“Notas”- 16/05/2015

B.B. King – O Trono Está Vago

Há anos mesquinhos; tudo exigem dos que têm a pouca sorte de se arrastar sob seu jugo, pouco oferecem, e neles os deuses retornam às dúzias ao Panteão – Sexta-Feira mais um retorno: B.B. King. Ele não era para sempre? Não seria o sobrevivente dos dias históricos do blues? Fomos lembrados de modo brusco que sua eternidade era já garantida em seu trabalho – discos permanecem.

Qual o segredo de quem que serve ao ofício mais de trezentos dias no ano mesmo após o sucesso que, em tese, dá ao seu beneficiado o direito ao descanso? O preço de um casamento desfeito não seria demasiado severo para esta devoção ao trabalho? Mas quantos homens sem esta dedicação também não experimentam casamentos desfeitos e vida doméstica arruinada? Homens que dominam seus ofícios e a ele dedicam o máximo de suas forças têm os mesmos problemas dos homens que nada aprendem e nada se esforçam, e as compensações são incertas. Mas não desistem se compenetrados de que não têm escolha; isto tudo explica e delimita a fronteira entre os medíocres e os notáveis.

A percepção de que era uma lenda ainda jovem (como era respeitado antes de envelhecer, em dias em que de ordinário as reputações ainda estão se firmando) não parecia existir neste músico que proclamava suas deficiências técnicas, e que explicava seus segredos musicais de maneira que pareceria irônica não fosse ele um homem que transmitisse muita sinceridade nas suas declarações. Afirmava buscar dia depois de dia o aprendizado no ofício.

Não sendo eu um entendido em blues, sempre tive conhecimento de seu lugar na história do gênero pelo conceito que dele faziam contemporâneos e epígonos, como os Rolling Stones. Não me lembro de ter lido, entre os grandes guitarristas, e leio sobre o assunto desde adolescência, depoimento de guitarrista de blues ou de rock  que não o aponte como referência e modelo.

Sou um fascinado por instrumentistas, talvez pelo fato de não possuir talento musical algum. Nem perícia motora para aprender, e muito menos dominar. Disse “fascinado”, não somente apreciador. Um grande baterista, ou guitarrista, me causa admiração maior que grandes escritores, por estranho que pareça. A capacidade de extrair sons da ação entre cérebro e determinada parte do corpo de modo que pareça não exigir esforço maior que imaginar a nota não pode ser obtido somente com prática- a escrita, ao contrário exige só a prática (e leitura).

Vi Eric Clapton abatido com a morte de seu mestre, e sabe-se que Clapton costuma ser rigoroso- sobre Eddie Van Halen (que sempre mencionou Clapton como sua maior influência) declarou certa vez ter se sentido ofendido com a dedicatória a ele do disco (em parceria com Brian May): “Ele não sabe tocar”. Quem interessado em rock e blues não se comoveu com a mensagem de Clapton, talvez o discípulo mais aplicado de B.B.King?

É clichê, mas como não sentir na morte do último grande mestre de sua geração o fim de uma era na música? Minha geração que viu na ocasião do lançamento o filme do U2 no qual B.B.King sentiu o impacto de ver uma figura lendária em plena atividade – reverenciado pelo grupo anfitrião sem qualquer sombra de paternalismo- ele realmente engolia o palco.

O Muddy Waters no filme do Martin Scorsese do último concerto do grupo “The Band” é imagem que vi anos após o lançamento da obra e até por isto sei o que foi para muitos de minha geração ser contemporâneos deste momento histórico – a raiz e a última flor no mesmo plano de visão – uma continuidade não linear, mas poderosa, de ramos da mesma família que ainda oferecerá seus desdobramentos.

Daí a comoção entre contemporâneos do mestre, as primeiras gerações de discípulos e gente que começa a ouvir rock e blues agora, na adolescência. Todos sabemos o montante da perda, o que teremos que nos acostumar a ter como peça de memória, doravante. Algo parecido com o que devem ter sentido os contemporâneos de Mozart quando de sua morte; porém qualquer garoto de quatorze anos pode procurar na internet, ou nas lojas, o trabalho de B.B.King, e de músicos influenciados PR ele, e isto torna a sensação de perda mais quente.

Os Rolling Stones devem, sábios que sempre demonstraram ser, ter tido este vislumbre quando convidaram, no fim dos anos ’60 B.B.King para abrir seus shows – fariam o mesmo com Ike & Tina Turner, Stevie Wonder e Living Colour. Não são sujeitos, portanto, dados a apostar em tolices, ou relíquias. O blues para eles nunca foi relíquia, e souberam detectar no músico veterano energia para muita combustão. Não erraram; quase vinte anos depois o U2 teria esta confirmação. E quantos já nasceram decrépitos desde então!

Resta ouvir os discos e ver os vídeos e deles extrair a inspiração para jornadas mais árduas de trabalho. Como escrevi no começo deste texto, não se é necessário ser músico para aprender com este mestre que parte agora sobre doação ao ofício que se escolhe.

Lembro do Iggy Pop declarando ter se inspirado em “escritores, pintores, ditadores” mais que em músicos. Pois digo o mesmo, substituindo o “músicos” por “escritores e jornalistas”. Muito do que me inspira vem de músicos, esportistas, políticos, bandidos lendários, líderes espirituais, cineastas. Escrevo por não saber o que eles dominam, reitero.

Portanto, lamento a partida do B.B.King como lamentei de muitos poucos escritores e jornalistas. A partida do Gunter Grass é um exemplo recente, do qual tratei neste blog dias atrás: me entristeci ao pensar que os escritores lendários de meu tempo estejam desaparecendo, mas não me comovi, sequer reli o que dele tenho em casa.

A morte do Paulo Francis foi exceção, e acredito que por razões iguais às que me tocam neste momento: Descobri Francis na adolescência nos dias em que conhecia o rock, e lia seus textos como escutava aqueles discos, aliás muita vez escutei discos lendo, relendo.

E por saber que, como B.B.King agora, deixava com a morte uma faixa de território cultural deserta por longo tempo. Um arrepio que avisava:
“Todo esforço será pouco a quem se candidatar à vaga”.

Há tronos que ficam vagos por muito, insuportável tempo.

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