“Notas” – 10/01/2015

Chuva de artigos inspirados pelo ataque ao “Charlie Hebdo”- alguns vomitivos, pelo que espalham de lixo mental, nas distorções de conceitos como “sentimentos religiosos” e “valores insultados”, fora a imensidão de textos de indisfarçável simpatia aos fundamentalistas (antiamericanismo bruto) e admoestações à “intolerância”, mencionada como algo comum a todos os que se curvam diante do Sagrado – e outros que, pela força estilística e encadeamento severo de idéias, humilham estes exercícios de burrice e desonestidade.

Entre estes, o texto de Augusto Nunes replicado por Ricardo Setti no qual o jornalista enumera os gestos de simpatia do governo brasileiro e de seus representantes na imprensa aos totalitarismos de todo tipo, e identifica na lista a raiz da neutralidade (ou “ausência de paixão”) diante da monstruosidade de Quarta-Feira.

Outro texto que reputo precioso é o do jornalista Sandro Vaia, publicado ontem. Identifica no calor dos corpos recém – alvejados, os “antropófagos da Democracia” que “começaram a roer os ossos dos mortos e a relativizar o ataque dos fanáticos (…) e colocar, como colchão entre a civilização e a barbárie, as suas ponderações recheadas da habitual vigarice ideológica”.

Os “mas….”, diz Vaia a seguir: ‘Sou contra ataques terroristas, mas…mas o que?”

“Mas …mas…”

E entoam as desculpas de sempre: o jornal “não respeitava sentimentos”, o jornal “promovia islamofobia”, “as charges eram de mau gosto”, as tolices repetidas como mantra por setores da Imprensa mais ligados à ideologia do politicamente correto pelo mundo afora e que no Brasil constituem o corpo da doutrina das Universidades e redações, que molda a opinião pública por este cânone, o mesmo que santifica criminosos e despreza a dor das vítimas e das famílias das vítimas. Onde esta doença se instala, não sobrevive qualquer capacidade de julgar.

Afinal, existem “leituras”. No caso dos atiradores ditos religiosos, uma “leitura” que prescinde de outras “leituras”; aos que , no imaginário dos simplistas, encarna algum ideal de “resistência ao Ocidente”, a Verdade surge cristalina e indiscutível. O acovardamento dos inimigos (nominais, em muitos casos) deste avanço de bárbaros é combustível que impulsiona a locomotiva de destruição e estupidez resoluta. Os que, não apoiando minimamente os atiradores dizem: “A vitória dos intolerantes”, quando deveriam dizer “A vitória dos celerados, dos estúpidos e covardes”.

Lembro de conversa que tive certa vez com jovens (salvo engano, ligados ao PC do B) do movimento negro de Belo Horizonte que defendiam o chamado multiculturalismo. Os jovens defendiam que violências cometidas contra mulheres e crianças de determinada etnia por gente desta etnia não deveria ser detida por gente de outra etnia e cultura. Que mulheres e crianças sejam massacradas, portanto. O multiculturalismo exige para seu triunfo este tributo.

E assim a Europa não pode emitir um pio contra a delinquência dos jovens imigrantes, ou a corrupção de valores que estavam lá antes da chegada das multidões que, fugindo de massacres em seus países de origem, são estimulados por intelectuais da casta acadêmica a ditar as regras do chão que os acolhe. Este o fenômeno, não “sentimentos religiosos insultados”. As massas avançam sobre sociedades complacentes impulsionados por esta complacência, precisamente.

Citando Vaia: “Pelas frestas da covardia, a intolerância se instala, se impõe e domina”. Portanto, que se diga sem eufemismos quais valores correm perigo de sucumbir ao uso corrupto de virtudes como “respeito ao outro”, “compaixão”, “abertura cultural”, entre outros conceitos de árvore de natal que são utilizados por quem não vê neles senão ferramentas eficazes de arrombamento e rapina. Este o desafio, não discutir “limites do humor”, ou ”significados da liberdade expressão”.

Este texto do Sandro Vaia gostaria de ter escrito, que este meu texto seja homenagem justa.

X

E este murmúrio na internet sobre o especial sobre Tim Maia?

Atacam a “Rede Globo” onde ela errou minimamente, para não ter que responsabilizar a emissora pela inconsciência política das massas. Afinal, beneficiários do momento da política de promover somente debates eleitorais e mesmo estes, promover obedecendo a grade da programação.

“Regras da Lei Eleitoral”, sim, mas outras emissoras como a “Band” mantêm programas de discussão de políticas públicas,e estes programas são necessários.

Culpam a Globo por editar o filme para exibi-lo como seriado, recheando-o com depoimentos. Depoimentos que enfurecem partidários da ideia de que Roberto Carlos é a voz da Direita – sim, este cacoete dos anos setenta espalhando nuvens de naftalina.

Não admitem que RC tenha ajudado Tim, mesmo tendo gravado “Não Vou Ficar” em disco dos mais importantes de sua carreira (sou dos que consideram o álbum de ’69, o melhor do Rei), em fase da carreira do Roberto na qual ser gravado por ele era sair da obscuridade de forma instantânea e definitiva. A nota arremessada como bola ao amigo Tim Maia por um assessor (RC de costas, apressado para entrar no estúdio de TV) no chão do corredor nega, a quem acredita nesta história (que admito possa ser verdadeira), qualquer amizade e ajuda de RC. E os comentaristas de internet se apressam a replicar juízos sobre a série, o filme e sobre a amizade de Roberto Carlos (e Erasmo) baseados nesta ênfase a um incidente que não se pode atribuir com rigor ao cantor, Rei da “Jovem Guarda”.

Vi a série e vi o filme. Padecem, isto sim, das limitações do gênero cinebiografia. Neste gênero, personagens diversos são fundidos em um, e nuances inexistem.Vejam a bio do Ray Charles ou o filme do Oliver Stone sobre “The Doors”. Não se trata de deficiência brasileira – o filme é melhor que eu esperava e considero o artesanato bem nivelado com as produções congêneres estrangeiras.

O roteiro é o roteiro típico do gênero – folclórico e moralista. Glamouriza-se a “doideira“ do personagem na mesma intensidade em que retrata seus azares com o sobrepeso e a solidão. “Que companheiro divertido deve ter sido o Tim, queria ter conhecido este maluco” de braços dados com “É…o cara se deu mal, bebesse menos, aprontasse menos, fosse menos cabeça dura…”. Como se não houvesse liberdade existencial sem excessos grotescos, ou se somente quem os cometa se prejudique nesta vida. Simplismos que as plateias parecem exigir dos filmes para não confundir suas mentes.”Vejam a saga de autodestruição deste jovem tão talentoso e fiquem somente com o bom exemplo, he, he”.

Mas é um filme gostoso de assistir, uma boa pedida para quem se queixa da falta de personagens brasileiros levados ao cinema. O Roberto Carlos do George Sauma e o Carlos Imperial (personagem que merece uma cinebio) do Luis Lobianco já justificam o filme.

Quem tiver outra leitura de Tim Maia pode escrever outro roteiro e procurar financiamento – nada obriga um personagem ter um filme somente sobre si. Que os críticos da obra façam outro, portanto.

No fundo, é apenas pretexto para polêmica fácil.

Imagino Tim Maia vivo, criticando(como de seu feitio) este governo e sendo qualificado por estes guardiões de sua memória como “drogado”, “decadente”, “mais um no ostracismo querendo aparecer’ e outros três ou quatro exemplares do repertório MAV.

Querem criticar a Globo e RC? Motivos reais há, numa generosidade comovente.

Utilizar este filme e este especial…é, sobretudo, aproveitar de um morto para fazer figura.

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