“Notas”- 28/05/2015

“Fosse apenas…”

Fosse apenas inversão de valores a causa das escolas (tanto as públicas – estas de fato as piores – como as privadas) terem se transformado em usinas de incapazes, bastaria uma campanha em todos os níveis, e em dez anos algo fatalmente melhoraria. Mas o despreparo de muitos dos críticos do sistema educacional brasileiro trata de inviabilizar, de saída, qualquer discussão sobre como tornar escolas novamente dignas de serem assim designadas. Estudei em escolas na infância em que se tocava no alto-falante Don & Ravel e algumas professoras eram já desinteressadas, igualmente as diretoras,  com os pátios já naquela época funcionando como versões atenuadas de pátios de reformatório. Logo, atribuir somente às ideias da Esquerda na educação o quadro deplorável das escolas não parece acertado.

Ah, a violência nas escolas…o caso do menino de Araçuaí, Minas Gerais, que insultou e tocou no corpo da professora é apenas mais um caso entre tantos outros – que teve a oportunidade de, por ser sucesso na internet, tornar-se uma síntese da realidade no setor. Conheço diversas histórias de colegas meus que passam por coisas do tipo, as Secretarias de Educação nada fazendo pelos “profissionais da educação” recomendando calma ao “aluno, que é vítima, como todos nós”. Claro que as “vítimas” de gabinete recomendam em distância segura das escolas, temperança e compreensão “atores sociais em sua diversidade”. Desde os dias do PSDB, falando nisto.

Fosse apenas a praga dos educadores de gabinete…

Mas há que se lembrar da população não pressiona estes membros da casta acadêmica – alguns com passagem pelo sindicalismo – preferindo culpar diretores e professores que nada podem, que têm que engolir deliberações de alienados no exercício de profissão que, tratada como o é, exibe o trailer de nosso fracasso a se prolongar por mais algumas décadas. Professores sem representação nas instâncias de educação nos estados serão sempre vítimas das omissões dos pais, e de instâncias como conselhos (que no caso do menino agressor de MG, teriam se omitido).

Que se exigisse de Secretários de Educação que seus filhos estudassem nas escolas publicas ou que trabalhassem alguns dias do ano no ambiente sob seu domínio administrativo, ouvindo professores e verificando in loco o absurdo de muitas teses pedagógicas. Afinal, há inversão de valores sem a devida inversão de papéis – burocrata a salvo das maluquices que patrocina.

A população não se organiza para exigir respeito aos professores e volta aos padrões de disciplina eliminados por gestões do PSDB (sobretudo em Minas Gerais e São Paulo), se assusta com imagens como a do débil mental jogando livros no chão e tocando seios da professora.

Fosse apenas um Governo inepto e sem compostura…

Mas há oposicionistas que não se compenetram da necessidade de estudar política a sério – nem mesmo História do Brasil.

Pregam impeachment sem se perguntar quem se beneficiaria da situação caso o impeachment fosse aprovado, sem nem mesmo contar os votos que a proposta teria. Acreditam que o símbolo por si – jovens marchando sob o sol e a chuva, expostos a acidentes na estrada – provocaria uma transformação da disposição geral; indignada, porém aturdida e que instituições viciadas possam ser aliadas, quando também são parte (não pequena, diga-se) do problema. Empreendessem marchas e panelaços como peça de propaganda com vistas ao tempo do mandato presidencial, exibiriam realismo que desnortearia os governistas, mas lançam-se aos gestos de propaganda demonstrando nenhuma disposição de jogar com o tempo; o tempo sendo uma ferramenta poderosa na desmoralização do quadro atual de Poder – e sem esta desmoralização, não há derrubada efetiva deste quadro atual de Poder, simples. Escrevo sobre isto no blog há meses.A caminhada sob o sol e a chuva mal começou.

Fosse apenas o Congresso…

Mas somente o PT e suas linhas auxiliares na Igreja Católica e “movimentos sociais” exercem sua pressão sobre comissões de parlamentares. O restante da população ainda vota no parente ou no amigo, preferindo este critério ao do voto em legenda, ou em listas de candidatos afinados com suas aspirações. Claro que só discutindo política em ano eleitoral.

Não admira que a reforma política esteja saindo como está: com poucas mudanças substanciais, com ajustes que, no fim das contas, não apresentarão qualquer melhora para a população. Delega-se aos beneficiários de uma situação a tarefa de mudá-la, pois o Campeonato Brasileiro espera de todos a colaboração técnica.

Não consigo fingir otimismo, tomar parte nas comemorações do “Agora, parece que o Gigante acordou” – mesmo porque ele costuma acordar meio zonzo, apenas para urinar,tratando de emendar  com uma sodomia em todos os súditos do Reino antes de voltar ao repouso, como diz meu amigo Alexandre de Alexandria.

Reconheço que a população saiu do coma político, mas despertou sem saber onde está, e sem orientadores que a recomendem sabedoria e malícia para lidar com inimigos que agora são percebidos. Trata-se de um momento especial que não pode ser desperdiçado em aventuras e bravatas de voluntaristas que se prontificam a mudar o Brasil em quinze dias.

O hábito de formar células políticas levará anos para se firmar entre nós, e não vejo solução efetiva sem esta disposição em cerrar fileiras, sem a organização política como prioridade. Há que tomar lições com os adversários que esperaram décadas para tomar o Estado; lendo, planejando, continuando após derrotas e não se abatendo com os tropeços.

Quantos autoproclamados conservadores não conheci no ambiente universitário que se recusavam mesmo a socializar, a formar grupos de estudo, atentos às mínimas diferenças e desprezando as afinidades negativas, tão importantes em batalhas políticas como as afinidades de pensamento? A Esquerda não age assim, sabe costurar laços nas ocasiões em que é minoria perseguida – ainda que vislumbrando a oportunidade de enforcar o aliado de ocasião.

Enfim, o combate está em seu começo apenas, e ajuda muito saber que não se pode remendar o que está podre.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s