“Notas”- 22/01/2015

Chateaubriand e Formação de uma Elite Nacional, por David Nasser

Me presenteio pelo aniversário, com visita ao sebo do Amadeu – quem ama os livros conhece este estabelecimento livreiro em Belo Horizonte .

“Ih, o livro Tal? Acho que só no ‘Amadeu’. Tenta lá.”

“Que tem aí de David Nasser?”, pergunto pelo autor que primeiro me pescou, nas tardes de visita à avó paterna, as duas páginas de “Manchete” assinadas pelo velho jornalista que me parece ainda hoje um dos melhores textos do idioma. Conheço livros que são coletâneas de seus textos em “O Cruzeiro” e o volume “Autocensura”, dedicado à sua fase com os Bloch.

Trazem-me “A Face Cruel” e edição de bolso de “O Velho Capitão”. Levo os dois. Em uma página de “O Velho Capitão”, Nasser discorre sobre os feitos de Chatô: “O movimento nacional pela Aviação Civil (…) permitiu o desenvolvimento dos aeroclubes e possibilitou o ingresso de milhares de jovens na carreira(…), a campanha em favor de um verdadeiro museu de arte no Brasil…campanha pró-infância”. Menciona em seguida a campanha pela formação de uma elite brasileira – e o pouco êxito que esta obteve: “por se tratar de uma campanha de muito maior profundidade (…) talvez ainda não tenha compreendida pela Nação. Não se deu até agora um balanço exato das enormes vantagens dessa campanha pró-formação de uma elite nacional estabelecimentos especiais de ensino, selecionando valores, aprimorando-os, conquistando-os para os postos principais (…) a carência de material humano, justamente aquele que não era possível substituir…”

A colonização de áreas remotas do País avançou pela formação de aprimoramento de pilotos de aviação, em tempos de estradas poucas e ruins. O MASP é fruto do dinheiro e do saber especializado de Pietro Maria Bardi. Logo, Assis Chateaubriand diagnosticou a causa principal de nosso atraso: a falta de quadros qualificados para os grandes avanços. Estas duas campanhas são argumentos decisivos contra o espírito de improvisação e o desleixo. David Nasser bateu-se por isto após a morte de seu mestre: sempre fustigando a mediocridade predominante em tecnocratas despreparados para problemas graves, sobretudo na agricultura. Ou na Imprensa, que abandonava o conhecimento de jornalistas brilhantes como ele próprio e seus contemporâneos em nome de um modelo técnico que demanda esforços sem os quais sobra somente imitação mal feita.

O problema da formação de uma classe dirigente, bem preparada para assumir postos de comando – mesmo para pleitear, de forma a educar a massa nas campanhas eleitorais – parece ter preocupado pouca gente, além dos dois tribunos. E tudo que de mal que  acontece ao Brasil é consequência lógica da negligencia deste problema, o mais urgente de todos: formar material humano de qualidade, pois com ele, intempéries de clima ou de natureza político-econômica são enfrentáveis. O PT teve sua escola de sindicalismo, de formação de quadros, e não sei se ela produziu quadros valiosos, ou se perseverou. Outros partidos têm seus Institutos, mas não sei de suas produções. Não sei se a cúpula destas agremiações tem mesmo interesse na formação de novos quadros que possam disputar liderança na máquina.

ONGs podem formar estes quadros? Contando com intelectuais interessados, e não com meros doutores de conhecimento escasso e pompa de títulos… não sendo aparelhadas por líderes de partidos…pode ser que venha daí uma nova elite. Aposto mais em grupos de estudiosos que sejam dotados de realismo político e que não alimentem vaidades e disputas que apenas dividem, fortalecendo inimigos naturais. Mas penso que o primeiro passo é a aceitação da necessidade de reiniciar a campanha iniciada por Chateaubriand.

Admitir que o País está pobre de cérebros é o começo de tudo.

X

Cena frequente em BH – os defensores ruidosos do PT

Quem, em Belo Horizonte, não se viu confrontado por uma modalidade local de militante em tempo integral pelo Governo? Pode ser no táxi, no ponto do ônibus, numa fila de supermercado. Claro que menos arrogantes que em dias em que a sigla de adoração estava menos marcada por escândalos – agora dizem apenas detestar o PSDB, na sua maioria.

“Vocês só sabem falar disto, Petrobras? E os milhões que saíram da pobreza?”

“O Aécio Neves também baixou o nível. Como? Você não viu ele xingando a Presidente no debate, chamando ela de ‘leviana’?”

“O avô dele apoiou a Ditadura. Onde li isto? Meu professor de História, muito inteligente, me contou, falou de um livro, depois te dou o nome. É…você precisa estudar mais, ler menos a ‘Veja’ ”.

Cruzamento no centro de BH.

“Este horário de verão mata a gente”, diz a senhora de presumíveis cinquenta e alguns anos. “Sim, e quando estamos acostumando o corpo, acaba”, concordo. Ao atingirmos a outra margem (calçada, digo), a senhora de óculos e pinta de funcionária pública me encara:

“Sabe o que é isto? Os empresários que não querem abrir mão de nada. Quando um Governo como os do Lula, ou da Dilma Rousseff, faz alguma coisa pelo Povo, querem derrubar.”

Comecei a rir, achando que fosse ironia da interlocutora. Não era. “Não lembra o que fizeram com Getúlio Vargas?”

“A senhora está comparando estes sujeitos no Poder hoje com o homem que trouxe o Brasil para o Séc.XX?”

Os lábios tremiam, sublinhando o olhar de fanatismo: “A China, a Alemanha…. copiam o Bolsa Família. Os Estados Unidos…51 Milhões tirados da Miséria.Você tem que ler o blog do Paulo Henrique Amorim…”

“Ah, o ‘Conversa Fiada’, perdão, ’Afiada’.

“Por que você não acredita nele e acredita na Globo?”

“Eu acredito na Globo? Donde a senhora tirou esta conclusão?”

“Se não gosta do PT, é de Direita, logo…”

Tentei ensinar à consumidora de governismo a distinção entre assistencialismo e formação política das massas, mas acabei me lembrando que não sou professor, sequer voluntário em programa de alfabetização de adultos. Nem funcionário de manicômio. Dei as costas, ouvindo insultos (sim, ela insultava quem apenas mostrou desprezo pelos dados que ela repetia como papagaio, mas que a tratou com respeito pessoal), e profundamente arrependido de não ter dito: “A imprensa reacionária, o PIG, está pronto para derrubar do Poder uma Estadista. Me deixe ir, vou depressa alertar meus amigos.”

Quem discute política com interlocutor não qualificado (ainda que o interlocutor seja tucano feroz, ou Demista, ou…ou…) merece todos os perdigotos.

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