“Notas” – 29/01/2015

O triunfo do profeta William Waack

O “Jornal da Globo” da madrugada de Quarta-Feira, 28, para Quinta, 29, trouxe William Waack exuberante na abertura, discorrendo sobre a Petrobras: balanços controvertidos, queda livre das ações, e todos os demais etc. Parecia mesmo pronto a voar do estúdio rumo ao firmamento dos profetas: “Não disse?”

Governistas zombaram por meses da fisionomia melancólica do autor de “Camaradas”, enquanto declamavam números do Governo. Rirão agora?

Qual discurso preparam para o desembarque que sabem fatal, ainda que demore uns (poucos) anos? Como explicarão terem alugado suas assinaturas para o mais obsceno ultraje ao ofício de jornalista em toda a história brasileira? Como enfrentam o homem das ruas, agora que o sonho acabou mal o corpo pousou na cama?

Justificativas mal costuradas acalmarão os investidores que entram – e entrarão – na Justiça, no Exterior? O anuncio de não pagamento dos dividendos terá soado como, em ouvidos nada acostumados ao coitadinhismo governamental brasileiro?

Nada parece fácil ao partido que tudo fez para conseguir a vitória em Outubro, e estamos ainda no primeiro mês de um período de quatro anos, muito tempo para o arrependimento: “Por que não jogamos limpo? Se o PSDB ganhasse, que se virasse com os abacaxis herdados, enquanto tramaríamos o retorno.” Agora é tentar transferir culpas, sobretudo na crise da água, nos estados governados por um PSDB que negou o problema, omitindo a culpa do Governo Federal que tem a seu dispor a Agencia Nacional de Águas.

A água será a corda que evitará o afogamento certo, por enquanto.

Em Minas Gerais, chegará a hora em que a responsabilidade de governos anteriores não será explicação suficiente. Neste estado, o petismo tem se desvencilhado com maestria de problemas que ajudou a criar. Aqui no blog já lembrei o episódio da primeira eleição de Marcio Lacerda; Fernando Pimentel e Aécio Neves juntos, sorrindo e pedindo votos ao prefeito que hoje os petistas desejam ver distante da biografia do Partido. O PSDB não foi hábil em se safar da responsabilidade, e amargaram derrota que queimou o bom Pimenta da Veiga. O PT, em compensação…

Waack não me parece sádico ao sorrir nos anúncios das mazelas que flagelam os brasileiros. Parece a mim um homem dotado de um senso de Justiça que compreende os desinteressados pelas coisas públicas seres necessitados de atravessar provações severas para educar seus espíritos. Um piedoso, em suma. Que acredita na democracia como construção que pode levar décadas, mas que não necessita disto, compreendem? Dá para aprender um pouco pela contemplação de vizinhos que passam pelas agruras que nos parecem destinadas pelos próximos quatro anos. Os gastos na Copa (que gente simples julga agravante para a chamada “crise hídrica”, pois “para construir estádios tinha grana, por que não para mais reservatórios?”) e o atraso nas obras de transposição do São Francisco foram anunciados por este grande jornalista, com o olhar triste de quem sabe que as massas não estão ainda acordadas.

As torneiras secas e a imagem da maior empresa brasileira (empresa de indiscutível valor simbólico, o logotipo da Petrobras podendo mesmo ser confundido com o “Ordem e Progresso” da bandeira nacional) descendo para as profundezas, abaixo da camada do Pré-Sal (como ficarão os investimentos neste reservatório que foi vendido como um sonho – mais um?) talvez sejam toques de despertar.

Não se escolhe ser profeta de más colheitas, ou escriba de tempos miseráveis, no ofício ao qual foi uma das suas honras. Posso apostar que Waack gostaria (e sorriria mais jovial ainda que nesta madrugada de quarta para Quinta-Feira) de elogiar as medidas de austeridade e sabedoria nos gastos deste Governo, ou a queda nos índices de criminalidade, ou mudanças nas leis que punem cidadãos enquanto acariciam malfeitores, mas é o Brasil de outra hora (mais sombria), o que tem neste repórter que cobriu guerras e revoluções (Guerra do Golfo e revolução do Irã) seu analista e mestre de cerimônias de noticiário.

Com você, William Waack, sorriram todos os que advertem seus vizinhos e colegas de estudo e trabalho sobre a má farsa que sofremos. Nesta madrugada de Quarta para Quinta sorrimos, pois os fatos nos confirmaram.

X

“O Quinze” que nos cabe

Esta seca me lembra do romance “O Quinze” da Rachel de Queiroz, sobre a seca do 1915. Passamos por outro “Quinze”, cem anos passados.

Que as autoridades aprenderam na prevenção de uma estiagem tão áspera? Euclydes da Cunha n’Os Sertões” descreve o homem como “semeador de desertos”, enquanto menciona obras realizadas pelos romanos na Tunísia.

Este “Quinze” inspirará escritores, cineastas, compositores? Artistas, se não completamente castrados pela Academia- e seu filho, o  politicamente -correto- serão merecedores de eternizar este pedaço de desespero?

Por hora, temos que atravessá-lo com a dignidade que ele exige de nós todos.

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2 respostas para “Notas” – 29/01/2015

  1. Valentina de Botas disse:

    Oi, Fernando!
    Está tão bonito o blog que não resisto a ousar deixar uma dica para melhorar a límpida aparência gráfica dele, se você me permite: ponha os títulos em bold, ou negrito. Trabalho numa editora, não diretamente com a arte ou projeto gráfico, mas sei também como leitora que negritar os títulos “situam” o leitor em um espaço gráfico com poucas referências. Só isso. Um abraço

    • fernandopawlow disse:

      Valentina, começarei a fazer isto. Você acredita que não sabia como “negritar”?Sou um neófito completo nas artes gráficas,e realmente, faz toda a diferença. O texto de hoje (que estou terminando de digitar) terá os títulos das notas em negrito.

      Muito obrigado pelo elogio ao novo visual – o antigo exigia esforços de leitura que sei, agora que adotei este novo tema, sadismo puro.

      Que este novo visual (sobretudo com a adoção desta sugestão gráfica) te faça assídua aqui neste espaço.

      Seus comentários (e suas sugestões) são um presente, aos meus leitores, e a mim próprio.
      Seu último texto, publicado por Augusto Nunes, está uma joia.

      Abraços doPawwlow

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