“Notas”- 15/01/2015

Helio Fernandes – a volta afiada

Na entrevista ao “Observatório da Imprensa”, Helio Fernandes lembrou do irmão Millôr Fernandes, de como este voltava ao desenho após um dado tempo sem desenhar, mais afiado.

HF também voltou mais afiado do recesso de luto: já registrei no blog suas impressões sobre o Ministério do segundo mandato de Dilma Rousseff, e sobre os desdobramentos dos escândalos da Petrobras. Seus textos recentes sobre o ataque ao “Charlie Hebdo” confirmam o corte.

Semana passada, deu prosseguimento ao tipo de texto que acho o mais interessante dentre os de sua autoria recente: os de cunho memorialístico. Mais precisamente sobre Castelo Branco, suas considerações severas ao presidente recém falecido, e de suas concepções de História e Jornalismo. Série de artigos, dos quais três já formam publicados, e um quarto anunciado.

No primeiro deles, algumas joias:

“(…) para mim, a morte é um problema médico, e não cívico”.
“(…) os homens públicos, esses devem ser julgados pelo bem e pelo mal que fizeram ao seu país, sem que a morte em si mesma constitua uma absolvição”.
“A morte é uma contingência fatal e irrecorrível, não é um julgamento do Tribunal Federal de Recursos”.
“(…) recuso-me a admitir, em quaisquer circunstâncias, que o fato do coração de um homem ter deixado de bater, possa ter qualquer significação cívica.”
“(…) o julgamento da posteridade começa antes da morte, não pode respeitar a morte, é mais importante que a própria morte”.

Quero chegar aos noventa e alguns anos escrevendo assim, sobretudo após um hiato. Muitos não escrevem assim aos trinta e poucos, mesmo exercitando todos os dias.

Ter Helio Fernandes vivo e atuante é arca de gemas aos que sabem o que é bom.

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Augusto Nunes e Ricardo Setti tratam de Marta Suplicy

Falando em mestres atuantes, Augusto Nunes e Ricardo Setti, dois nomes que admiro e respeito (por isto sou duro com o que julgo ser descuidos de análise, sobretudo nas ultimas eleições, destes dois enormes jornalistas) vêm cumprindo, com rigor, a vigilância sobre uma personagem que, tendo desfrutado do petismo por décadas, dele pretende se desvencilhar, como alguém que tendo mergulhado em fossa sanitária, julga prescindir de banho bactericida, trocar de roupa parecendo bastar: Marta Suplicy.

A referida senhora, ao se ver humilhada seguidas vezes, desabafa à Eliane Cantanhêde sobre as mazelas do partido, mazelas sobre as quais se omitiu quando eram outras as vítimas.

Os sites do petismo tentam o impossível – ridicularizá-la. Que declarou contra esta máquina de insultos quando outros foram atingidos?

Violei meus votos de abstinência de comentários em textos alheios, e sugeri que a sequencia de fotos – que inspirou dos melhores textos de Augusto Nunes – retratando a Senadora servindo água à Presidente, a qual julgava “despreparada” – ilustrasse algum dos textos desta série que de artigos nos quais Setti recorda omissões da Sra.Suplicy, que agora se mostra insatisfeita com a conduta da agremiação – da qual ainda não saiu oficialmente.

Um gesto de abjeção de uma senadora, recebendo a resposta lógica: a expressão de sede aplacada com o copo sendo devolvido, sem demonstrações de agradecimento da Presidente.

Meu comentário diz que esta imagem deve ilustrar a capa de possível biografia de uma e/ou outra personagem.

Augusto Nunes tem se mostrado igualmente empenhado em que a operação autolimpante de imagem de Marta Suplicy não  tenha sucesso: vídeos e textos cuidam de registrar o oportunismo de quem, percebendo a desmoralização completa do PT, dele busca se dissociar.

Estas cobras que abandonam a pele para continuar sua obra de destruição devem ser objeto de análise impiedosa. Outras não foram, e a Esquerda brasileira continuou deste modo subjugando o País com suas criaturas.

Um momento digno de nota dos dois nomes que justificam “Veja”.
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Uma sugestão reveladora
Quando um formador de opinião defende cobrança de ingresso como solução para os arrastões de praia, criminaliza uma classe social inteira.

Foi o que fez Hildegard Angel semana passada. Segundo li, teria recuado ante os protestos que sua proposta provocara.

Lembro desta senhora encantada com jovens escarrando em nonagenários supostamente envolvidos com torturas da Ditadura. Ela, por razões afetivas (perdeu irmão preso e torturado no período) não reprimiu o entusiasmo pelos “escrachos”- corajosos gestos de combate a uma Ditadura extinta há décadas. Pichar muros, insultar senhores que, criminosos ou não, são alguns quase centenários, cuspir em grupo em senhores desacompanhados, etc, etc.

Onde esta coragem assim que a Ditadura acabou e alguns destes senhores tinham idade para esboçar alguma reação? Esta senhora na ocasião lutava contra a anistia gozada por estes militares? De 1985 para cá, muito tempo houve para lutar pela Comissão que acabou acontecendo com alguns personagens (alguns autores de atos que penso não merecer anistia) mortos e outros francamente decrépitos.

Não acho que o elogio aos vândalos filhinhos de papai e a defesa de cobrança de ingresso sejam assuntos que tenham em comum apenas a autoria.

A ótica do drama íntimo alçado a drama universal por capricho, é a mesma. Fosse Hildegard uma pessoa que não tivesse irmão (e provavelmente a mãe) vítima da Ditadura, talvez entrassem em seu anseio por Justiça, os autores de atentados que mutilaram e mataram pessoas que cometeram o pecado ideológico da neutralidade (ou, vá lá, alienação) política.

Como pertence à classe que assiste da janela multidões de delinquentes agindo sem inibição em seu bairro, sente-se à vontade para sugerir medida de higienização social.

Marx se acertou em algo com precisão foi na ideologia de classe – a pessoa compreendendo o Mundo através da lupa de seu meio social.

Estes bem intencionados da Zona Sul não tendo a coragem de exigir mudanças na Lei, que inibam criminosos, acham mais cômodo criminalizar uma classe social.

Não admira o desprezo que provocam em uma maioria que os ignora, merecidamente.

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