“Notas” – 25/04/2015

A despedida de Ricardo Setti

E a despedida anunciada há algum tempo concretizou-se ontem: Ricardo Setti encerrará as atividades do seu blog hospedado no site “Veja.com” e mudará definitivamente para a Espanha onde sua família já reside.

Acompanho este jornalista da leitura de seu nome em expedientes de jornais e revistas, e particularmente em um depoimento à revista “Imprensa”, onde conheci sua figura (ainda de bigode e cabelos escuros) defendendo o fim da obrigatoriedade do diploma para Jornalismo, com a elegância que seus leitores conhecem- ponderado, com domínio expositivo, firme, mas nada rude. Acompanhei-o desde então.

Logo, desde o início de seu blog em “Veja” fui leitor e, em pouco tempo, comentarista assíduo. No início, o prazer de colocar um pouco de zombaria em espaço tão classudo guiou meus comentários, mas a gentileza, a clareza e a paciência me desarmaram. Paciência que eu próprio não teria, com os inúmeros “POR FAVOR NÃO PUBLIQUE”e os também inúmeros acessos de raiva quando comentários do tipo eram publicados por descuido natural em pessoa muito ocupada. Nunca um “Amigo, não sou seu funcionário, não quer que o comentário saia, não mande, tá?” que eu decerto escreveria ao leitor queixoso. Desculpas e sugestões para que eu me acalmasse, pois certamente ninguém haveria notado – eu geralmente mandava de madrugada. Isto umas três ou quatro vezes.

Uma vez fui excessivamente rude, descontando nele minha irritação por leitora que insistia em postar comentário grave sem provas sobre determinado homem público (o comentário poderia render ao Setti e à revista belo processo) e buscar discussão comigo. Setti resolvera eliminar os comentários dela e os meus, e não achei justo. Escrevi mensagem rude, pedindo para não ser publicada e Setti ,uma única vez, sugeriu que, se eu me irritasse tanto, que desertasse do seu blog (eu fizera ameaça no dito comentário). Mesmo quando vetou um comentário meu – que feria uma das regras estabelecidas no blog- a de dirigir críticas à revista “Veja” ao Diretor de Redação, e não ao blog- procedeu com delicadeza.

Reservava sua fúria aos comentaristas indelicados, nitidamente oriundos das fileiras do governismo na internet: ”Suma daqui, vá se espalhar nos blogs sujos”, “Ora, meu caro, vá declamar  sua demagogia em outra freguesia”, “Você deve estar louco se pensa que seu comentário, calhorda, mentiroso e infame será publicado neste blog. Este blog não é lixeira.” “Suma, suma, suma daqui”, “Você, sempre você, a defender o lulo-petismo neste espaço. Suma, você não é bem vindo aqui”.

O que me doeu foi a lembrança dele do tratamento que sempre me dispensara “lhano”, e era verdade. Poucas vezes senti tanta vergonha, e me desculpei no aberto – desculpas aceitas com a doçura habitual. Uma natureza rara, sobretudo sendo profissional que coleciona elogios de seus colegas, pela competência e urbanidade no trato. Pensem em qualquer jornalista, se entre os grandes, o elogio ao Setti é garantido. De colegas do “Jornal da Tarde” aos companheiros de “Veja”. Não é à toa amigo de escritores como Fernando Morais e Mario Vargas Llosa.

Algumas vezes enviei, pedindo para que ele lesse e não publicasse, e não divulgasse o link, textos do “Fernando Pawwlow-Cadernos”. O comentário não era publicado, mas o link, com elogios, sim. E em uma ocasião, anunciando comentário no meu blog, e elogiando. Corri ao blog – e lá o comentário que tornou nobre meu espaço, em texto sobre a luta de certos artistas contra as biografias. Sem falar de sugestões preciosas, que tive a inteligência de acatar.

Em resumo: o que eu elogiar deste grande jornalista, será ainda insuficiente.

E discordei dele por diversas vezes – procurem no blog, e lá estão minhas reservas ao otimismo que o fazia acreditar na vitória do PSDB, e em tudo que me parecia tucano em excesso.

Mas sempre admirei seu bom gosto de editor, o equilíbrio em dosar assuntos graves com temas prazerosos, como cinema, fotografia, literatura, música, curiosidades.
A saudade será dura – muitos leitores sentiram o baque da despedida anunciada, parece que não sabíamos ser este seu último mês no blog. Não adianta avisar sobre o golpe, quando ele finalmente chega, a dor é a mesma – o aviso não o amorteceu.

O consolo é que seu site, com textos, fotografias e bastidores de sua trajetória profissional já foi entregue – e seus fiéis terão, pelo que Setti avisou, material inédito. Funcionará, em escala individual, como algo que defendi certa vez (texto publicado no blog, e no 247 e na “Tribuna da Internet”, se não me engano):a criação de uma biblioteca virtual de jornalismo.
Claro que visitarei diariamente o site
http://www.ricardosetti.com/

Mas no presente instante, lamento, lamento, lamento.
Grande abraço, Ricardo Setti !

Novela de Tese

Escrevi um texto aqui no blog sobre o cinema brasileiro e o que soava postiço nele: a sociologia de almanaque, o bom mocismo de Zona Sul, o ideologismo de gabinete, etc, etc,etc.”  ”Cinema de Tese”, o título do texto que citava Neville D’Almeida e sua definição deste tipo de cinema:”Cinema Mauricinho”.

O cinema adicionava novos bocados de formol ao modelo de “arte de tese”, de feitio oitocentista, o filme obrigatoriamente deveria conter uma moral, um “toque social”, uma concessão à casta acadêmica – a instância máxima, no Brasil, a quem almeja “legitimidade intelectual”- o curvar de joelhos à tradição fidalga que determina que “Um artista não pode ser apenas um artista.”

A novela das 21:00 hs. tem baixa histórica de público e as opiniões sobre este fracasso vão desde suposto boicote religioso (como se o Brasil se sentisse agredido com a moralidade das novelas e de todo o mundo dos espetáculos) ao fenômeno das séries pela internet (como se o público televisivo houvesse migrado de vez para a internet – o que ainda não se concretizou).

Boni acertou- não há razões isoladas, somente a má qualidade da novela como um todo. Gilberto Braga, desde sua novela anterior, insiste em passar lições ao público, a forçar demais na tinta escura com que pinta os endinheirados. Lembro que na referida novela anterior, as pessoas discutiam Projetos de Emenda Constitucional citando-as pelo número na praia, em trajes de banho. Como nesta, a anterior era pesada, cartilhesca.

O humor e o veneno dos diálogos, grandes trunfos do teledramaturgo, desapareceram. Afinal, os heróis do socialismo não sorriem com os olhos, ocupados em educar as elites selvagens.

Ao contrário do que imaginam alguns, o que os personagens desta trama têm de “depravado” é que salvam o telespectador de sonolência pesada. As lições de moral,o elogio de “políticas de reparação”, o moralismo de militante social forjado em programas assistencialistas, etc, etc, etc, configuram a “Novela de Tese” e o público parece não estar disposto a adotar este modelo de entretenimento “do bem”, “consciente”.

Qualquer vídeo de baile funk no YouTube diz mais que este folhetinismo doutrinário.

E para lá o distinto público corre no toque das 21:00.

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