“Notas”- 19/03/2015

“Jornadas de Março”

Tantos se referem às passeatas de Junho de 2013 como “Jornadas de Junho” -inclusive este blogueiro, e julgo que o que houve Domingo, dia 15, nas diversas cidades merece ser chamado de “Jornadas de Março”; além das passeatas, panelaços como acompanhantes dos pronunciamento das Sra.Dilma Roussef e intensa movimentação nas redes sociais.
Olavo de Carvalho, inspirador de muitos dos manifestantes – quantos cartazes constatando “Olavo tem razão” vemos nas fotos das manifestações em diversas cidades-, garante que algo desta natureza é inédito na História do Brasil: manifestação convocada por ativistas virtuais sem ligações com ONGs poderosas ou entidades de classe, pisoteando(definitivamente?) o monopólio das ruas, gozado por décadas por organizações de Esquerda.
Famílias de verde e amarelo, não deixando espaço para uma formiga em avenidas como a Paulista, ou a Pça da Liberdade (e vias de acesso a ela), gritando sua condição de manifestantes voluntários, sem pagamento de sindicatos; o Hino Nacional cantado com maior paixão que na Copa do Mundo.Gente debutando nas ruas naquele Domingo.
Esperávamos por isto? Quantos desistiram por julgar que manifestações espontâneas eram (e em dado momento eram mesmo) figuras de ficção científica? Não havíamos sido conduzidos à euforia e dela arremessados à prostração em 2013? Não era compreensível o ânimo arisco das massas depois de decepções várias? Mas a História vive destas surpresas.
Como previsto (mesmo aqui no blog) as manifestações tiveram a desqualificação por parte de setores da mídia e de todo o governismo dando expediente na internet. Números encolheram as marchas, e negros e pobres foram negados pelos analistas da manifestação durante a semana, centenas de milhares (ainda que fosse! um número destes sem uniforme e pagamento deixa qualquer governo apreensivo) de loiros de olhos azuis apenas.
Como o fracote que contrata o gladiador do bar para poder humilhá-lo, o Governo sabe que atravessa deserto de descrédito, o oásis de uma superação de crise financeira ainda distante, opositores (tucanos ou não, direitistas ou ultra-esquerdistas) garantindo a estação de pragas. Não adianta rever números de manifestantes ou circunscrever ética e socialmente manifestantes que lotam as ruas (ainda que os centenas de milhares admitidos pelo Governo). O crepúsculo negado com o céu escuro.
Os dias de maioria silenciosa parecem não retornar para o PT. Resta a ”maioria intelectual” (artistas e intelectuais comprometidos, não apenas por dinheiro, ao esquema de Poder) e “exércitos de movimentos sociais” marchando sob remuneração, gritando slogans de olho no relógio e no guichê.
O que temíamos –confusão de agentes provocadores- não houve de modo conclusivo. A prisão de integrantes do movimento “Carecas do Subúrbio” foi rápida, isolados da multidão que enfurecida com o que julgava ameaça similar aos “Black Blocs” (que foram os coveiros das “Jornadas de Junho”) cercou o grupo, seguindo-o por vários quarteirões até o Corpo de Bombeiros. Os “Carecas do Subúrbio” em sua página na internet qualificaram a prisão como ”ordeira e eficiente” e justificaram artefatos como fogos de artifício e soco inglês – o primeiro como instrumento de comemoração e o segundo como auto-defesa. Acreditando-se ou não no comunicado do grupo, houve nesta manifestação uma detenção e uma satisfação do grupo detido. Notável diferença dos acontecimentos de 2013, portanto.
Parece provável que esta foi apenas a primeira de outras tantas manifestações e gestos de desagrado que este governo enfrentará pelo tempo que resta – seja até a renúncia, ou impeachment,ou mesmo ao entregar a faixa ao sucessor da Oposição.
Não fui à Marcha aqui de Belo Horizonte-como adiantei aqui que não iria. Mas fiquei tentado, a falta de ônibus no Domingo funcionando como argumento dissuasório definitivo. Não me imagino confraternizando com partidários do impeachment,ou com insatisfeitos com o Governo que não percebem a raiz tucana em alguns dos males do presente, com gente que não atina com a falha na democracia que dá poder político aos desinteressados na matéria,ou com imprensa que não forma cidadãos críticos,pois comandada por jornalistas que se caracterizam pelo simplismo e por desconhecimento de História.Como dialogar com quem perceberá neste questionamento a ação de um petista?
Perdi uma amizade de Facebook com pessoa que considerava inteligente, e que não percebera ironia que eu havia feito com os petistas. Fui sumariamente banido do círculo de amizades, e não adiantou tentar explicar, a expulsão estava consumada. Que dirá então com entusiasmados manifestantes de um Domingo? Seria linchado caso declarasse meu ceticismo quanto a um eventual impeachment da Presidente.
Mas não falarei mal dos que resolveram trocar a apatia patológica por interesse, ainda que afoito e nada articulado, por política. Acordaram e isto por si é promissor.
O esforço, que consumiu dos governistas esta semana (escrevo na Quinta-Feira), em ridicularizar as manifestações, em qualificar manifestantes todos como “coxinhas” (tenho dó do nível mental destes MAVs- deve ser duro ganhar a vida opinando sem dispor de vocabulário e repertório político), prova que o caminho é este: prosseguir na lida de incomodar estes triunfantes deste pedaço de História do Brasil.
Não parecem, os manifestantes, incomodados com as tentativas desajeitadas de humor contidas nos blogs do governismo.Não funcionam mais intimidações nem nas caixas de comentários,depois das manifestações,mais oposicionistas profanam o sítio sagrado dos MAVs- onde se escondia esta fúria antes das eleições?
Há uma saturação pesada no ar, um nojo da arrogância dos beneficiários do atual esquema de Poder que é concreto, tangível. Abusou-se tanto, na confiança da inércia das massas como associada perene, que não há possibilidade de conciliação. Os membros do PSDB que insistirem em alguma colaboração com o PT em nome da união nacional, para o bem da governabilidade, estarão assinando a certidão de divórcio do povo brasileiro.
Merecerão o desprezo dos petistas pela covardia e do povo brasileiro, pela traição. Será a consagração de uma trajetória de frouxidão que assegura justa a série de derrotas eleitorais.
Espalharão o fedor do medo, que pode ser anulado somente pelo cheiro do povo nas ruas.

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