“Notas”- 16/04/2015

Proposta do Pawwlow para a Educação

No ano de 2001, me prontifiquei a prestar serviço voluntário em uma biblioteca de escola estadual em que minha mãe lecionara. Auxiliaria alunos nas tarefas escolares nos domínios de História, Literatura, Redação. Umas tardes ociosas gastas ajudando o próximo.

Fui apresentado pela diretora a algumas turmas como um amigo disponível na biblioteca- recepção apática. “Isto vai se revelar má ideia”.

Vem o intervalo, parado à porta da biblioteca, sou empurrado por aluno obeso de seus dez, onze anos, que não se virou para se desculpar. Nitidamente um filho de pais ignorantes, brutos, que julgavam o filho sadio pelo porte de suíno, a dieta de angu e porco declarada em sua figura. Devolve o livro tomado por empréstimo praticamente arremessando-o na cara da bibliotecária, e parte com o mesmo passo.

Adolescentes cavalgam na biblioteca, crianças montam sobre as mesas, surdos às tentativas de repreensão da bibliotecária. Professores demonstram a mesma delicadeza dos alunos, jogando livros sobre as mesas como sacos de lixo sobre a lixeira da esquina.

“Sim, foi má ideia”.

Três semanas nesta rotina me fizeram ver que o dinheiro com a condução (dois ônibus para a ida, e outros dois para a volta) estava sendo jogado na latrina picado como confete. Nenhum aluno me procurou. Conversei com dois ou três que não me pediram qualquer ajuda.

Um único estudante aproveitou meus préstimos: um praça da Polícia Militar (aluno do Segundo Grau, encaminhado, não me lembro como, a mim) que precisava de ajuda em exercícios que tomaram toda a tarde e o início do turno da noite, com consultas aos tomos de Caldas Aulete disponíveis ali. O soldado tinha visível dificuldade cognitiva, e se agarrava ao seu auxiliar improvisado com sofreguidão; só parti com o início da aula noturna.

Exceto por este episódio, três semanas de leituras de verbetes de enciclopédias, de trechos do “Água Viva “ de Clarice Lispector. Deu para começar a ler “A Vagabunda”de Colette (me prometi ler o livro, o que não cumpri até agora- e sei o que perco). E verificar o quanto a adolescência atual é diferente da minha: mulheres mais violentas que os homens, e homens sem masculinidade, cultivando o hábito de risinhos e agressões verbais à distância segura.

O que aproveitei destas três semanas foi pequeno instantâneo que ainda hoje me emociona: aula de crianças na biblioteca onde algumas liam livros infantis com olhinhos brilhando (clichê medonho, mas a imagem era mesmo esta) e dentes à mostra. A escola tinha predominância de alunos pobres, na parte alta do Bairro Santa Efigênia, e estas crianças (meninas de chinelos e uniforme não muito limpo) me aliviaram do espetáculo de desprezo aos livros que assistira naquelas três semanas. Aqueles semblantes infantis ao contato com livros negavam determinismos sociais e históricos – havia ainda quem visse nos livros objetos preciosos.

Não há outro caminho a seguir aos pobres, penso. Algumas crianças que via lendo na biblioteca eram negras e pobres, e pela atenção que dedicavam aos livros, pareciam oriundas de lares meritocratas. Duvido que estejam recorrendo às cotas para ocupar lugares na Universidade e que estejam aceitando o ilusionismo da luta de raças promovido por este governo. Gente sem ilusões, em resumo. Gente que acredita em esforço e desconfia de governos bonzinhos (sobretudo com a burocracia que ajuda a gerar).

Não se discute o débito social (sobretudo com os negros), mas a modalidade de quitação deste débito me parece a pior possível: negar-lhes o conhecimento pelo desestímulo à leitura, adiando o problema para o mercado de trabalho – ascensão social estagnada, mas com diploma na parede. Como o dia da cobrança parece distante, que mal há em se insistir em algo que só se sustenta através de chantagens (“És contra cotas?És racista, pois.”)?

O que me parece realmente um instrumento de promoção social é o estímulo pecuniário à leitura, através de criação ou intensificação de bibliotecas em bairros, e a condição de relatórios de leituras (leituras variadas, de acordo com a escolha e nível pessoal de cada leitor) de cada membro da família para recebimento de ajuda financeira.

Isto não seria gasto, mas investimento.

E a adoção, ou intensificação, de cursinhos pré – vestibular em bairros pobres (com igual exigência governamental de assiduidade para que a família receba ajuda financeira), com monitores recebendo do Governo para preparar estudantes, reduzindo o abismo entre alunos de escolas públicas e privadas.

Este plano representaria o perigo de preparar levas de criadores de casos para Universidades dominadas por militantes sem leitura – e isto seria intolerável.

Ririam os doutores no assunto, e estigmatizariam quem o propusesse como racista, elitista; enfim os únicos argumentos da casta acadêmica no Brasil.

Escreverei mais sobre isto.

Não reli Gunter Grass

Terá sido John Updike, na resenha de “O Linguado”, qualificado Gunter Grass como autor interessante impossível de se reler?

Na minha fase de descoberta do cinema europeu, na adolescência, descobri o cinema alemão. E prestei atenção quando exibiu-se na “Band”, ”O Tambor”, de Volker Schlondorff.

Daí meu interesse pelo escritor de Danzig. Li, além d”O Tambor”, ”Anos de Cão”, ”A Ratazana” e “O Linguado”. E assino embaixo de Updike (se não estiver sendo tapeado pela memória):

O sujeito fez livros encantadores pelas alegorias políticas, mas nunca me animei a reler o que dele tenho em casa. Nem por ocasião de sua morte tão recente.

Acho muito aborrecido, pois dirigido à consciência europeia, da qual partilho cada vez menos.

Mas é mais um gigante do tempo dos escritores -celebridades que se vai- e isto dói muito.
A Terra ficará deserta destes gigantes, e a Longa Noite cairá definitivamente.

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