“Notas” – 07/05/2015

“Nunca antes…”

Nunca antes na História populares se interessaram pela composição do Supremo. Hoje gente das ruas discute os votos dos Ministros e, como nunca em meu tempo de vida, não apenas especialistas sabem escalar o STF. Desde o Mensalão, brasileiros se interessam pelo STF.

Penso ser este um marco civilizatório – os mais humildes não terem como imagem do Poder a efígie presidencial somente. A indignação e o susto  (pelo conjunto da obra petista) convertidos em professores de civismo nos dias em que o partido no Poder tem, entre seus militantes, muitos que berram pelo fim da democracia “que está aí”.

Não vejo como os brasileiros renunciarão ao conhecimento de política ao qual estão se acostumando, por que o fariam? Por mais um punhado de promessas, por ressentimentos entre raças e classes que congregam apenas os interessados em se dar bem na vida por expedientes de reparações?

Qual a mística que oferecem aos milhões que encontram conforto somente na certeza de não mais serem animais tangidos pela condição de ignorantes absolutos em assuntos de interesse vital? A cantiga do “Antes vocês nada tinham, a Universidade se abriu aos excluídos” é sufocada pela marcha, urrada em coro, dos que desistiram dos cursos por falta de investimento e planejamento na educação básica. Os versos berrados por muitos jovens celebram o fim da demagogia dos que não apenas não melhoraram a educação básica, como ainda destroem o futuro qualificando o mérito como nivelamento injusto.

Versos que ouvimos sem os decodificar, gravados nos acordes dos panelaços que negam, por adotados em todo o Brasil e por todas as classes sociais, a fantasia (cada vez mais para uso próprio de barbudinhos de esquerda classe média das Universidades) de um Governo popular alvo de amargura de setores privilegiados.

Os elitistas que tenho visto declamar nomes de Ministros do STF como antes declamavam escalações de times de futebol são uns elitistas excêntricos, que preferem as conduções superlotadas (para bairros longínquos) aos carros importados e empregos subalternos às posições de prestígio social. Além de elitistas, uns esnobes debochados.

Eu próprio, que não sou dos mais desligados, confesso que antes me dava por bem informado (pois não advogado nem leitor de publicações jurídicas) se soubesse dois ou três nomes de Ministros do Supremo. E comparado à massa que desconhecia o nome do Vice-Presidente da República, era mesmo. Dias em que Ministros de tribunais superiores eram menos marcados partidariamente, onde o conhecimento jurídico era uma garantia de segurança que, se livrava o País de sobressaltos, também propiciava alheamento das massas aos togados de Brasília. Tudo parece conter seu preço, o Brasil aprendendo isto também.

São dias tensos, estes que atravessamos, mas nada sonolentos, em compensação.

A História parecendo regressar de recesso demasiado anestesiante, em que tudo parecia conduzir à apatia e à prostração. Hoje sente-se indignação, um quase ódio, que é palpável nas concentrações urbanas.

Muito mais que nas Jornadas de Junho de 2013, o Gigante parece estar acordando, ainda que aturdido, ameaçando capotar.
Desejei isto minha juventude toda.

Modos Parlamentares

Um parlamentar dos dias do Império iniciou seu pronunciamento com a seguinte declaração:
“Eu, pertencente ao Gado Vacuum…”

Tal fato foi mencionado nos debates para a Criação da Província do Rio Negro; lembraram ter sido o autor da frase “um parlamentar da província do Maranhão”.

Cito de memória o documento que li há mais de dez anos no “Arquivo Público de Minas Gerais”, realizando trabalho de pesquisa para um doutorando.

Não estranho, portanto, os discursos inchados que assisto na TV Câmara ou TV Senado. O “Falar Bonito” como entendido por quem nunca leu qualquer transcrição de Carlos Lacerda ou sermão do Pe.Vieira é este: vazio e cansativo.

As performances dos parlamentares diante dos depoentes da Operação Lava Jato são lamentáveis desperdícios de tempo e verbo. Muita lição de moral, muita admoestação, menções à vida dura imposta aos milhões de brasileiros; tudo isto faz sorrir os depoentes.

Enquanto isto os governistas interrompem aos gritos críticas ao Governo, provocam cenas controversas – nas quais alegam ter sido agredidos – e comemoram com nenhuma compostura a mínima vitória do Governo nas votações. O parlamento brasileiro atingindo seu ponto mais baixo até agora. Oposicionistas promovendo concursos de (má) oratória enquanto o Congresso se amesquinha, perde sua majestade.

Que se aprende no Brasil? Sempre me pergunto se é possível piorar, ou se é possível ainda corrigir as distorções que a social-democracia à brasileira causou à Democracia. Ideias importadas sem filtro não funcionam como acréscimos, mas como estragos. Desde o Brasil Colônia (como observado por Eduardo Prado, em “A Ilusão Americana”), o Brasil se intoxica com fantasias, como mecanismo de fuga de suas responsabilidades; sobretudo a de forjar resposta própria aos enigmas da nacionalidade. Por longo tempo, os Estados Unidos eram a projeção, agora a Europa. Penso que trocou-se o ruim pelo péssimo; a fantasia de nos tornarmos como o gigante do Norte do Continente cedeu vez à imitação (ruim) de uma sociedade totalmente diversa da nossa, com instituições e modo de sentir o mundo estranho ao nosso. Mas para não perdermos o costume, importa-se ainda dos Estados Unidos respostas como “ações afirmativas” e o câncer do “politicamente correto” aos nossos problemas.

A decadência de nossos costumes políticos é fruto deste hábito mental, nada mais.

Quando se admite que o Parlamento receba pessoas sem cultura demonstrada em produção escrita, e não se utilize com maior frequência cassação por quebra de decoro, em nome de termos vagos como “Tolerância” e “Respeito às diferenças”, parlamentares transformando o Congresso em galpão de baile é apenas consequência.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s