“Notas” – 12/02/2015

E 35 anos celebram-se assim

Interlocutores que leram a nota do post da véspera do encontro dos 35 anos do PT em Belo Horizonte me prometeram bola de cristal de presente:
“O resto você já tem.“

Os punhos erguidos, as caretas de indignação e palavras de ordem. Não escrevi sobre a defesa dos petistas baseada no patrimônio espartano de alguns deles, nem Rui Falcão assegurando que todas as doações são legais, pois isto não precisa ser previsto – é mesmo obrigação de um líder partidário defender, com os argumentos que possui, sua agremiação.

Claro que os chavões lançados pela imprensa governista devem ter sido repetidos por oradores, ou por membros da audiência – as arengas contra o PIG, vaias sempre que a “Veja” era mencionada, e posso apostar que houve quem protestasse contra o “ódiojornalismo”, conceito lançado (e prontamente adotado por comentaristas de internet) pela professora Ivana Bentes.

O que confirma o que escrevi é a militância composta quase unicamente de funcionários do partido – funcionários entendidos aí como petistas empregados em assessorias, ou em sindicatos dominados pelo PT. Não vi imagens de militantes jovens cantando, ou em grupos no feitio de tribos e subtribos, o clima de acampamento de convenções petistas do passado.

Tentei calcular quantas megeras de guichê (destas que gritam com velhinhos nas repartições, ou que devolvem documentos jogando-os no balcão) havia ali por metro quadrado. Ou professores que exercitam coragem sobre os adolescentes que ainda não aprenderam a reagir aos berros e agressões verbais que minha geração suportou estoicamente (ah, os professores petistas berrando sobre pré-adolescentes: “Seus pais votaram no Newton Cardoso e nós não recebemos aumento”, ou os professores – todos petistas devotos- que berravam histericamente sobre filhos de pais inadimplentes nas escolas privadas que estudei;  as piores escolas de minha vida, diga-se).

Trata-se de uma classe de servidores ainda no Poder, mas que provoca, a cada dia, o desprezo destinado aos organismos predatórios do metabolismo social. O partido ao qual servem (agora como funcionários temerosos de perder as tetas, nem tanto mais como fanáticos fiéis de um credo submarxista) só se sustenta pela incompetência de seus adversários, mas como ferida que lança jatos de pus enquanto seus líderes tentam convencer que se trata de ilusionismo fabricado pelos inimigos.

Todas as fichas no impeachment

E a Oposição, a exemplo do que tem feito nas denúncias variadas de corrupção, aposta todas as suas fichas na possibilidade de um pedido de impeachment que seria , segundo entendem, fruto natural dos desdobramentos de uma CPI mista da Petrobras.

Pois se configurado o crime de responsabilidade da presidente Dilma Rousseff, ou mesmo comprovada a origem ilegal dos recursos de sua campanha, a perda do mandato seria o resultado lógico.

Não parece haver outra linha de abordagem da realidade indigesta: o PT ganhou esta eleição.

Não cuidam, os oposicionistas (não somente os militantes de política partidária, mas – e sobretudo – os formadores de opinião) de combater o sistema de valores que tornou possível a vitória do PT, a escolha das massas pelo populismo de nível mais baixo (o elaborado sobre fantasias de dominação dos trabalhadores por uma conspiração de “brancos de olhos azuis que leem e que odeiam os escuros analfabetos”) e de política assistencialista de manutenção improvável. Acreditam estes oposicionistas que um impeachment traria de volta os anos anteriores a 2002, e estes anos seriam reconduzidos à condição de pesadelo.

Onde muitos destes sonhadores da volta do passado dourado quando o Foro de São Paulo era retratado (quando mencionado, sim?) como uma pitoresca convenção de fã-clubes de Fidel Castro (há ainda entre formadores de opinião esta certeza)? Alguns deles estão entre os vendedores da fantasia do impeachment.

Não trabalham os líderes partidários da Oposição suas bases (agem como não tivessem, talvez não haja mesmo) no sentido de orientar ações de longo prazo, lembrando que ou aprendem a esperar, ou os petistas ensinarão nos longos anos que terão no Poder?

Elaboram estratégias de convencimento das massas, lembrando a elas que meritocracia não é uma ideologia direitista (afinal, direito de herança nada tem de meritocracia), e sim a arma com a qual superarão as barreiras de classe social? No lugar de lamentar as cotas procuram mostrar que as cotas farão, fatalmente, vítimas entre os supostos beneficiários, pois o recurso às cotas só aumentará, na proporção oposta à das vagas?

Não parecem dispostos a este esforço, mergulhados no conforto e mesmo no luxo absorvente. Logo, fantasias de um retorno mágico a um tempo idealizado preenche o espaço que deveria ser preenchido com estudos e leituras dos grandes estrategistas sociais.Como a classe média é público certo deste repertório de simplificações, a ausência de resultados não desmoraliza ninguém. Carlos Lacerda dizia “No Brasil ninguém se desmoraliza” sobre os “Homens que sabem das Coisas”, sempre de prontidão para emitir tolices e fórmulas que, segundo o mesmo Lacerda, o Brasil é pródigo produtor.

Esta aposta no impeachment não leva em conta a popularidade residual deste Governo em setores, nem a realidade do ciclo que ainda está se esgotando. Como advertiu José Serra na pré-campanha eleitoral (sempre se atribui aos céticos e lúcidos as intenções mais escuras e criminosas, no Brasil), nada assegura que o esgotamento por si traga resultados eleitorais imediatos. Que dirá um impeachment.

Mas dá menos trabalho iniciar campanha do tipo, não? Livra-se da tarefa de enfrentar tabus e de adotar opiniões que melindrem os preguiçosos intelectuais, que atribuirão esquerdismo a qualquer mudança social como começo de qualquer proposta política.

E os petistas pavimentam sobre esta coletânea de lugares-comuns sua hegemonia que transcende mandatos, pronta a qualquer revés institucional.

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