“Notas” – 21/02/2015

Retratos cobertos de teias

 

E os intelectuais lançaram seu manifesto contra o que qualificam “campanha para esvaziar a Petrobrás”. Não vou discutir os termos do manifesto, afinal lançado há dois dias;  fácil encontrá-lo. Estão no direito de militantes do PT de elaborar peças ridículas, com aproximações descabidas entre momentos históricos (as aproximações tentando sensibilizar público que, em sua maioria, nem era nascido quando da derrubada de personagens históricos aos quais petistas simulam identificação) e oratória de baile de fim de ano de ginasial.
Isto, repito, está no direito destes senhores. Seria estranho não o fizessem. O que causa impressão é a percepção que estes vultos (membros da casta acadêmica em sua quase totalidade) demonstram do momento histórico no qual lançam mais este manifesto: 2015 é parte de uma porção de História à qual estes senhores são avistados como múmias,ou em hipótese mais compassiva, nobres com peruca empoada.

Há algum tempo eles são compreendidos como relíquias, falando nisto. ”O Imbecil Coletivo” do Olavo de Carvalho reúne textos que, em seu lançamento como artigos de jornal, ou compilados em livro, demonstraram a consistência rala de muitos destes figurões, até então reverenciados por conhecimentos que, a rigor não possuíam, alheios às suas formações acadêmicas. Um era físico nuclear e opinava judiciosamente sobre sociologia, outra economista pontificava sobre liberdades civis, um matemático sobre teologia, e assim por diante. Com os resultados previsíveis. O trabalho de desmistificação que Olavo de Carvalho empreendeu teve sucesso medido pela fúria que desencadeou nestes meios.

Tentam desde então ridicularizar o jornalista e filósofo, pois sentiram o golpe. Quem leva à sério hoje muitos destes signatários de manifestos pró-PT? Quem leva em consideração suas opiniões, acreditando ser elas fruto de análise, senão isenta, razoável?

Podem assinar manifestos, formar blocos caricatos, ou fundar um circo – ninguém fora da Academia (e que não busque fazer parte desta casta) volta a eles atenção. Falam para si, para círculos de adoradores de medalhões, ou aos aspirantes. Quem fora da mídia governista toma conhecimento da existência física de muitas destas figuras?

A defesa que fazem de um partido político e de algum movimento social ainda que o partido e o movimento social tenham com a ideologia que dizem representar ligação meramente nominal, ou ligação com o pior aspecto destas ideologias, faz com que os pronunciamentos de defesa de partidos e movimentos sociais, se provenientes desta fonte, caiam no vazio, no fosso destinado às meras emissões fônicas sem significado definido. Têm o mesmo peso semântico de um comercial de goma de mascar.

Não aceitam, por não possuírem lucidez a mais mínima, a irrelevância à qual gozam por direito. Um crepúsculo lamentável, embora merecido, que espera os integrantes das manadas.

São apenas retratos no Salão Nobre das respectivas instituições nas quais se abrigam.
Retratos cobertos de pó e teias de aranha.

Ruy Castro, leia Eduardo Almeida Reis, eu garanto 

Ruy Castro é autor que acompanho desde as entrevistas da “Playboy“ (quem não leu entrevistas dele não consegue ver sentido nas anedotas tratando de apreciadores da revista que se justificavam “Gosto da ‘Playboy’ pelas entrevistas”) e que venho lido desde então nos artigos e livros. Desde “Chega de Saudade”( livro já clássico sobre a Bossa Nova) ao “Estrela Solitária”   (biografia do Garrincha), passando por “O Anjo Pornográfico” (sobre Nelson Rodrigues),”Saudades do Séc . XX” e “Ela é carioca”,  painel (através de personagens míticos) do bairro de Ipanema. Não li “A Onda Que Se Ergueu No Mar”(novamente sobre a Bossa Nova) nem seus livros de ficção, nem a recente biografia de Carmem Miranda, “Carmem”.

Sou, portanto, um RuyCastrista relapso, admito. E admito com peso na consciência, pois a leitura de tudo que escreve (ah, tenho artigos de sua colaboração com a revista “Status” dos anos’70) me anima a tomar da caneta nos momentos de seca mais assustadora e desoladora. Estou em débito permanente com o homem, pois.

O meio de atenuar o débito é assistir vídeos de entrevistas no “Youtube”. Entrevistas dele assisto desde que ele foi ao programa do Jô Soares, ainda no SBT para lançar “O Livro dos Insultos” de H.L.Mencken , com sua tradução e prefácio (apêndice do Paulo Francis).
Mas deve haver pouca entrevista dele que não assisti , sempre procuro, revejo sempre.
Numa destas, Ruy Castro conta de livro que comprou pelo título: ”Zebu Para Principiantes”- comentando que deixa o livro visível na estante para ser apreciado por quem entra em seu escritório, mas que ainda não o havia lido, mas apostava ser bom, pois livro com tal título só poderia ser bom, ainda que não se lembrasse do nome do autor da obra.
Se ainda não leu, Ruy Castro, leia. O autor, Eduardo Almeida Reis, membro da Academia Mineira de Letras, coleciona elogios de figuras como João Ubaldo Ribeiro que o qualificou como “Montaigne porra-louca”, e David Nasser, que definiu-o como “Gênio rural”. Carioca, de família mineira, radicado em Minas Gerais há alguns anos, escreve para revistas que tratam de assuntos agropecuários há décadas. Mas não só. Escreve até sobre dietas (livro satírico,”A Dieta Inteligente”) e coisas da política e da difícil convivência com a estupidez humana. Cronista afiado, delicioso, um autor ( dos últimos?) com estilo. Um crime não ser mais conhecido.

Títulos para fisgar leitores, sabe bolar como poucos. Além do que fisgou Ruy Castro, há “O Pinto e a Sra.Sua Mãe”, ”A Arte de Amolar o Boi”e “Burrice Emocional”( coletânea de suas crônicas sobre assuntos diversos). Escreve para jornais de Minas Gerais, antes no “Hoje em Dia”, depois para “O Estado de Minas” (onde parece ainda permanecer).

Insisto aos amigos e leitores do blog com os quais tenho contato (de outros estados) para que o leiam, que corram sebos na captura de seus livros.

Reconheço mesmo ter demorado muito a escrever sobre ele, admirador incondicional que sou. Escreverei mais, e reforço minha retratação com o aviso:

“Ruy Castro, abra este livro agora, e corra o Rio de Janeiro atrás dos outros, e exija de seus amigos mineiros recortes de crônicas. Duvido que não fique amarrado, e vire você também um divulgador deste mestre.Você, como poucos, merece ler Eduardo Almeida Reis. Presenteie-se com esta iniciativa.”

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2 respostas para “Notas” – 21/02/2015

  1. Valentina de Botas disse:

    Olá, Fernando!
    Oportuníssima a abordagem que você dá a esta palhaçada dos intelectuais militantes, uma contradição plena, não é mesmo? Não há como discordar do que você diz, afinal, estas figuras esvaziam o sentido de intelectualidade quando passaram a pensar do lado de dentro de uma cela ideológica que só abre por fora. Eu queria apenas, Fernando, lembrar outro aspecto deste protesto ridículo: o cinismo. Ora, quem pede proteção à Petrobras é exatamente quem a destruiu. O cinismo, o pão da alma lulopetista, já virou um aleijão na alma dessa gente. Quem protegerá a Petrobras da proteção desta súcia? Um abraço

    • fernandopawlow disse:

      Valentina,muito obrigado.
      Como você escreveu recentemente, este pessoal (a tribo petista) mente ao acordar e ao dormir e durante o intervalo entre um momento destes e outro.
      Estes intelectuais são um desserviço aos estudos no Brasil.Responda ao Pawwlow aqui:

      Quem, vendo estes senhores cínicos (sim,temos que acreditá-los cínicos,pois o contrário sugere que sejam mesmo débeis mentais), decrépitos e escravos de uma sigla vazia de tudo que não exale forte catinga de mentira e apropriação da máquina,sendo identificados como “Intelectuais”desejará ser chamado de intelectual, me diz, Valentina?
      São a encarnação mesma do que Marx escreveu sobre a História se repetir como farsa. No passado, muitos intelectuais (mesmo alguns destes senhores do manifesto insultuoso à inteligência de agora) assinaram manifestos contra uma Ditadura. Eram intelectuais respeitados e com interesse público, e por consequencia, o que assinavam chamava a atenção.Hoje…
      Não dá nem para rir das caras de bonecos foragidos de algum trem fantasma…
      Muito obrigado por prestigiar este espaço,você que tem escrito excelentes textos aproveitados pelo Augusto Nunes.
      Abraços do Pawwlow

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