“Notas” – 08/01/2015

O ataque ao “Charlie Hebdo”será estudado no Futuro como evento que, além de inibir a imprensa mais iconoclasta, arrancou todas as máscaras de tolerância.

Os freios que este massacre colocou serão duradouros – talvez sejam justificados. Quem se habilita a ser o próximo visitado por comboio de fanáticos? O sujeito adivinhará em cada sombra da redação o bote da represália. Ainda que julguem não “pegar pesado”. Uma admoestação na caixa de comentários pode ser prenúncio de uma “visita de cortesia”. Nem todos os humoristas se utilizam de religião como tema, e há mesmo entre libertários, intenção sincera de satirizar instituições e costumes sem tocar em religião, etnia e/ou questões de sexualidade. Mas mesmo entre os que tratam a política de forma menos metafórica possível, o medo será companheiro de todos os fechamentos.

Alegorias, caso elaboradas, exigirão tamanho refinamento e hermetismo, que farão certos filmes do Cinema Novo parecerem primários. Pois há uma Ditadura, de feitio internacional, que paira sobre todas as cabeças criadoras – o “Politicamente Correto”. O ataque ao “Charlie Hebdo“ foi a face armada do “politicamente correto”, nada mais.

A face jurídica do mesmo monstro era conhecida. A face econômica idem.

A face “política”- demonstrações em frente às redações que desafiavam dogmas da religião (cujos cânones são redigidos nos campi) com encenações de enterros de publicações e faixas insultuosas – a mais conhecida e vistosa.

Todas ajudaram a construir o jornalismo covarde – que abriu caminho ao humor escatológico e nada inteligente, cujo sucesso é mera válvula de escape dos que não podem se expressar francamente – em vigor no mundo inteiro. Os redatores de texto uniformizado, os pedidos de desculpa por “ofensas às minorias”- ditas ofensas imperceptíveis a qualquer observador que não pertença aos referidos grupos de pressão – tudo isto é a morte da inteligência no mundo. E como todo fruto de covardia, a autoria é desconhecida, ou partilhada entre todos, na culpabilização do “Espírito do Tempo”, entidade com inúmeros colaboradores.

Hoje uma crítica ao vestuário da Presidente na cerimônia de posse é retratada como “ato de ódio”, amanhã observação sobre a feiura de alguma figura da corte, “um atentado”, e vai por aí. Mas incitações ao empastelamento de redações e ataques a jornalistas “reacionários” é qualificado como “excesso”, apenas. Insultos aos que pensam diferente, e ousam escrever estes pensamentos discordantes da “hegemonia”, são tolerados. Quando não incentivados pela impunidade, pois sem preço a pagar, por que não intimidar quem não gostamos?

Não sei se as ameaças dirigidas aos jornalistas depois assassinados foram investigadas. Ainda que os jornalistas se recusassem a ver nelas ameaças reais, cabia às autoridades investigar e punir agressores verbais e autores de ameaças. Talvez este costume (o de não atentar aos ataques meramente verbais) seja revisto, doravante. Precisava ter havido a demonstração da periculosidade de autores de ameaças, de gente que nutre ódio ao invés de simplesmente ignorar o que desagrada? Não havia nas ameaças um sinal de patologia social que demandava atenção e debates crus sobre a necessidade de educar politicamente pessoas incapazes de lidar com a diferença de concepções de Mundo?

O jornal alvo da fúria destes assassinos debochava ecumenicamente de religiões. Os únicos que se nomearam corregedores da Imprensa foram os muçulmanos, pois estabeleceu-se que este grupo não pode tolerar a mínima ofensa. Cristãos e judeus podem (e devem) recorrer à arma que gente que não conta com defensores na Universidade tem: a indiferença, na forma de boicote. Quem quer que se sinta ofendido nos valores éticos e religiosos e que não seja adotado como “minoria” pela casta acadêmica não tem nada mais a fazer. Logo, distribuir a “intolerância” entre religiosos igualmente é uma desonestidade à qual muitos se curvam – temendo ser a “próxima vítima”. Experimentem entrar num espaço de comentários dizendo o óbvio para ser catalogado como “preconceituoso” e “eurocêntrico”(esta qualificação é mais rara entre nossos combatentes de internet). Quantos noticiários referiram-se à “Intolerância” como se esta viesse de fontes das mais diversas, e não de uma em particular?

O que se lê na internet sobre “respeito aos sentimentos” e “limites” é revoltante, pois configuram defesa (muito mais que relativização) dos assassinos; defende-se nestes pseudo argumentos o direito de agir violentamente contra quem não seja “limpo de coração”.

Que muitos destes seres cheios de compreensão se manifestem nos espaços de leitores de blogs afinados com o Governo, e que um determinado parlamentar do PT tenha relativizado a violência, atribuindo-a à “intolerância”, não estranha. Quantos deste ambiente esquerdista brasileiro não aplaudiram o 11 de Setembro, e mais recentemente, quantos não se calaram (quando não manifestaram concordância) com o internauta que conclamava ao assassinato de Lobão? Quantos não escrevem, mesmo depois do ataque ao órgão francês, que a imprensa brasileira precisa ser “banida”?

Comparações entre as vítimas do ataque (vítimas “inocentes”- qual vítima de um ataque destes não o é? ) e alvos do ódio de governistas já vi publicados, sem qualquer temor de escândalo. Como a dizer: “Humoristas talentosos, porém desrespeitosos com sentimentos religiosos são alvos, enquanto canalhas sem talento seguem impunes. Justo?”

Estas dicas florescem nas mentes mais animalizadas pela lavagem cerebral e tornam alvos todos os discordantes. Hoje ataques de hackers e insultos, amanhã, quem o sabe? A impunidade é incentivo eficaz a quem alimenta o ódio com carinho.

Não ficarei surpreso caso haja quem pense (e talvez tenha registrado em palavras em algum comentário ou blog sem leitores):

“E quando teremos caras com culhões para uma visitinha destas à ‘Veja’?”

As relativizações e acovardamentos são as variações deste pensamento, apenas.

X
Que minha lamentação (constante da edição passada deste blog, a primeira de 2015) sobre uma possível aposentadoria definitiva de Helio Fernandes tenha sido negada por sua volta nesta semana me soa como prenúncio de que há ainda chão a ser defendido.

A formação do Ministério de Dilma Rousseff, as dificuldades nascidas da incompetência que tendem a se agravar neste segundo mandato e a indignação que não admite relativizações sobre o ataque à Liberdade na forma do ataque aos jornalistas franceses e mais alguns outros alvos demonstram que a pausa não enferrujou em nada o combatente veterano.

Estranho a indicação ”Do blog do autor”, depois do nome e antes do artigo. Não sei deste blog, e penso que se há blog de HF fora dali, seria gentileza fornecer o link. Mas o contentamento em tê-lo de volta me faz relevar este senão.

Se este blog é lido pelos deuses do jornalismo, atenderam minhas súplicas.

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