“Notas” – 02/04/2015

A descoberta, após um longo anúncio

Reinaldo Azevedo mencionou em seu blog, na última segunda-feira, anúncio de Lula sobre criação de uma coalizão para 2018. Lembrou ter escrito sobre isto em Fevereiro.

Eu já havia escrito, em pelo menos um texto (tratando de Gilberto Carvalho, por sinal), já no ano passado, as movimentações para a utilização de novos mecanismos para a manutenção do Poder (pois o fim da hegemonia petista já se anunciava) tais como “coletivos”, “conselhos”, e congêneres. Não colhi esta conclusão em anúncios de lideranças, ou consultando bola de cristal. As dicas foram dadas pelos atores, entretanto.

Rui Falcão, quando no “Roda Viva” mencionou “colaboradores”atuando como blogueiros, ou militando em coletivos, citando nominalmente Pablo Capilé – este quando no mesmo “Roda Viva” tratou da “crise de representatividade” do PT. Articulistas e leitores – comentaristas não parecem ter ligado aí as duas pontas, não em escritos. O tempo gasto em qualificar moralmente entrevistados e o apresentador Mario Sergio Conti não poderia, claro, ser utilizado para analisar o que anunciava-se ali: a criação de um novo modelo que sucederia fatalmente o ciclo petista.

Alguém acredita honestamente em volta do PSDB ao Poder – que entregou ao PT em bandeja de prata reiteradamente? Quem julga possível um retorno aos dias de antes de 2002 com máquina completamente aparelhada e com a massa ainda intoxicada por pregação esquerdista latino-americana (apesar de já recusar a embalagem PT a este produto)?

A opção mais realista – um governo peemedebista que mantenha avanços e restaure a democracia – ainda é recusada por muitos destes mimados políticos, que desejam ver-se livres do pesadelo sem pagar qualquer preço. Sem um partido grande, de penetração nacional, não haverá meio de deter o estágio seguinte: a ocupação de instâncias do Poder por “conselheiros populares”, membros de “coletivos”, ativistas de “movimentos sociais”, enfim o elenco já trabalhado – e afiado, com o texto assimilado e incorporado (mais que decorado)- nestes anos de PT no exercício da Presidência. Esperam apenas a retirada do elenco atual, o toque da campainha- que poderá vir por impeachment, renúncia, ou como sucessores dos ocupantes de um possível mandato-tampão, como participantes de campanha eleitoral com esta nova pele, em 2018. Jogam com várias cartas à disposição, em suma.

Reinaldo Azevedo tem o mérito de ter percebido o perigo representado pela imprensa governista, enquanto seus colegas optavam por subestimar um inimigo que ganhava tamanho e musculatura, no mecanismo da negação como exorcismo de temores. Hoje a obra realizada na conquista de mentes virgens de leituras por portais de populismo e exaltação de recalques não pode ser negada, sem autocrítica visível por parte de quem adotou mentalidade de livro de autoajuda como ferramenta de análise política.
O PT vive seu crepúsculo e o sabe, os estrebuchos sendo teatro que convence apenas os desatentos, pois todo o corpo sacerdotal da instituição prepara sem atropelos a mudança para o complexo “PSOL- coletivos- conselhos (ainda que informais).” Qualquer petista acima da militância mais despersonalizada reconhece que o PT não terá candidatos para 2018 – a começar pela estrela maior da agremiação, Lula, que não se arriscará (mesmo que com condições físicas) a uma candidatura incerta (a primeira em muitos anos). Ele não precisa disto, e não manchará a biografia de presidente por duas vezes em uma possível derrota.

Os avisos foram dados por gente que sabe contar com observadores precários, apesar de pomposos. Não se deram ao trabalho de disfarçar o que não precisa de disfarce – e que será fatalmente o desdobramento do que vem construído, enquanto foguetes se encomendam para um possível impeachment.

Falar em impeachment, quem entre os defensores deste desfecho contabilizou os votos? Ou apostam que a piora da economia providenciará automaticamente este montante?

Resumindo, nada aprendem. Todas as evidências oferecidas pelo petismo ganham a mesma atenção dada ao gato à moeda de ouro esfregada no focinho.

Um texto a se ler- sobre imaginário político como Política

Leio no blog do estudioso de História da Arte Roberto Ormond, artigo que recomendo a quem quer que se interesse por estética, política, imaginário popular, pela engenharia social realizada sob a ditadura da correção política; por todo o arco interdisciplinar que é pertinente a todos nos dias de hoje. Prisioneiros todos nós, os ignorantes desta cadeia, mas prisioneiros.

http://robertoormond.blogspot.com.br/2015/03/arte-para-campanha-de-barack-obama.html

O autor toma como ponto de partida a campanha de Barack Obama, mais precisamente a representação gráfica nos cartazes pintados por artistas diversos.

Tudo o que se julgava relíquia dos dias das campanhas de culto de personalidade no Totalitarismo teve, neste “Festival Obama”, sua retomada. Os cartazes projetando o líder sobre-humano, construído pelos indivíduos que depositavam o último fio de suas esperanças particulares na corrente coletiva de fé no líder negro, porém “pós -racial”, no “homem que supera as diferenças étnicas e ideológicas da América”, na figura “maior que a vida”, celebrada em cartazes de parentesco estético dos cartazes de líderes do passado cultuados na religião do Estado. A nostalgia do Grande Pai numa sociedade supostamente avessa a esta simbologia, a estes recursos de comunicação política.

“A inteligência tirou férias; levou a consciência embora. O senso de ridículo arrefeceu, e do alto, pairando sobre nossas cabeças, surgiu ele, o Grande Iluminado”. Assim Roberto Ormond abre seu texto em que o fenômeno Obama é retratado tendo por base o vácuo emocional e simbólico em que milhões viviam nos Estados Unidos, que esperava somente o surgimento de quem vendesse simbologia de negação mágica da realidade para ser preenchido.

O revival da estética setentista (libertária, pois fruto de mentes dispostas a correr riscos na busca por novos territórios mentais) como aliado desta ideologia de bem-comportados homens da classe média observadores de leis de minorias, é tópico muito bem explorado neste texto. Os signos de contestação a qualquer autoridade, ainda que bem intencionada, agora servem à ideologia de castrados morais e intelectuais do mundo nascido do consórcio entre intelectualidade esquerdista da casta acadêmica e grandes conglomerados econômicos.

O sonho “Flower Power” prostituído numa fantasia de felicidade conformada, respeitadora de limites. O texto nota que tal renascimento artístico não se estendeu à música, por exemplo, restringindo-se à propaganda visual quase completamente – o que prova a instrumentalização da arte. Penso que textos futuros explicariam melhor esta conclusão, tratando da música produzida, principalmente por artistas simpáticos a este projeto, hoje em dia. O autor poderia correr ainda outros itens culturais neste raciocínio.

Um texto e autor que, descobrindo agora, recomendo a quem me visita neste espaço.

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2 respostas para “Notas” – 02/04/2015

  1. Oi Fernando, obrigado por indicar meu texto e por suas sugestões. Realmente, vivemos uma época de apatia generalizada. Nas artes, o que na década de 1960 era bom por ser pujante, criativo, inovador, hoje se reduziu a um estéril jogo de formalismos acadêmicos. Mas o que mais me chama a atenção é o fato de na terra da liberdade muitos terem passado a ver o Estado como propulsor da cultura, e não mais os indivíduos.

    Abraço

    • fernandopawlow disse:

      Roberto,não há que agradecer- um bom texto tem que circular,é o que penso.A superficialidade e o temor de juízos sociais trouxeram a Cultura a este estado comatoso,onde fórmulas antigas-tenho um texto sobre “Cinema de Tese”,onde lamento que o cinema,sobretudo o brasileiro, adote um modelo expositivo do séc XIX-são vendidas como novas,ainda que exalando naftalina.
      Os Estados Unidos se rendem,cada vez mais,ao que a cultura europeia tem de mais estático e normativo,e a consequência lógica disto,é a prostração diante do Deus Estado.
      Será o fim deste país que inspirou o Séc.XX.
      Saudações do Pawwlow

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