“Notas”-21/03/2015

O começo do Fim

Historiadores poderão me corrigir, mas penso que o episódio do ainda Min.Cid Gomes portando-se de maneira desafiadora no Congresso, tendo que sofrer enérgica intervenção do Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (que exigiu que o microfone de ainda Ministro fosse desligado), para que não sufocasse com berros a palavra de um deputado, é algo inédito na História do Brasil. E revelador do que acontecerá se este Governo não for tolhido em sua campanha de desmoralização do Legislativo.

Não adianta aceitar a demissão do Ministro e ligar pedindo desculpas. O que houve esta semana no Congresso eliminou quaisquer dúvidas sobre o caminho a seguir: enfrentamento ao Governo, ou a rendição incondicional ao Poder Executivo. Não há terceiro caminho. Não há como interpretar o gesto de Cid Gomes como fruto exclusivo do seu temperamento, dissociando-o da disposição deste Governo em relação ao Congresso com o qual as relações prometem afastamentos ainda mais intransponíveis.

A pregação anti- Imprensa capitaneada por blogs contemplados com verbas publicitárias do Governo no primeiro mandato de Dilma Rousseff terá como companheira neste segundo mandato a campanha anti- Congresso, e se nada for feito, a Democracia será apenas ornamental. É necessário fixar limites nítidos de atuação entre os Poderes, caso se espere que estes continuem sendo Poderes, e não apêndices de um Poder.

Óbvio, não? Pois não custa lembrar do Presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, sendo insultado em blogs do governismo (retratado como macaco, com a cumplicidade do Movimento Negro) e mesmo por um blogueiro em um bar. A complacência tem levado aos avanços de quem não pretende se curvar aos limites institucionais, de quem ri destes limites, considerando-os como entulho que se finge respeitar. Não se resistiu como se deveria resistir, e eles não se fizeram de rogados.

O tom de desafio não apenas ao Congresso, mas principalmente ao principal aliado, ao partido do Vice-Presidente, em momento onde se fala em impeachment sem inibições, é ainda mais emblemático do ânimo governamental. O inimigo é o PMDB. Este o alvo de petistas e de membros de linhas auxiliares. Escrevi aqui no blog há alguns anos o papel destinado ao PMDB nesta aliança com o PT. O partido histórico escalado como o “Culpado preferencial”- toparam este arranjo, e a conta está sendo apresentada.

Em momento, repito, em que a saída de cena destes atores está sendo exigida nas ruas,nos dias de uma CPI, da Petrobras, que transformará definitivamente a identificação ética do PT.

E estamos apenas em março do primeiro ano deste mandato, com muita chuva por baixar.

O que os petistas esperam – e duvido que não serão, como sempre, atendidos neste desejo – é que os ingênuos profissionais e sindicalizados aceitem a tese de que o PMDB é ainda pior que o PT; o discurso repetido tantas vezes pelo irmão do já ex-Ministro, Ciro Gomes. Não faltarão os trouxas que se envergonharão com a citação de nomes célebres por escândalos nas fileiras peemedebistas, e que abaixarão a cabeça, abjetamente. O PSDB não fugirá à sua parte neste arranjo, podem apostar. Com a colaboração prestimosa de seus porta-vozes na Imprensa, notadamente os que tentam aconselhar Dilma Rousseff a se desvencilhar dos maus conselheiros do PT. Os petistas contam com estes colaboradores, e vem desta certeza muito do combustível para as explosões que serão, doravante, a rotina.

“Mas o PMDB não é aliado do Governo? Como você vota no partido que é coadjuvante na chapa petista? Em um partido que é Governo ele também?”

A aliança PT- PMDB é episódica, e fadada, desde o início, a ser desfeita assim que o Governo fraquejasse, o chão se apresentasse movediço sob os pés experientes das raposas peemedebistas. Portanto, apostar no partido com poder de barganha me pareceu desde sempre vital para o balanço do Poder. O simplismo em Política me parece criminoso, pois joga-se muitas vezes o destino da Liberdade, em uma escolha ditada pelo moralismo de sacristia, pelos slogans de porta de bar sobre o “oportunismo que deve desaparecer para que o mundo limpo floresça”. Enquanto tramam sistemas de dominação mais destrutivos que certas modalidades de corrupção e populismo.

Pensem em quanta tentativa de avanço em liberdades o PT teve de recuar muito graças ao partido sócio na coligação, e vejam se estou errado. Que o PMDB continue se sujeitando a ser insultado pelos petistas supostamente aliados se continua obstando iniciativas nocivas à manutenção da pluralidade democrática. Não se escolhe, em momentos dramáticos – e este é um momento dramático de nossa História- um partido para votar com olhos voltados às virtudes ideais, e sim nas potencialidades concretas deste partido no jogo político.

No que ele pode garantir de Liberdade e avanços sociais que tornem inócuas pregações demagógicas que conduzem desesperados aos cordões das tiranias.

E deve-se, nesta escolha realista, armar as mentes para os ardis de militantes treinados na prática da desqualificação de partidos que enfraqueçam a agremiação para a qual trabalham.

Contra a acusação de incoerência, a resposta deve ser conclusiva:

“Incoerentes são os que somente agora descobriram falhas de ordem moral no aliado da véspera”. Citando os nomes aliados do PT no PMDB que foram, no partido, sempre os nomes mais controversos. E lembrar dos nomes menos citado sem escândalos, que sempre defenderam apoio meramente pontual ao PT.

Isto exige, mais que realismo político, alguma leitura, algum interesse por Política e História recente do País. Embora muitos estejam desacostumados, é hora de começar.

Pois eles já estão se preparando para desqualificar a ideia de impeachment batendo nestas teclas, e por terem percebido qual o inimigo a ser combatido.

Ainda que afetem recompor esta aliança, os acontecimentos da semana foram apenas o começo do Fim.
E eles o sabem.

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