“Notas” – 07/02/2015

Afrânio Vital no “Estranho Encontro”

 

A pesquisadora e escritora Andrea Ormond presenteou seus leitores nas comemorações de dez anos do seu blog “Estranho Encontro” com uma entrevista com o cineasta Afrânio Vital. A segunda, o diretor havia sido entrevistado em 2006.

Este blog é um item necessário de pesquisa para quem se interessa por cinema brasileiro. Muito do que sei sobre Walter Hugo Khouri, Carlos Hugo Christensen, Carlos Reichenbach, colhi da leitura dos textos que mesclam informação com reflexões que transcendem o cinema, tangendo literatura, filosofia, psicanálise. Nele fui apresentado (pela entrevista de 2006) ao cineasta Afrânio Vital e sua maneira de pensar que tem em comum com o blog o interesse em cinema, literatura, filosofia e psicanálise. Reli algumas vezes aquela entrevista e percebi (como certamente outros leitores perceberam) que o entrevistado rende várias entrevistas, um excitante mental corporificado em um realizador pouco conhecido do grande público – azar do grande público, sempre confiscado dos tesouros do Brasil.

O personagem rende entrevistas, pois discorre sobre jazz, cineastas de outras décadas menos acostumadas com restos, psicanálise (desenvolve o tema com a propriedade –e profundidade- dos que realmente leem sobre o assunto, conhecendo autores, correntes, etc),  sua convivência com amigos como Khouri e Christensen (a entrevista recente mencionando outras amizades ilustres como Octávio de Faria e Nelson Rodrigues), sua biografia (que contém material para autobiografia, e mesmo cinebiografia) e tudo isto atravessado por sua paixão pelo cinema. Pelos filmes que assistiu, e pelos que realizou.

Afrânio Vital é de natureza aristocrática, um carioca londrino. Transporta consigo Madureira em viagens pelo mundo, e, na Lapa, faz seu Apollo Theater.

Realizou filmes em país de poucos cineastas negros. É um cineasta que não encontra catalogação fácil, e entre nós brasileiros o que não se pode encaixar numa estante determinada merece ser suprimido, ter a memória apagada. Não é um cineasta que se deixa pautar por agendas de movimentos ditos sociais (sobretudo o movimento negro, instrumentalizado por política partidária e importador de soluções para o racismo brasileiro) nem se permite aos mecanismos do populismo. Isto no Brasil é implorar pela incompreensão da casta acadêmica e o consequente banimento do raio de Poder desta casta: a área cultural.

Afrânio: “Não tenho culpa de ser culto, de ter estudado e vivido tanto”.

Bom, no Brasil, sobretudo nos limites de atuação de pedantes com titulação acadêmica, ler muito (e demonstrar ter digerido e produzido, negando o ofício de papagaio) é ofensa que não escapa aos que guardam as chaves de cofres e portas onde estão as oportunidades que em tese deveriam estar à espera dos esforçados. Esta gente fecha o caminho mesmo.

Por que não dirige o que Andrea Ormond chama de “sociochanchadas”? Escreve um roteiro simplista, com sociologia de cervejada de diretório acadêmico, com os papéis sociais marcados de maneira a fazer o filme ser compreendido por débeis mentais, e pronto! Retoma a carreira com direito a elogios dos “Homens que Entendem de Cultura”. Renunciasse ao jazz, encaixasse na trilha sonora pagodes, ou rap, ou algum revival do agrado destes laboratórios comportamentais. Não seria um filme como os que realizou, e os que seus mestres realizaram, mas…

A programação de filmes nacionais, sobretudo na Rede Globo, é previsível como a programação de flash back nas rádios noturnas: Elton John seguido por Rod Stewart; sociochanchada ambientada em favela, alternando com drama político (filmes políticos que caibam no que chamo de “cinema de tese”, há texto aqui no blog a respeito, que cita o “cinema mauricinho”, classificação criada pelo Neville D’Almeida), seguido por comédia regionalista. O que escapar disto é um acidente que não conta como opção.

“Eu fui totalmente excluído. Eu não existo”- Afrânio na entrevista recente.

Difícil imaginar o cinema brasileiro florescer somente com verbas e diretores de fotografia, os diálogos denunciando a formação humanista capenga, as leituras (e leituras orientadas por intelectuais de gabinete, ainda por cima) obedecendo ao projeto de uniformização de consciências (o sucesso de um filme com “Tropa de Elite” é a fuga desta bitola, causando empatia no espectador, igualmente farto da mesma bitola), a estética como representação gráfica desta castração espiritual conhecida como “politicamente correto”.

Há que existir os aventureiros (que, segundo Afrânio na entrevista: ”Não servem a nenhum Deus”) que corram pela margem, iluminando com distância de décadas o caminho por onde os conformados se arrastam em dias mesquinhos, do contrário, a queda sob bárbaros é fatal. E este hiato de mediocridade tem se prolongado perigosamente entre nós- onde um romancista que mereça ser lido? Um cineasta que nos surpreenda? Neste mesmo intervalo de tempo, surgiram Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson nos Estados Unidos, para citar apenas dois, onde poderia citar muitos.

Mas aqui é lugar onde Lima Barreto levou décadas para ser devidamente apreciado, e João Antônio ainda é pouco lido. João Antônio cuja frase “Talento, no Brasil, é uma maldição. Ai de quem o tem!”, me ocorreu na leitura da entrevista, o autor (um dos gigantes do conto e do jornalismo literário) e sua constatação das dificuldades no caminho do homem de estudos no Brasil. As puxadas de tapete (segundo as que constam da entrevista),  as acusações de “pedantismo” partidas de gente supostamente apta a lidar com intelectuais, a pressão empregada no nivelamento por baixo, enfim, o que Afrânio relata, são as vicissitudes destinadas aos verdadeiros intelectuais neste País. Lima Barreto e João Antônio saudando o cineasta: “Bem vindo ao clube, Irmão!”

O que virá por aí anima: há, muito graças ao trabalho da combatente Andrea Ormond, gerações de jovens perguntando por Afrânio Vital, procurando por seus filmes, e isto fatalmente demandará novos projetos.”Estou escrevendo um roteiro (…)Pretendo realizar muito ainda. Isso não é apenas uma necessidade, é uma obrigação de nós sobreviventes com os que se foram”-assegura, referindo-se aos amigos Carlos Reichenbach, André Setaro e Alberto Salvá.

“Aos sobreviventes destes dias mesquinhos”, acrescento.

Uma entrevista preciosa.

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