“Notas” – 19/02/2015

Um teatro para consumo próprio

Meu pai contava, divertido e divertindo, o teatro armado por um sujeito franzino de óculos, sem qualquer poder de intimidação, que resolvera contratar um seu oposto exato; sujeito alto, musculoso, tipo que magnetizava sobre si atenções, com reputação de gladiador de bar.

Um encontrão em um bar:

“Pô, não presta atenção por onde anda?”

“Queira me desculpar…”

“Desculpar, desculpo, mas você derramou toda a minha bebida.”

“Não seja por isto, pago outra para o Sr”.

“Não precisa, vai, vai…”

E o valente por contrato saía do bar sem ouvir o coro de gargalhadas dos que haviam sido avisados pelo ator improvisado sobre o teatro que assistiriam.

“Professor X, da UFMG, denuncia Golpe – ‘1964 começou assim.’ ”
“Derrotistas, engulam esta: ações da Petrobras em alta histórica nesta segunda.”
“Jornalista Y:’ Os donos da mídia jogam seu jogo antidemocracia’ ”

As manchetes dos órgãos financiados por estatais ou por empresas amigas do atual Sistema funcionam como o teatro entre o medroso da própria sombra e o malandro que vende um teatro já denunciado de antemão: só desavisados acreditam.

Não acredito em leitores que não militantes pagos, ou aspirantes a militantes pagos, fora do círculo de gente simplória, inimiga de análises demoradas, estacionada mentalmente nas fantasias de adolescência. Não é possível haver um terceiro tipo de leitor (e sobretudo leitores que compartilham, comentam, replicam, adotam os jargões – os quais devem ser elaborados às gargalhadas pelos diretores destes sites) deste material.

O que vejo de argumentos que desmentem argumentos da véspera, nas caixas de comentário, desafia qualquer estudioso de lógica pura – não é possível uma escolha ideológica (ou mera paixão partidária) que suporte a digestão de slogans e explicações contraditórias, lançadas diariamente. O sujeito vira um autômato com os dedos funcionando alheios ao que restou de inteligência, ou auto apreço.

Como deve funcionar a mente de um MAV (ainda que MAV iludido, fabricado pela máquina de informação)? Qual volume de informação deve ser processado previamente por seus diretores espirituais (não raro professores, que deveriam ter o mínimo de compostura, ou ética…”Ãh? Compostura? Ética? Isto rende promoção no Departamento?”) até ser apresentado ao mingau que carregam na caixa craniana? Serão sujeitos acostumados a discutir com seus colegas de ofício as surras que tomam de argumentadores minimamente informados, para decidir por versões mais verossímeis? Leem algo além do que seus referidos diretores permitem, ou indicam (o que dá no mesmo) ?

O que apresentam não anima a apostar em respostas afirmativas a estas perguntas:

“Vou destruir os coxinhas, o professor Doutor Fulano da UFRJ prova, veja bem, prova, que há uma conspiração da direita contra a Presidenta.”

E vai lá replicando o que colheu num destes canteiros de verba oficial no Facebook, no twitter, gritando em cervejadas de faculdade, etc.

“Ueshuashua (ou outra manifestação gráfico- fônica de debiloidice), engulam esta: O diretor do jornal ‘The GlobalPlayer Post’ declara que ‘O momento é de confiarmos no Brasil, há gente comprometida com o futuro lá’ . Aceitem, coxinhas, até os gringos já acordaram”.

“Fulano, você leu o último artigo do Beltrano (que sempre trabalhou para a ‘mídia golpista’, e que, demitido, virou esquerdista)? “

Este teatro vai ter que acabar um dia, e estou entre os que apostam a data – o dia exato em que não mais houver recurso para manter sites e blogueiros, e comentadores, e compra de votos de miseráveis (promovidos nominalmente à classe média).

Não imagino ainda, com nitidez, os diálogos e textos dos que terão que se explicar pelo papel que desempenham, frente aos que acreditaram, por terem sido apresentados à leitura, muitos, nos dias da internet, somente.

Aos que aderem por oportunismo, ou por estupidez própria dos que nunca tiveram que examinar seriamente qualquer coisa na vida, não precisam se explicar; estes serão colegas no vexame. Mas como são desprovidos de senso de grotesco, não tardarão a se ajeitar na vida.

O difícil será o retorno de jornalistas ao meio profissional após anos na estufa do governismo. Além dos ataques que fizeram (ou covardemente delegaram aos comentadores) aos colegas, como explicar o texto abaixo do ordinário que produziram? Como não reconhecer diante de seus pares que se deixaram comprometer e contaminar além do imaginável? Ou lidar com a realidade financeira de um mercado que ajudaram a prejudicar, com reproduções sem permissão de material? Como, enfim, andar com a cabeça erguida, sem usar óculos escuros ou mesmo algum disfarce?

Carlos Lacerda disse que “no Brasil, ninguém se desmoraliza”. Sim, quantos políticos que julgávamos mortos e cremados retornaram e retornarão ainda?

Mas em questões de casta intelectual, penso que alguma desmoralização há, ainda que em termos brasileiros, o que significa que, um dia, todos se ajeitarão, ainda que sem a arrogância de dias no Poder. Mas a reputação entre os pares e entre público mais exigente, permanece.

O ator que se sujeitou à admoestação do fracote não tinha qualquer nome a preservar, ao contrário. Interessava-lhe o dinheiro e o deboche. Muitos dos “jornalistas progressistas “ não lhe diferem muito.

Vocês se perguntarão: “E quem faz o papel da claque que ri do teatro?”

Ergam a cabeça até o palco do Poder, e descobrirão de onde vem a gargalhada infame.

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