“Notas”-18/04/2015

O Sagrado Direito de Delirar

Recebo telefonema de amigo assustado com o “Caderno de Teses” do PT para seu V Congresso – eles realmente decidiram romper com as concessões ao Capital e à democracia escrava do mesmo Capital. “Eles vão radicalizar”.

Bom, trata-se de escrito dirigido ao público interno para evento no qual teses as mais fantasiosas possíveis são exteriorizadas -mesmo porque este é o laboratório de fantasias do Partido. Não é mais do que isto o conteúdo contido nestas páginas- ideias a ser discutidas.

Qualquer pessoa  preocupada com a liberdade de expressão e não completamente assimilada pela ideologia da Universidade viu como prenúncio do fim da liberdade no Brasil a condenação imposta em Primeira Instância ao Deputado Jair Bolsonaro por declaração – de fato primária- sobre homossexuais. Como observou Reinaldo Azevedo, tal condenação criminalizou a obtusidade. Dizer besteira pode render multas pesadas e prisão, e isto deveria amedrontar muito mais que fantasias totalitárias.

O Brasil é país onde ameaças reais são minimizadas e ameaças imaginárias ou possíveis somente em tese causam notável controvérsia.

Como o PT colocaria em prática estes delírios? Com qual exército ele dominaria os descontentes? O apoio de exércitos de regimes amigos na vizinhança seria, por si, garantia da concretização das fantasias? As economias do resto do Mundo nada fariam para esmagar economicamente esta utopia de pátio de hospício?

Olavo de Carvalho adverte sobre o perigo de não mais ser possível reagir a isto se as Forças Armadas não se manifestarem a respeito o quanto antes. Advertência replicada por seus seguidores na internet. O pânico eliminando qualquer capacidade de análise em um momento onde tudo o que não se pode perder é capacidade de análise.

Ora, o PT desejar impressionar por ameaças um país que assiste prisão de seu tesoureiro e o ocaso de sua liderança máxima, é nada mais que o esperado. Como a Morte levou muitos de seus intelectuais e os que restaram exibem decadência sem pudor, os argumentos que restaram são estes: ameaças à imprensa de Oposição, aos setores reacionários (ainda que espalhados entre a massa difusa – quem acredita que o PT de fato acredita na pregação dirigida ao público sobre “elite branca” acredita em “testes de fidelidade” da TV) e anúncios de alinhamento mais estreito aos regimes amigos (e irmãos de “Foro de São Paulo”).

“Quem sabe não cola? Esta classe média é otária mesmo”.

Qualquer das teses se concretizada apenas provaria  que a democracia brasileira está apodrecida e precisava de pequeno empurrão para ceder. Para realizar qualquer dos itens daquele ideário será preciso colocar à prova todas as instituições, todos os campos do Poder, e isto demanda um mínimo de tempo. Esta força o PT dispusesse, com a corda roçando seu pescoço, já a teria utilizado, não parece aos Srs.?

Tudo me soa como cartolas de clubes de futebol anunciando à torcida em fim de turno de campeonato mudanças que o elevarão da possibilidade de rebaixamento à liderança do campeonato, ”com garra”. A mesma “garra” que não se apresentou ao longo de tantos jogos.

Este não é o papel de toda liderança em tempos de autoajuda? Motivar, motivar, motivar.

Assim agem os petistas nos dias de descrédito junto às massas, dias de pesquisas que exibem Lula embaixo de Aécio Neves em hipóteses eleitorais. Não deve ser agradável assistir ao desmanchar do ídolo de barro sob o sol, ou ter como arma em discussão política de boteco frases que não convencem sequer uma criança: “O PSDB apenas não foi investigado”, “O PIG não está dando descanso, é isto”,  ”Este governo tirou milhões da miséria, e isto ‘coxinhas’ não aguentam”, “Se a ‘Presidenta’ for vítima de golpe, o povo sairá às ruas para defender o Governo que finalmente se importou com ele”; entre outras cantigas do mesmo repertório.

Como o PSDB também não tem simpatizantes melhor preparados, a discussão na internet é este torneio de projeções mentais enunciadas como anúncios de medidas a ser adotadas na semana seguinte: petistas adiantam como será seu Governo “para valer”, sem dizer como chegarão a ele sem ferir uns tantos interesses e campos de força; oposicionistas elaboram listas de sucessores da Presidente Dilma Rousseff após impeachment que necessita de número de votos dependentes de tantos fatores (avanço das denúncias, pressão popular, avaliações do campo político, etc) que parecem, como observou Ricardo Noblat, não ter sido objeto de análise objetiva dos que se manifestam a respeito.

Palestras de bêbados na madrugada promovidos a tópicos de cultura política; tudo fantasia, tudo conversa fiada, tudo desconexão com a realidade enfadonha, com os deveres que ela impõe – de formação de alianças, de superação de questões de caciquismo- à Esquerda e à Direita. O ajuste de contas do PSDB e da imprensa que contou os minutos para iniciar aos dias de suas glórias no pré -2002) permanece adiado.

Serei o único a acreditar que a renúncia à candidatura por parte de Aécio Neves junto à imprensa internacional teria nos poupado destas preocupações? Escrevi aqui no blog sobre o peso simbólico deste ato de coragem, em momento em que a apuração já havia sido anunciada como privada e o TSE rejeitava reiteradamente denúncias do PSDB.

Agora é esperar por denúncias (as que vieram à tona ainda não foram suficientes, por que outras o seriam?) que finalmente provoquem o impeachment deste Governo.

Ou seja, não só o PT se entrega aos devaneios, ao exercício do Sagrado Direito de Delirar.

Quem não o possui? Quem não tem sua reserva de fantasias à qual recorre quando a constatação da incompetência choca-se contra as expectativas de triunfo desacompanhadas do esforço e concentração que as poderiam concretizar?

Eu tenho o direito sagrado de esperar que Ruy Castro se declare meu admirador e busque fazer contato comigo à simples leitura deste blog, não tenho? E de alimentar sonhos de ligações amorosas com estrelas da TV que se encantariam comigo também por ler este blog. Pois as duas possibilidades são cabíveis no campo das hipóteses do ideal. Nada me proíbe no território da imaginação. Somente o senso de realidade exige que eu me lembre que as duas fantasias são fantasias – e que eu me concentre nas minhas obrigações sem esperar por realização das duas fantasias.

Quando políticos e formadores de opinião renunciam a este rigor, o País é anexado pelo Reino dos Pesadelos.

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