“Notas”- 11/04/2015

Barbara Heliodora – mais um avanço do Deserto

Quando Paulo Francis morreu, Mario Sergio Conti fez capa de “Veja” clássica e premonitória: “Ele vai fazer falta”. Quem o sucedeu, de 1997 para cá? A bolsa de apostas continua funcionando, ainda que talentos tenham explosão de público, mas nomes anteriores à sua partida: Diogo Mainardi e Olavo de Carvalho, por exemplo.

Escrevi no blog sobre a partida de Chico Anysio sobre a voragem do deserto cultural, pois nomes sem substitutos à altura nos são cobrados pela Morte, sem misericórdia pelo nosso quadro cultural, empobrecido por décadas de ensino de péssima qualidade, e culto às boas maneiras.

Ivan Lessa e Millôr Fernandes foram outras duas perdas recentes que assustam o observador da cultura brasileira – do que sobrou dela. Barbara Heliodora é mais um susto.

Sérgio Cabral quando entrevistado no “Roda Viva” previu, sem modéstia hipócrita, o vazio que a partida de intelectuais como ele deixará: ”Quando acabar Sérgio Cabral, acabou”.

Opinionistas que não ficam ridículos no ofício, pois profundos conhecedores de suas matérias – pesquisadores, com anos de estudo em fontes primárias ou em centros de referência no exterior – e expositores talentosos, que casam o rigor com a produção de textos que educam o leitor sem o martirizar. Leitores os tomam como guias, com total confiança.

“Que dirá Fulano deste produto?”

Barbara Heliodora em suas apreciações rigorosas da cena teatral foi uma educadora deste nível: leitura indispensável por interessados em teatro – a fúria que provocou em ocasiões diversas em atores e diretores é o retrato desta influência, desta relevância. O episódio da vaia dirigida a ela ou sua expulsão de uma fila de teatro por um diretor devem ser tomadas como o que são: homenagem ao seu peso. Medíocres não despertam reações do tipo – por inofensivos, são mesmo alvos de tapinhas no ombro e silêncio humilhante sobre seus nomes.

Lembro de “Roda Viva” dedicado a ela, com José Celso Martinez Corrêa na bancada com intervenções consideradas à ocasião desrespeitosas, o mediador Matinas Suzuki Jr repreendendo o diretor: “Zé, é uma honra ter você aqui, mas hoje o programa é dela”. Percebi o encenador do “Oficina” a homenageando, ao seu modo. Não consegue se homenagear no Brasil sem a adoção de rapapés e modulações de voz, parece. Um diretor lendário confrontando, com sua performance alegórica, uma lenda da crítica teatral; cobrando-lhe, por exemplo apreciações sobre o trabalho recente de Plínio Marcos. Ela parecia consciente da performance de Zé Celso e não se mostrou abalada, ao contrário, demonstrou a majestade usual, irônica e distante, no que me parece igualmente performance dela – diálogo de dois artistas. Aos olhos cegos pela contemplação exclusiva de convenções, um desrespeito a uma veneranda senhora.

Aquele programa foi uma delícia: suas recordações de jovem estudante nos Estados Unidos assistindo a montagens teatrais ainda nítidas em sua memória, as respostas sobre a veracidade histórica sobre Shakespeare, ou mesmo suas reflexões após assistir a espetáculos deploráveis, mal acabados: “Será que este diretor (ou autor) não tem um amigo (para o alertar)?”

Foi a primeira vez que a vi, por sinal. Antes, somente o nome e a fama de crítica impiedosa me eram conhecidos. Aquela entrevista me ganhou. Sempre que avistava texto com sua assinatura, me concentrava, e saía pago, ainda que Teatro (falo de espetáculos, não de textos) nunca tenha sido um de meus pontos de concentração.

Lembro também de resenha em “Veja” (acho que na fase Mario Sergio Conti) da montagem de “Rei Lear”com Paulo Autran no papel título. Texto implacável com a montagem que apostava numa estrela,  Autran, “quando “Lear exige uma constelação” (cito de memória, logo…). A frase a qual cito de maneira torta encerrava o artigo.

Quem escreve sobre teatro hoje em dia assim? Sobre qualquer espetáculo? Sobre um filme? Sobre um livro?

O temor aos medalhões inexiste em gente como Paulo Francis e Barbara Heliodora, e por isto a certeza de que sucessores tardarão a surgir, no círculo do compadrio e da prática intensiva da curvatura de espinha que responde por cena cultural brasileira.

O politicamente correto também dá sua contribuição ao deserto brasileiro- nos Estados Unidos, os choramingadores não têm o Poder que exibem aqui. Talentos perdem espaços ao mínimo franzir de olhos, os responsáveis por tomar decisões brilhando na covardia. Fosse uma estreante hoje, certamente algum editor tacanha repreenderia Barbara Heliodora, ou a demitiria, simplesmente. A condição de instituição cultural da qual gozava a poupou de dissabores no cenário atual, penso.

Como surgir então algum estudioso sério de teatro, cinema, literatura, que se disponha a se sujeitar a este sistema? Restam os carreiristas sem auto -rigor, e o Brasil vê assim uma troca de guarda de mão única – os gigantes partem, e suas posições são simplesmente abandonadas, ou amesquinhadas, o que dá exatamente no mesmo. Por isto, o desgosto que me amarga a alma quando vejo colegas talentosos jogarem a toalha, ainda que entenda o cansaço que é escrever em país de poucos leitores, sendo que metade destes dedica-se ao carreirismo mais descarado.

“Somos tão poucos, os gigantes partem quase diariamente, e ainda querem desertar?”

Atores e atrizes depõem comovidos sobre a colega que imaginavam ainda combater no front por muitos anos ainda. Não parecem imaginar a plateia sem a crítica amiga e criteriosa, a manhã seguinte sem o frio na barriga no procurar pelo parecer ácido sobre a noite anterior.
Terão que se acostumar, contudo.

A Morte prefere nos lembrar de modo rude que o que realmente fica neste mundo de corrupção física é o balanço de nossos feitos, nada mais. Mesmo os que nos iludem com sua força vital que nega ou ridiculariza os cabelos brancos são retirados no convívio dos admiradores e amigos, e a travessia prova-se amarga sem este truque de encantamento.

Que se leia o que Barbara Heliodora escreveu, que se nivele por esta altura, o Deserto só respeita este enfrentamento ao seu avanço.

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