“Notas” – 23/04/2015

23 de Abril, Dia de Jorge

Há alguns anos faço minhas reflexões por escrito no Dia de São Jorge, 23 de Abril. Como nunca postei nada no 23/04, nunca vieram ao blog. Algumas destas páginas são mesmo pessoais ao extremo: agradecimentos e pedidos. Como não acendo vela em casa, a caneta no papel cumpre a função da chama na cera – garantir que a data não seja ignorada, rezando por minhas palavras, em suma. Pouca coisa se salva com texto publicável, e a não coincidência entre data de postagem no blog e o Dia do Santo me pareceu tantas vezes providencial.

Como não ser ilegível ao escrever sobre uma devoção cujas razões concretas nunca encontrei? Como não temer o tema que rendeu páginas memoráveis de David Nasser?

 

Minha fixação pela imagem icônica de São Jorge vem da infância – e nunca vi incoerência entre minhas posições políticas (que são as da crítica e da negação) com a fé no símbolo da luta contra forças do Mal; o metafísico, não é, em mim, um fator alienante – e os anos só reforçaram a fixação e o fascínio diante das diversas representações pictóricas do guerreiro da Capadócia.

 

A Polônia, por exemplo, é rica em ícones. Ainda há ícones gregos, russos, ingleses, etc. Ao longo dos séculos, artistas dedicaram tempo e trabalho ao tema. Não sei se há hinos nestes países sobre Jorge; o Brasil, com pontos de umbanda e canções de Jorge Ben, e outros compositores (principalmente de samba), contribui assim para este filão temático que, desde algum tempo, tem sido comercializado no Brasil em roupas e adereços como símbolo meramente cultural a muitos que afirmam ser esta razão a que melhor articularam para justificar a escolha desta estética.

 

Hoje é dia de igrejas dedicadas ao santo lotarem. No Rio de Janeiro há várias missas durante o dia, não apenas na Igreja de São Jorge no Centro, mas também no subúrbio. É feriado municipal na cidade que é o santuário brasileiro desta devoção – conheci diversos cariocas que colecionavam objetos com a imagem de São Jorge- de toalhas a chaveiros. 23 de Abril, o Rio de Janeiro é uma imensa homenagem a Jorge, com rezas, cerveja e samba- em todos os estratos sociais. Em outras cidades brasileiras, como Porto Alegre, procissões e missas durante todo o dia também são cumpridas como obrigações de devotos que agradecem curas, sobrevivência de ataques criminosos ou acidentes graves, etc.

Há a simbologia do Dragão, o Mal que converte tudo à sua volta em desolação e ruína. Os países que escolheram São Jorge como padroeiro, ou como santo de devoção popular, certamente aludem à luta contra os inimigos estrangeiros que trazem a pilhagem e a morte desonrosa. Ingleses, poloneses e russos sofreram ao longo de suas respectivas histórias toda espécie de violência – de tentativas de invasão ou invasões que duraram períodos variados em que seus povos tiveram dignidade e segurança como bênçãos por vezes concedidas, nunca como estado natural, direito estabilizado. Povos que nasceram condenados ao aprendizado compulsório da guerra e da obrigação de se criar como guerreiros.

 

Há os dragões pessoais que atormentam cada pessoa em sua rotina de trabalho, luta por dignidade. A prostração sendo o sentimento mais aproximado por seu poder de destruição ao dragão da iconografia – o desânimo e a incapacidade de vislumbrar rota como bombas paralisantes que conduzem à Morte espiritual. Estes sentimentos já são sentimentos de agonia na qual a Morte oferece à vítima trailer do que será seu futuro doravante. O Dragão espreita – na gula, na distração patológica, na ausência de discernimento. O costume de protelar – o “Amanhã será dia mais adequado”- com as desculpas que não nos convencem a despeito de as repetirmos como a um mantra no qual não se deposita fé, também são baforadas do Monstro da caverna. Como também ele se faz sentir quando quebramos promessas -“Eu jurei que nunca mais …mas tive bom motivo”-ou juras solenes, do Dragão a gargalhada zombeteira na reincidência. O Dragão sempre solícito em consolar – “Mas você não é perfeito …quer saber? Tem gente pior, fica como lição” – na decepção com a gente mesmo, o ajuste de contas com nossas falhas morais sendo dissuadido, o controle (sem qual não se realiza qualquer desejo) se afrouxando, e conduzindo à corrupção – o Dragão sorri.

 

O Dragão espreita o trabalhador na condução miserável e cara ao trabalho que rouba horas e energia vital sem o retorno correspondente, no patrão ansioso em sugar até a alma do bagaço de seus empregados; o Dragão operoso em cegar politicamente o trabalhador, incutindo em sua classe a repulsa à leitura e à reflexão, que são suas únicas armas de luta e possibilidades reais de promoção. O complexo de inferioridade e a tentação opressiva do nivelamento por baixo sendo fumaças do Dragão sobre os que pastam sob seu domínio. O medo de reagir às injustiças por temor das consequências da luta também é um sinal do Monstro, um de seus sinais emitidos como avisos baseados em bom senso, insídia do Mal que omite a realidade na qual os poderosos assim que verificam não haver resistência se esmeram em esmagar suas vítimas – “Você realmente acreditou que se recolher em posição fetal te protegeria de golpes? Menino bobinho…”- ensinando às gerações seguintes a trapaça da segurança. A covardia atávica de largos setores da população, sobretudo os que estão carregados de cuidados de classe média, é herança de muitos iludidos pelo sopro do Dragão emitido como canção de ninar: “Não se rebele, a hora de ser recompensado pela destruição de sua vida chegará um dia, se não neste mundo, no próximo”.

Há quem carregue São Jorge no pescoço ou o escale para guardar seus lares na entrada da casa sem acreditar minimamente em sua mensagem de libertação. Como ornamento ou amuleto que se carrega como mero cumprir de obrigações com a superstição agem estes “fiéis”- que não refletem sobre o significado de Jorge e sua luta contra a Podridão que tem como ofício o roubo e o assassinato. Quantos justificadores de crimes – cúmplices intelectuais de criminosos- não ostentam no pescoço medalha de São Jorge? Quando São Jorge é o defensor dos que abrem caminhos a despeito das dificuldades impostas por adversários ardilosos e miseráveis. Ou defensores de tiranias nas quais não se prontificam a viver sob, quando Jorge é o companheiro dos que lutam contra o Poder que se basta como elemento aterrorizante, que prescinde de valores morais para se impor- o Poder de bandidos, em suma.

Deve-se pensar no que esta simbologia ensina e inspira todos os dias, para que a comemoração do 23 de Abril não seja corrupção de sentimentos, feriado qualquer.

O Brasil precisa, todo ele, e não apenas suas porções mais aguerridas (notadamente sulistas- como a massa de Porto Alegre- e a brava gente carioca) render a São Jorge – e ao que ele significa- homenagens diárias. Pelo Brasil- por sua libertação dos criminosos.

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