“Notas” – 14/02/2015

Carnaval em Belo Horizonte

Tento gostar do carnaval de minha cidade – os jornais “da Capital” (mesmo a “Veja BH” traz este cacoete de copiar o “Capital” adotado pela imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo para tratar das respectivas cidades homônimas dos estados) garantem ser obrigatório e na oportunidade tento domar minhas resistências e provar que meus conceitos são preconceitos.

Há o esforço de blocos e bandas para tornar o carnaval daqui páreo para os carnavais de cidades do interior e de outros estados – esforço louvável que acredito que um dia frutificará em uma cultura de irreverência e festa, mas ainda não mudei minha impressão – o carnaval daqui é desolador. Não sinto alegria, e dou ao meu ânimo sua porção de responsabilidade, talvez em outra fase da minha vida o perceberia menos melancólico.

Lembrei,  no dia em que saí e peguei um final de festa na Pça da Liberdade, do texto de João Antônio sobre a rivalidade Atlético X Cruzeiro (“É uma Revolução!”,  do volume “Malhação do Judas Carioca”),  no qual descreve o ambiente, sobretudo psicológico, de Belo Horizonte. Escrito nos anos setenta, me parece atual:

“Tipos marginalizados, anônimos, homossexuais, prostitutas e homens que bebem sozinhos calados (…) os homens e as mulheres, lado a lado, mas ilhados, prosseguem na mesma solidão. No seu ensimesmamento, as pessoas chegam a ser sinistras; e no ar há um estado de espírito de depressão pesada”.

Fui à feirinha da Savassi, das Quintas, antes de seguir para a Pça da Liberdade, e vi exatamente o que descreve o autor de “Malagueta,Perus e Bacanaço”. Grupinhos fechados, os semblantes carregados, o espectro da desconfiança resistindo às gargalhadas liberadas sob litros de cerveja, e mesmo estas gargalhadas contendo brincadeiras de gosto discutível, próprias de uma gente desacostumada a brincar;  a galhofa sendo pretexto para desrespeitos vários: “Fulano, seu viado, achei que você tinha esquecido como chegava aqui!”, “Ô chifrudo, porra, você demorou, estava esperando acabar aqui prá vir, uai!”- isto berrado nos ouvidos de quem passava perto, a participação na esculhambação sendo compulsória.

Paqueras, não notei, e os sinais de descontração entre os diversos círculos que promovessem espírito de descontração geral, muito menos. Não imagino novas amizades, ou conquistas, tendo aquelas concentrações de alcoolizados como palco. Não conheço bem o carnaval em outras cidades, mas o que sei por testemunhos me parece menos postiço, uma alegria menos ajeitada às pressas, menos “incentivada”, menos contaminada por burocratismos que vendem uma revolução de costumes ainda por realizar. Tudo me soa como uma convocação, no grande ambulatório de Belo Horizonte, do “Vamos! Agora! Todos os internos! Brincar de ser feliz!”

Terá alguma vez em sua história esta cidade ter sido menos depressiva? Os sonhos de abandonar Belo Horizonte pelo Rio de Janeiro parecem ter sido plantados nas primeiras gerações de belorizontinos exasperados por uma realidade que se anunciava como sentença de morte executada pelo prazo de uma vida de sonhos adaptados, dia depois de dia, às dimensões medíocres de uma noção deformada de realidade: “Não sonhe muito alto, nem em cores muito vivas, a realidade é mesquinha, e em preto e branco”.

Assim esta cidade expulsou muitos de seus talentos para o Rio de Janeiro – e depois os culpou pela deserção. O Brasil agradece sem saber de qual gaiola muitos destes valores (da literatura, principalmente) escaparam. De qual destino miserável como redatores mal pagos ou assessores de imprensa vis (e do recalque e rancor perceptível em muitos dos que “não abandonaram sua Terra”), grandes escritores foram salvos ao trocar a cidade de clima agradável pelo metrópole quente e perigosa, surdos às advertências dos prisioneiros do arraial.

Que tem essa digressão sobre as correntes migratórias de intelectuais mineiros para o Rio de Janeiro a ver com o carnaval de Belo Horizonte?

Não saberia construir um nexo linear para consumos de débeis mentais, mas que de pé ali, bebendo cerveja em lata, assistindo ao Teatro da Alegria encenado de forma grotesca, me lembrei de “O Amanuense Belmiro”do Cyro dos Anjos ( livro “obrigatório” (oh clichê) a quem se interessa por Belo Horizonte, além de excelente literatura) e dos poemas da série “Boitempo” do Carlos Drummond de Andrade (a porção deles dedicada ao seu tempo em BH), e do texto citado do João Antônio…

Carnaval em Belo Horizonte – um programa de índio para não se botar defeito.

Um anúncio que faz pensar

Anúncio de perfume (ou desodorante) me faz rir: mulheres (na academia, ou no escritório, ou correndo no parque, só não aparecem reunidas em casa de amigas em trajes sumários nas reuniões para falar de homem) comentam sobre determinado Fulano:

“Um fofo”, “um mão aberta”, “sempre pronto para ouvir minhas queixas sobre os cafajestes”, “um amigão”, “um boa praça”, “sempre de prontidão no consultório sentimental”, etc, etc.

O anúncio corta para o jovem (jovem demais para se prestar ao papel de amigo assexuado, diga-se) aplicando o tal perfume (ou desodorante) que o livra do papel do amigo de todas as horas, jamais cogitado pelas mulheres para mais do que isto – o amigo assexuado das horas amargas. “Adeus, Friendzone.”

Lembrei dos oposicionistas que não provocam nas massas a empatia que deve haver muito antes do primeiro argumento ser enunciado. Parece mesmo faltar testosterona em muitos dos homens da Oposição, que combatem sempre de olho no espelho, vigiando a manutenção do penteado enquanto são atacados e buscam ( ?) se defender.

Este anúncio de perfume (ou desodorante) deveria ser estudado pelos homens do marketing político. Diz mais do que todo o material apresentado por cientistas políticos, ou pelos marqueteiros que usam de maneira lamentável o que este anúncio utilizou de maneira condensada – o conhecimento da programação neurolinguística aplicada à comunicação de massas: o segredo da sedução, o que se evitar ao se dirigir à fêmea (Mussolini mandando lembranças) representada por eleitores acostumados a decidir emocionalmente seus destinos.

Um publicitário que deveria ser contratado urgentemente por algum partido político.

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