digo que mintam, pois estes simpatizantes do PT (como disse, acredito que Jorge Furtado seja petista) parecem realmente confiantes neste governo. O fato de serem beneficiados em editais não torna menos verdadeira a fé no partido que julgam encarnar os ideais de juventude. Pode torná-los menos críticos, talvez. Mais tolerantes ao malogro da economia e mais sensíveis às advertências de profissionais da imprensa que, embora admoestando a “imprensa capitalista”nela continuam (tapando o nariz, asseguram) e não a abandonam para editar jornais de bairro ou boletins de pastorais.

Mino Carta e suas arengas contra a “mídia nativa” não exigem que eu analise, ou que qualquer um analise. Divertem, além de provocar a minha imaginação. Minha memória de seus textos em dias de José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso teima em adaptar suas ironias de então aos pronunciamentos oficiais do petismo e à elevação (“miraculosa, que tange o coração empedernido deste escriba”, diria Carta de outros governos) de milhões à classe média por decreto e malabarismo contábil. Eu tenho idade para ter lido Mino Carta oposicionista, em suma. Embora suas críticas (acertadas, penso) à “mídia nativa”já serem freqüentes nos seus dias de crítico de governos que cantavam suas glórias – que contrastavam com o que víamos nas ruas.

Daí meu incômodo ao discurso favorável a um governo supostamente vítima de maquinações, um Governo sem culpas, “senão a de assustar a Casa Grande”. Acompanho o trabalho de Carta desde o Governo Sarney, na revista “Senhor”, depois “IstoÉ /Senhor”e me lembro de ironias dirigidas ao Chefe de Governo que se queixava das injustiças que alegava sofrer. Carta ironizava o Governo na mesma medida que retratava as mazelas da “mídia nativa, segura de seus privilégios”.

Leitores mais jovens, no entanto, conhecem o moralista (como disse, acertado, muitas vezes) furioso com as engrenagens do seu meio com o defensor vigilante do Governo,  e tomam a denúncia dos desvios éticos da imprensa como companheira indissociável do apoio ao Governo, e isto é um desserviço às gerações de leitores e jornalistas que não exercitarão a crítica aos governantes, como é da obrigação de quem quer que se proponha como formador de opinião em qualquer escala.

Janio de Freitas…outro de quem lembro mais severo para governantes. Como Mino Carta, é profissional que acompanho desde o Governo Sarney, de quem leio desde então como crítico do comprometimento de classe da imprensa (comprometimento sem dúvida verdadeiro) e crítico usual de governantes que alardeiam melhorias, quando somente promovem reparos estéticos. Lembro das palavras duras de Janio aos “petistas despersonalizados”, mas acredito que sejam admoestações de outros tempos. Hoje guarda sua amargura aos dados imprecisos nas coberturas de escândalos governamentais do petismo. Os números de telefonemas atribuídos à Rose Noronha, chefe do Gabinete da Presidência da República em São Paulo quase arrancam do veterano jornalista lágrimas de indignação, pois incoerentes, e de comprovação problemática. Ele chega a tremer com a irresponsabilidade de imprensa que trabalha com o intuito de derrubar um governo eleito, e não se preocupa em acusar sem provas. Tudo bem, até aí. Quem discorda sobre a incompetência e irresponsabilidade de setores da imprensa? Estranho somente ser a imprecisão quanto ao número de telefonemas atribuídos à ex-secretária de Lula, entre outros tantos motivos de indignação na vida nacional, o fato que comove um jornalista experiente, que não parece disposto a tremer de ódio com o espetáculo do desmantelamento do convívio entre brasileiros, no grande festival de crimes hediondos ou o que se vem descobrindo sobre a Petrobras. Isto pode esperar, os telefonemas atribuídos à senhora Rose Noronha é que devem ser denunciados como sinal de podridão da classe jornalística no Brasil e o maior de nossos azares.

Quem não antevê estes “argumentos” ( como os de Janio e Mino) serem usados como “grande argumento final” nos comentários das redes sociais? As mesmas imagens, as mesmas ideias, o mesmo discurso de quem declara “vontade de abandonar o jornalismo”, mas não troca a “Folha de S. Paulo” pelo 247 (onde escrevi de graça) ou por algum órgão de combate ideológico que não ofereça dinheiro e prestígio, somente trabalho duro e não percebido pelos milhões de brasileiros. Os estudantes de Jornalismo que conheço, aliás, declamam o mesmo discurso e apresentam a mesma prática, falando nisto. Deve ser influência destes mestres.

Certas coisas não precisam ser vistas, ou conferidas. Mas divertem pela repetição, pelo prazer de adivinhar a próxima frase. Este projeto é um caso.

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E começamos o ano com aumento nas passagens de ônibus. Em Belo Horizonte, iremos, Segunda-Feira já,  a 3,10 reais por ônibus velhos, poucos e lotados.
Passagem quarenta centavos mais barata que a de São Paulo, cidade imensamente maior.
Que dirá a Associação de Usuários de Transporte Coletivo ?
Escrevi no blog a respeito do tema em dois textos ;

https://fernandopawwlow.wordpress.com/2008/12/23/a-nossa-bh-e-a-deles/
https://fernandopawwlow.wordpress.com/2009/03/23/a-nossa-bh-e-a-deles-revisited/
Eles dizem tudo sobre o que não precisa sequer ser dito.

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