“Notas” – 09/05/2015

Como entendo o conceito de “Casta Acadêmica”

Interlocutores perguntam pelo conceito de casta acadêmica utilizado em meus textos. “Seria o mesmo do Olavo de Carvalho?”

Não posso responder pelo dele – que acredito referir-se estritamente aos professores universitários e aos aspirantes ao corpo docente universitário.

Eu acredito que a casta acadêmica deve ser compreendida nos moldes em que C.Wright Mills descreve os “Círculos de Poder”, ou seja, não somente aos membros do círculo, mas também aos seus circundantes. O professor frequenta círculos de professores, seja em ambientes de trabalho ou de vida social e seus filhos crescem junto aos filhos de seus irmãos de casta. Não tarda a transmissão de valores e ideologias transferindo-se a esta segunda geração – que por sua vez a expande aos colegas imediatamente fora do círculo. Assim a classe média foi, aos poucos, incorporando figuras de linguagem e visões de mundo em tudo antagônicos a ela.

Trata-se de uma engenharia gramsciana- dirão os Srs. Mas o é por contágio, por convívio. Não tanto por cálculo de algum grupo no topo desta pirâmide. Estes círculos são ainda o eleitorado residual do PT, não mais as massas ou o lúmpen beneficiário de bolsas e cotas (não falo de militantes de movimentos por cotas, membros ou aspirantes às castas acadêmica e política), entre outras formas de cooptação por programas sociais.

A política de Direitos Humanos no Brasil é fruto exclusivo desta casta, que agiu no Congresso sem resistência da sociedade, à época ainda anestesiada, alheia ao que se tramava. As leis criminalizando opiniões e que converterão o País em campo de concentração têm a mesma origem – o campus universitário e suas correias de transmissão na sociedade, notadamente a mídia (se duvidam, observem o enfoque de um canal como o “GloboNews” hoje acessíveis a milhões de assinantes).

Observadores apressados atribuem aos círculos boêmios da Zona Sul carioca de décadas passadas muito do que se impôs à sociedade, esquecidos de que aquela esquerda de botequim de luxo trazia o conteúdo mental forjado em leituras e militâncias (muitas vezes nas províncias das quais vieram membros daquela cena cultural) pregressas. Os bares de Esquerda boêmia foram resultado, não causa. Resultado de décadas de importação de autores e ideologia pela casta que dominava, desde sua fundação, a Universidade brasileira.

Os frutos deste domínio podem ser observados não apenas na Esquerda, mas no Centro, e Direita do cenário político. Quantos liberais negam do petismo apenas a visão administrativa? Quantos direitistas não traçam análises com a mesma mistura de sentimentalismo e leitura ligeira dos analistas do petismo nas Universidades? O que poderia tornar Centro e Direita distintos da Esquerda nas deficiências intelectuais seria negação não apenas da ideologia da Universidade, mas do próprio meio na qual é nutrida.  E isto grande parte se recusa (ou adia a decisão, o que dá no mesmo) por questões de prestígio social – o Grande Cabresto do Brasil.

Conheci na Universidade estudantes que se declaravam conservadores que tinham com os estudantes de Esquerda diferenças pontuais, embora acreditassem ser destes o extremo oposto. Era possível jogar o Jogo dos Sete Erros com uma facção e outra. E de onde vinham as semelhanças? Do espírito de classe média, de filhos de ex-estudantes universitários, quando não de professores universitários. Marilena Chauí acertou, sem querer, no seu diagnóstico na famosa arenga contra a classe média. O que torna possível o Poder de sua casta, e do partido de sua casta, é precisamente o espírito de classe média, que, somente agora, percebeu que havia colaborado com o inimigo.

Os engenheiros sociais de qualquer lado ideológico traz em si o microchip da casta acadêmica, ainda que  opinando sobre assuntos aparentemente alheios à Política. Experimentem visitar fóruns de discussão na internet – sobre qualquer assunto repousa a convicção de que todos os problemas podem ser resolvidos com “mais educação” (no sentido de expandir o número de alunos, sobretudo no ensino superior). Mesmo em fóruns de Direita, os crentes da escola são numerosos, indiferentes ao fato de que transformar a Universidade, livrá-la do domínio de uma determinada facção ideológica levará muito tempo, e não se sabe como o fazer.

Advogar o homeschooling sem renunciar ao prestígio da Universidade no futuro é apenas condenar crianças à marginalização em um meio onde as verdades são fornecidas goela abaixo – estas crianças que tiveram somente o ensino doméstico serão  perseguidas por professores e colegas. Há, penso, que conciliar o ensino doméstico com o convencional, ou se renunciar à vida acadêmica. Sou um ex-aluno de Universidade – deixei de ir às aulas por alguns semestres até ser jubilado – não entrei com recurso.

Para quê? Renunciei, enfim, ao status do qual desfrutarão algumas nulidades que tive como colegas e professores. Que se lambuzem com o status desfrutado em país de poucos leitores, os que leram meia dúzia de cinco livros –  tutelados pelo clero acadêmico, pois incapazes de realizar síntese de dados apreendidos por leitura. Que sejam tratados por “Doutor”. E que ocupem postos de trabalho para os quais não têm, grande parte, capacidade mínima para ocupá-los, exceto o canudo sob o sovaco.

Exerce a casa acadêmica seu Poder, portanto, porque a sociedade a celebra, a escolhe como casta sacerdotal. Fosse a sociedade brasileira apreciadora de leitura e discussão de políticas, a casta acadêmica seria frontalmente cobrada, convocada a justificar sua manutenção em país com tanto a desenvolver e investir – sobretudo no ensino básico,ou construção de bibliotecas populares de nível. Como o Brasil não é sociedade de leitores, a casta acadêmica não apenas não se justifica, como ordena – ordena sem admitir qualquer ponderação. Talvez quando o mínimo pensamento contemplar punição judicial, quando o mínimo pormenor da vida familiar for ditado do campus, a sociedade esboce alguma revolta. Até lá chefes de família celebram o Poder, sorrindo. Entregam seus filhos ao clero que os converterão em seus inimigos.

O Poder tudo acolhe.

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