“Notas”- 14/03/2015

Sobre Marchas

Postei aqui no blog no dia 19/02/2015 a história que meu pai me contava sobre o sujeito que pagou para humilhar o valentão – sem saber que o prestador de serviços avisaria antes o público – o único iludido sendo o contratante, pois.
Não duvido da sugestão como terapia – quando se sente a corda abraçar o pescoço, a expectativa de clemência no último segundo facilita reflexões ao enforcado.
Quando um governo, em seu terceiro mês após reeleição goza de índices devastadores de reprovação popular, alguma torcida tem seu poder de auxílio emocional, não importa se financiada, não importa se manifestadamente óbvia. Importa que alguém se dispôs a enfrentar as ruas, ainda que relutante em apoiar o governo, e sim emitindo gritos de ordem com propostas e apoios genéricos.Tentei avistar algum volume de gente sem uniforme,e vi um ou outro, dispersos no mar de militantes de agremiações.
Paulo Francis escreveu no seu “Trinta anos esta noite” que o “Comício da Central“ concentrou gente de sindicatos, emendando com o dito em inglês, ”Rent -a -crowd”, e foi o que se viu nestas manifestações dia 13, Brasil afora -multidão uniformizada e paga (ainda que os respectivos sindicatos declarassem o custeio de transporte alimentação apenas – mesmo assim, penso que cabe investigação sobre os custos das manifestações).

Não se trata de minimizar o montante das manifestações, e negar o apoio que o Governo tem de setores, mas de relativizar o peso da ameaça dos “exércitos populares” mencionados à guisa de ameaça pelo ex- Presidente Lula. Se for este o poderio bélico que este governo possui, a Oposição precisará esbanjar incompetência para firmar o domínio das ruas neste dia 15 e em outras ocasiões. Ou então tropas de assalto estão apenas esperando a hora de avançar.
Não acho sensato que oposicionistas marchem sem a total colaboração (sem compromisso público, digo) das forças de segurança dos respectivos estados onde houver marchas. Que monitorem todos os pontos, atentos aos possíveis infiltrados e/ou delinqüentes que darão motivos para o esvaziamento das manifestações. Que acompanhem as possíveis detenções, exigindo o direito de poder acompanhar investigações de suspeitos, sobretudo a investigação de possíveis mandantes e financiadores.
Parece sugestão óbvia e risível, mas nunca é excessivo lembrar o começo do fim das Jornadas de Junho; o desleixo que, companheiro da explosão inicial, propiciou seu enterro. Haverá sempre quem aproveite de uma ocasião destas para delinqüir, para saquear, e não há mais a desculpa da inexperiência, ninguém pode mais alegar inocência.
O jogo político exigirá cada vez mais malícia e, por isto seria útil que grupos de discussão se formassem como estágio anterior a qualquer grande marcha. A internet embora eficaz como aglutinadora,tem se revelado pouco eficiente como formadora de grupos organizados,as dissensões internas fazendo sorrir os governistas que não dispõem de massa,mas de treino e logística.Por que não colher do oponente seus conhecimentos?
Não irei à Marcha de Belo Horizonte, por: não gostar de marchas (por temperamento), por morar em bairro que não dispõe de ônibus aos domingos e feriados e, principalmente, por não concordar com a bandeira do impeachment da Presidente Dilma Roussef – repito o que venho escrevendo: que ela fique até o último segundo do mandato,tendo que se haver com problemas que criou, desfrutando dos índices de reprovação e sendo recepcionada com vaias por onde se apresentar- uma bandeira que serve somente aos beneficiários do esquema dominante de Poder.Reparem nos porta-vozes do governismo:eles julgam cruel o Sen.Aloysio Nunes, que propõe o cumprimento do mandato da Presidente,os defensores do impeachment provocam risos e citações de juristas reprovando o impeachment,somente.
Que utilizem manifestações como demonstrações de descontentamento e de adesão popular às Oposições. Aproveitem as marchas para promover carnavais de deboche e desprezo pelos próximos quatro anos – para que não seja este um momento desperdiçado na História.
Alegria e paciência, em suma. Malícia e conhecimento como combustível desta ação lenta e duradoura-que cada qual busque seus iguais ou combata solitariamente, como este blogueiro.
Caso o número for inferior às expectativas dos otimistas, que não desanimem. Haverá descontentes domésticos (como eu, repito) bolando suas formas de rebelião, e não dispomos dos fundos sindicais (ou outros) para financiar deslocamentos vistosos. Saibamos operar no nível do realismo político que ensina temer multidões crescentes, multidões que formam-se com o tempo,maduras e nada dispostas ao recuo.Os governistas não hesitarão em minimizar os números do dia 15 na proporção do inchaço estatístico das manifestações do dia 13, de qualquer forma. Portanto, que os que resolvam marchar, que o façam desligados das manchetes de jornais. Os resultados podem mesmo demorar a surgir.
A guerra das ruas foi convocada por eles, convém lembrar. Logo, eles que provem superioridade, não oposicionistas que apenas usam das prerrogativas da cidadania de protestar pacificamente, e demonstrar reprovação. O exercício da livre expressão não precisa ser justificado numericamente, a defesa do Governo por seus militantes e de movimentos associados – travestida de defesa de avanços sociais- sim.
Olavo de Carvalho no último diálogo com Lobão (realizado no dia 12) frisou o peso histórico de um movimento que vem crescendo sem o apoio de entidades e instituições; a democracia sem tutela e padrinhos,em algo poucas vezes visto no Brasil. Olavo disse acreditar que violência se houvesse,seria na manifestação dos governistas, e não na dos oposicionistas, Domingo,15.Como não houve na dos governistas,a previsão fica em aberto, e reforço meu juízo sobre os cuidados a se tomar,as garantias que devem ser exigidas dos comandantes das polícias militares dos estados onde houver manifestações.
Respirarei mais aliviado somente na Segunda-Feira, com os balanços das manifestações já feitos e com esta primeira etapa já sendo página da História.
Este será um dia épico, para o sim e para o não, mesmo que a manifestação seja em si sem episódios de confronto. A modorra numa manifestação de oposicionistas neste contexto de radicalização é digna de menção e de análise.
Estarei lá em pensamento .

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