“Notas”- 02/05/2015

Um Primeiro de Maio histórico para o Brasil

“Viu o discurso do Lula?”

“Não, não vi. Li trechos, e isto me bastou”.

Lembro de entrevista de Susan Sontag no qual ela contava que amigos insistiam: “Você precisa ver o Reagan dando entrevista”. “Não, não preciso”, respondia a intelectual norte-americana.

Assim sou quanto ao Lula e sua sucessora Dilma Rousseff; me limito a tomar conhecimento, só assisto até onde meu estômago não reclama, ou seja, alguns segundos.

Bom, queriam que o sujeito dissesse o quê? Com a Presidente criada por ele evitando a TV (inspirando textos divertidíssimos dos governistas, segundo os quais, Dilma quis “enfraquecer a Globo”) no Primeiro de Maio e sua central sindical com recorde negativo de público nessa ocasião, eu talvez esbravejasse também. Ainda por cima investigado pelo Ministério Público (segundo a “Época” desta semana), coloquem-se no lugar do homem. Resta atacar a Imprensa, aplaudido por beneficiários.

A Imprensa que ela atacou tem sua culpa em tudo que atravessamos, criou-se uma lenda do self-made man do Nordeste, do Novo Sindicalista Acima das Ideologias (como se fosse possível esta neutralidade pós-ideológica), e agora desejam se livrar sem esforço do monstro? A casta acadêmica subjuga o Brasil desde os dias de Fernando Henrique, mas a imprensa amiga do PSDB não admite este esforço, preferindo debitar a sujeição da sociedade aos caprichos de alucinados de gabinete ao PT. Sem o esforço tucano, estes privilegiados não teriam humilhado tanto a sociedade. Agora é rezar por um escândalo a mais…

O Facebook, usina de boatos e de cuspes no idioma, operou como de costume neste Dia do Trabalho – governistas e oposicionistas dando corda em seus delírios e desprezo por leitura. Parecem não ter percebido o alcance simbólico de uma Presidente evitando a população de sue país em data emblemática, ou concluindo por este símbolo amplo a conjuntura atual somente. Ou concluindo que o Governo está na lona, ou acreditando ser este recuo estratégico para um futuro bote.

O que houve foi apenas a perda de registro de propriedade da Esquerda brasileira de um de seus símbolos mais caros – e isto não voltará, aconteça o que acontecer. Os governistas de internet providenciaram explicação que desperta piedade: “A presidenta pela internet quebra a espinha das TVs reacionárias”. Resta saber se o número de acessos em tempo real foi expressivo, sobretudo por ter sido o pronunciamento em horário fora do usual.

O sucesso inegável de público do evento da “Força Sindical” pode ser debitado, como querem os petistas e satélites, ao sorteio de automóveis, ou às atrações musicais, mas todos sabem que isto sequer atenua o baque do fracasso do comício da CUT. Ou serve de confissão de que, se não forem sorteados automóveis e não se oferecer à audiência simpática ao Governo espetáculos musicais, governistas não conseguem juntar gente disposta a ouvir suas arengas contra a mídia, a Oposição, racistas, inimigos de minorias, etc, etc., etc.

Ainda que as projeções sinistras se concretizem – Golpe de Estado com auxílio de países estrangeiros com subsequente Estado ultrapolicial – a simbologia das massas simpáticas ao Governo do PT se demonstrou esgotada no Dia do Trabalho e este marco não se apagará, podendo, como ensina Marx, ser evocado nas mais diversas situações históricas. Não acredito em viradas de mesa contra o PT em curto prazo, ou retorno do PSDB à situação da qual desfrutava antes de 2002- e da qual foi desalojado por sua própria ação incompetente e morna. Acredito na erosão de sua respeitabilidade e mística, e disto nenhuma força política consegue se reerguer. É o início do Fim.

Leon Trotsky na “História da Revolução Russa”, referindo-se ao Antigo Regime derrubado pela Revolução Francesa, observa que nada sobrevive ao ridículo, à desmoralização. A perda de potencial de dramaticidade corrói mais que qualquer inimigo externo, e Trotsky assegura que “Robespierre não pode ser ridicularizado”. Temido e odiado,sim. Ridículo, nunca.

O tom raivoso da estrela maior da constelação petista é fruto da constatação do esvaziamento de sua lenda, de seu símbolo catalisador. E o conhecimento do vazio, no PT e no restante da Esquerda brasileira de lideranças que consigam recapturar as mentes desgarradas. O que deveria servir de consolo, de atenuante, é a constatação do mesmo vazio nas linhas oposicionistas. Serviria de quê, no cálculo imediato? Parecem dizer as expressões carrancudas, ameaçadoras, dos acompanhantes de Lula no palanque. O Poder que compreendem é o da manutenção de cargos e benesses e isto está ameaçado em hipotética derrubada desta casta sindical do Governo. O Poder amaciou muitos líderes que desacostumaram do roteiro penoso da sua conquista, o temor de perder privilégios nublando a capacidade de planejamento de longo alcance.

A mesma incapacidade de analisar em escala maior tem vitimado a Oposição, sobretudo a Direita de internet. Oscilam entre encomenda de foguetes para celebrar a queda iminente do Governo, inspirada por sinais equívocos (como o post anterior o demonstra), ou memes que convencem os já convencidos do ridículo petista; ou ao terror paralisante de um endurecimento do regime sob bênçãos bolivarianas. O sinal de que a guerra cultural e política teve um sinal inequívoco, de longo alcance, a ser utilizado por gerações, parece ter sido barateado na análise mais imediata.

Carlos Lacerda conta que, em sua greve de fome, na prisão de 1968, ouviu de seu irmão:

“Você está encenando Shakespeare na terra de Dercy Gonçalves”.

No Brasil, o Épico sempre se converte em chanchada.

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