“Notas” – 26/03/2015

Uma capa de “Veja” se confirmando, mais de vinte anos depois

A História tem destes movimentos: na mais atordoante turbulência, verifica-se a reprise, o problema tantas vezes suportado (com leveza?) aparece como inédito aos observadores iniciantes, ou sem memória, o que no Brasil vem a dar no mesmo; o PMDB dono do Governo como não se via desde a crise do Governo de Fernando Collor.

Uma capa de “Veja”, de 1992, na fervura daqueles dias, trazia, ao lado da foto do presidente Collor com pernas em tudo semelhantes à clássica foto de Jânio Quadros, o seguinte teste de múltipla escolha:

( )Impeachment

( )Renúncia

( )Parlamentarismo já

( )Collor continua,forte

( X )Collor continua, fraco

Mario Sergio Conti narra, em “Notícias do Planalto”que um colaborador, Paulo Moreira Leite, fora contrário à aposta na última alternativa, pois naquela altura era impossível prever o desfecho daquele governo. Conti decerto fora informado das manobras, hoje conhecidas, conduzidas por Ulysses Guimarães no sentido de tutelar o Presidente, mantendo-o no cargo, desde que ele “apresentasse o boletim”. A tese vitoriosa no PMDB acabou sendo a de Orestes Quércia, segundo a qual, uma vez livre daquele pesadelo, o Presidente não se veria obrigado a cumprir qualquer acordo, logo o PMDB deveria aumentar as pressões.

Hoje aquele X na alternativa “continua, fraco”, seria acertado. Eduardo Cunha não dá mostras de pressa em retirar do cargo a presidente Dilma Rousseff, bastando ao PMDB cozinhar este governo até 2018, derrotando-o nas votações, adaptando ao feitio peemedebista qualquer projeto enviado à Câmara dos Deputados. O que equivale a derrotar o Governo. Por que Eduardo Cunha e Renan Calheiros, no Senado, deveriam se empenhar na derrubada de um Governo que se afigura um Governo fantoche do partido de ambos? Muito mais confortável e interessante aos planos de uma candidatura própria do PMDB este arranjo, no qual a Presidente tem os poderes de uma Chefe de Estado, a Chefia de Governo cabendo ao PMDB.

Até 2018, o PT será desmoralizado de maneira suave, com o PSDB devidamente reconduzido à irrelevância, colhendo o que plantou com sua incompetência, sua tibieza. O PMDB tem sido hábil na defesa do enxugamento do Estado como alternativa à sangria da população, defendida como único remédio por um Governo que inconsciente do inchaço, inventa, a cada dia, maneiras de se tornar ainda mais obeso de ministérios inúteis.

Os afoitos que desejam saída imediata do PT (que não entendem que a saída imediata pode também trazer a volta imediata) não percebem que o esvaziamento da autoridade do partido, sobretudo junto às massas, é antídoto mais eficaz que cassações. Como o PMDB tem seus núcleos de ação (PMDB Afro, PMDB Mulher, PMDB Sindical, etc) a tarefa de elaborar políticas públicas de apelo popular torna-o um potencial coveiro do PT. Não o foi, até agora, por desinteresse. O PT o sabe, e deve, em segredo, preferir o impeachment que o revitalizaria.

As sucessivas camadas de escândalos revelados pela CPI da Petrobras atingem muito mais o PT que seu partido – sócio. É ao PMDB muito mais fácil debitar a alguns membros as imundícies, pois os escândalos do PT demonstram o partido com projeto de Poder em tudo dependente de somas fabulosas de recursos. O Mensalão, por exemplo, teve o PMDB praticamente ileso. As tentativas que certamente virão, por parte de blogs patrocinados pelo Governo, de desmoralizar o PMDB, ajudarão ainda mais a aumentar o volume das chamas sob o grande caldeirão localizado sob a cadeira presidencial, os afagos em reuniões de emergência soando ainda mais postiços e incentivadores, pelo grotesco, de represálias no Congresso. Um pesadelo que o PSDB não tem a mínima capacidade de provocar, diga-se.

O PPS antecipou-se ao PSDB na apresentação de recurso no STF exigindo a inclusão da Presidente Dilma Rousseff entre os investigados pela Operação Lava-Jato. O PSDB  por se recuperar ainda da derrota do ano passado, apostando, uma vez mais, em uma saída mágica que substitua a luta política em tempo integral. Gestos como o do PPS têm valor simbólico: o de se posicionar como oponente capaz de lutar sem qualquer possibilidade de vitória à vista, somente para que não subsista qualquer ânimo de rendição. Enquanto o PSDB traz Marconi Perillo em Goiás, e Geraldo Alckmin em São Paulo, em espetáculos de confraternização de palanque com Dilma Rousseff, ambos sinalizando ao partido que trabalharão por seus estados, sobrevoando questões partidárias. O partido que abriga os dois governadores sendo atacado sem pausa, as redes sociais e blogs governistas operando sua guerra até o extermínio completo dos tucanos. Os dois governadores parecem esquecidos de Leonel Brizola realizando um governo no Rio de Janeiro com verbas do presidente Collor (o qual atacara duramente na campanha de 1989), enquanto sua aura oposicionista era esvaziada e sua força simbólica drenada no adesismo.

Que os dois líderes ajam assim, escolha deles – afinal, quem estuda História, sobretudo recente, no País? Que passem à História como apenas bons administradores; o PSDB não reagindo com energia, assina sua extinção com força política, torna-se um partido envilecido, e o envilecido é, segundo Ortega Y Gasset, o suicida sobrevivente.

Cabe, portanto, ao PMDB, o centro do palco. Ele pode prolongar seu momento na ribalta, evitando incinerar a Presidente, ou abreviar, aderindo, ou se juntando aos que se batem pelo impeachment da Presidente, ou mesmo renúncia, que não será o ato final do PT, ao contrário. Cozinhá-la enquanto se implementa – com reparos aos projetos enviados ao Congresso e patrocinando iniciativas do próprio partido- agenda popular e democrática que deixará o PT sem campo de manobras.

O Governo do PT se vendo obrigado a mostrar o boletim e ouvindo:

“Não, aluna Dilma, esta escolha para o ministério foi infeliz”.

“Aluna Dilma, mais um projeto tentando diminuir o Congresso e votaremos seu impeachment, viu? Vai lá no quadro e repita cem vezes…”

Que esta realidade confirme a capa de “Veja”, quase vinte e três anos depois. O Brasil merece isto, após humilhações sucessivas.

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