“Notas” – 17/01/2015

Entrando no prédio, percebo a oferta de cortesia da revista “Encontro”, editada pelos “Diários Associados”, presente aos moradores do condomínio, como meio de divulgar e obter assinaturas da publicação.

Pacotes com três números, acompanhados de suplementos com um único assunto, tema desenvolvido em reportagem, o que em si é algo interessante.

Papel fino, as classes A e B sendo nitidamente o alvo da iniciativa do grupo que edita o “Estado de Minas” e que tem a concessão da “TV Alterosa”, repetidora do SBT no estado.

O tom é o que domina na imprensa local: críticas “construtivas” (e ligeiras), ênfase no modo de viver dos endinheirados, e pouca atenção à realidade de milhões. Muita reportagem sobre o “viver saudável”,  com as usuais “dicas” de academias e estabelecimentos comerciais, finos como o papel utilizado na impressão.

Já escrevi no blog sobre minha irritação com cacoetes do jornalismo mineiro (jornalismo que não parece ter contado até pouco tempo com Dídimo Paiva, e com nomes como Carlos Castello Branco, entre outros homens cultos e com estilo): “Capital” ao se referir a Belo Horizonte, “entorno” para substituir “arredor” e “vizinhança”, entre outras importações de São Paulo. Como  convencer estes jecas de que “Capital” aqui não é cabível, pois a capital do estado não tem, como em São Paulo (o modelo claramente adotado) e Rio de Janeiro, o mesmo nome do estado e, portanto a necessidade que estas cidades têm de serem identificadas como “a Capital”? Cacoete estilístico caipira, somente. Mas que adotado mesmo por “Veja/BH”.

Ah, o provincianismo:  “Mineiro é desconfiado: exige analisar os custos de cada detalhe”. Só mineiros exigem isto? Outros estados são habitados por pessoas que preenchem cheques sem esta exigência? “Mineiro gosta do que é bom”. Gaúchos e paulistas exigem porcaria, ou se contentam com qualquer resultado? “Mineiro, portanto culto”. Bom, o português que noto em gente de certo nível social não permite estabelecer esta distinção com relação aos demais membros da Federação. Estes traços de provincianismo fazem o mineiro ser satirizado, e caberia à imprensa educar as massas para o cultivo de virtudes, e não de vícios cívicos.

Abro o número que traz na capa reportagem sobre o perfil dos estudantes da UFMG. Maravilhas sobre a interação entre mineiros e filhos de outras paragens, a descrição do campus, etc. Há perfis de estudantes com identificação do respectivo curso e modo de ingresso na instituição – por cotas, ou não. Quatro exemplos de não -cotistas e dois de cotistas.

A reportagem não parece disposta a alimentar polêmicas e os cotistas parecem integrados aos não-cotistas, o que me parece pouco crível, pois conheci negros que temiam ser associados aos que conseguiram vagas por cotas, e negros que acusavam críticos deste sistema de racismo. O editorial sugere muito de raspão que o “sistema de cotas está longe de ser a melhor solução”.  Aos advogados deste sistema, senhores “Associados”, não adianta criticar este sistema de forma tão suave, a acusação de racismo vem do mesmo jeito. Críticas ao ENEM não lembro de ter lido na reportagem ( posso ter lido depressa). Um hino ao convívio estudantil, em suma. Como reportagem, superficial e inofensiva.

A capa deveria, segundo penso, ter sido dedicada à entrevista com a Coronel Claudia Romualdo, comandante da Primeira Região da Polícia Militar de Minas Gerais. Entrevista lúcida e esclarecedora, a militar explicando critérios e modo de agir dos seus efetivos, e constatando a impunidade que é combustível da violência:

“(…) você acha que alguém tem medo de ser preso hoje? (…) Se o cidadão escolheu viver de um crime e ele sabe que não vai ficar preso, não tem medo disso”. Como discordar?

Como escolher a tal reportagem idílica da UFMG e não esta entrevista como reportagem de capa? Simples, fazendo parte da classe social que, exceto em casos de assalto às suas residências (com algum desfecho trágico), observam a violência (da “Capital”, como tanto gostam de escrever e falar) como algo distante. Um celular roubado num assalto quando se pilota um importado na Zona Sul é diferente de um assalto num ônibus (como os assaltos aos “brancos ricos”por delinquentes com “consciência de raça”, modalidade em voga “na Capital”), ou em pontos de ônibus.

Outra reportagem de capa trata dos arquitetos e decoradores que seriam (segundo o texto da chamada de capa) os “Bambambãs da decoração”, “queridinhos das lojas de móveis da cidade”. Além da falta de gosto das expressões “bambambã” e ”queridinho” (importações do jornalismo paulista), a perplexidade com reportagem extensa, e de utilidade discutível, como capa de publicação que pretende atrair leitores de um estado com problemas maiores que decidir o que fazer com o elefante de louça na sala. Mas uma questão editorial, em todo caso.

O que me desagradou mais foi o suplemento – reportagem sobre a região do Barreiro, a mais populosa da cidade (ou d”A Capital”) e a mais problemática também. O crescimento que indústrias trouxeram à sua vizinhança (ou “entorno”) veio acompanhado da explosão populacional, com os serviços correndo muito atrás das demandas.

Não que a reportagem não compreendesse as dificuldades da região (sobretudo quanto ao transporte coletivo), ou que não denunciasse a situação de famílias que esperam há décadas o pagamento por desapropriações que reduziram algumas destas famílias à miséria.

Mas ao tratar do transporte, não se bateu, como penso que deveria se bater, na “Estação Barreiro” que, em sua inutilidade (trato disto em textos aqui no blog) faz com que viagens sejam demoradas e a espera desgastante. Muitos dos problemas que noto no bairro são fruto da distância da região – que as estações não logram atenuar, ao contrário.

Morei no Barreiro em 1990 e 1991, antes destas estações, e noto piora no ânimo das pessoas que moram ali. A viagem ganhou um acréscimo que nada tem a ver com o pretexto alegado para a existência destas estações (aliviar o Centro). São monstrengos que consomem tempo, somente. E que são defendidas (ou minimizadas como problemas) também somente por quem não mora ali.

As queixas de violência por parte dos moradores são tratadas na reportagem como pormenores, como notas de rodapé. O que conta na reportagem é retratar a explosão imobiliária (retratada como progresso) e barzinhos da moda.

Falando em barzinho, tradicional bar que vende “Caldo de Mocotó” no Centro de BH é mostrado em foto, não aparecendo a vizinhança, nada glamourosa. A localização também não é dada.

Coincidência? Ou espírito da publicação?

Esta imprensa é notoriamente aecista. E de olhos nela, a massa não escolhe Aécio Neves, ainda que não escolha o PT.

Difícil entender a razão?

X
Quem não se entristece com a execução do brasileiro por tráfico na Indonésia?

Não penso que Dilma Rousseff agiu mal intercedendo a favor do condenado. Papel de Chefe de Estado.

O que dói é não vermos na Chefe de Governo a mesma energia no sentido de estancar o banho de sangue de dezenas de milhares de brasileiros assassinados anualmente.

Que ela interceda diante do Congresso por mudanças na Lei com a mesma energia e emoção com que se conduziu no caso do condenado brasileiro.

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