“Notas”-30/05/2015

As exigências do intelectual não-acadêmico

Leitores me têm questionado:

“Pawwlow, como se formará uma casta intelectual fora da academia, se mesmo as leituras que se pode empreender por conta própria já vêm filtradas pela ideologia deste clero acadêmico? Não se correria o risco de militar por eles, ainda que acreditando-se independente? Ou não se conseguir fugir da influência e provável imitação dos pensadores da Direita, por outro lado?”

Sim, o risco de se conseguir ser apenas um reprodutor a mais de discursos na busca da independência é real, e ninguém disse ser caminho fácil o do intelectual solitário. Mas quem não consegue se filiar a qualquer escola e tem, como eu, aversão aos grupetos, está condenado a se expor aos riscos do ridículo e do desânimo.

Sou um cativo das bibliotecas materna e paterna desde muito cedo – a mãe formada em Letras tinha em casa os tesouros da literatura brasileira e alguns livros de críticos,  e meu pai formado em História (ambos pela UFMG) livros de História, filosofia da História, tratados de sociologia e antropologia.

O que li sem entender ainda assim foi útil nas releituras – voltava aos palácios gigantescos entendendo o que reconhecia sensorialmente.

Outras leituras me confirmaram venturoso por gostar muito mais de reler que de ler. Releitura é o hábito sem o qual um sujeito pode se demitir das funções de intelectual. Absorver ruminando, só mesmo alguns poucos podem se declarar estudiosos por outro método. Lembro que li “Os Sertões” relendo cada trecho anterior ao bocado lido no dia. Li-o, portanto, duas vezes. E acabei adotando este modo de ler, estendendo-o para todas as minhas leituras. Recomendo.

Tive a ventura (muito mais que sorte) de ter pai e mãe muito independentes – liam autores canônicos e não-canônicos, e no setor de Ciências Humanas aprender com meu pai ler autores de correntes ideológicas as mais diversas. Por exemplo: Ortega Y Gasset é dos poucos autores que Olavo de Carvalho cita que já conhecia por outra fonte. C.Wright Mills, outro.

E assim fui fortificando meus hábitos de ler autores não por sua filiação ideológica, mas por sua importância no curso das discussões públicas.

Isto a Universidade, sobretudo a atual, jamais me daria, pois verdadeira fábrica de estéreis mentais à procura de alguma tribo a qual se abrigar dos riscos da atividade intelectual digna do nome.

O progresso intelectual implica na revisão dos padrões “Gosto/Não Gosto” e sua correspondente depuração do que se entende por espontâneo nos julgamentos dos mais variados tópicos. Descobre-se , neste mecanismo de escavação de preferências culturais, as mais desconcertantes incoerências, e há de se extrair deste exame o que subsiste cm coerência sutil e transcendente aos exames superficiais. E muitos aspirantes ao clero intelectual fogem deste exercício analítico temendo descobrir em si os sinais que, manifestados, servem de estigma na Academia. Quem hoje sacrifica uma carreira acadêmica por manter personalidade? Os que de fato descobrirem-se destinados ao combate público extrairão das acusações de incoerência os pontos de ataque nos seus oponentes – onde estes manifestam a ignorância mais sedimentada e transfigurada em alvo; vulnerabilidade apresentada como escudo de rigor metodológico.

Claro que há depurações a serem feitas no caminho do estudioso solitário; autores que em determinado ponto parecem iluminar, após certo intervalo revelam-se medíocres, ou então uma carga excessiva que turva a vista a despeito de deleitar.

Carlos Lacerda, na entrevista ao Léo Gilson Ribeiro para a “Status” (publicada logo após sua morte – entrevista apresentada como sua derradeira, posterior mesmo ao “Depoimento”), lembrou dos autores que o fascinaram na infância, na biblioteca de seu avô, e de, ao tentar relê-los, adquirindo em sebos alguns destes livros, verificara nada mais ter de identificação com eles. Referia-se aos autores franceses como Anatole France, entre outros.

Há estas admirações de juventude que não resistem aos estágios mais exigentes de conhecimento, nos quais a leitura só oferece prazer após exercícios de adaptação mental; as jornadas de anotações e releituras.

Ainda assim, formam a grande massa de conhecimento, o todo que sustenta a edificação problemática. Dizem mais que as leituras definitivas, no fim das contas, pois revelam as dúvidas e percalços que conduziram o estudioso ao plano acabado de estudo.

Há que confrontar os autores enfim escolhidos entre os que sobrevivem a ao teste do tempo e do entusiasmo sobre os problemas mesquinhos, e a resposta obtida orientará o estudioso entre os escombros das tentativas. As passadas registradas nas pegadas indecisas. O roteiro do cego utilizando o tato e a vontade.

E escrever, escrever sem descanso. Noto em muitos amigos capacidade redacional ociosa, escritores que se esquivam da concentração na escrita que renderia trabalhos substanciosos. Quando indagados por quê não escrevem, ainda que criando blogs, alegam falta de tempo, ou desânimo, pois há, segundo estes escritores desviados, excesso de blogueiros no mercado.

Mas bons? Quantos blogs perdem-se no meio do caminho, por indisciplina ou por insignificância reconhecida por seus autores? Blogs como este e alguns poucos outros estão em atividade há mais de cinco anos com público fiel, embora relativamente pequeno. Logo, há demanda por textos, por analistas fora do círculo acadêmico, ou do jornalismo cada vez mais uniforme e temeroso de polêmicas.

Como muitos professores universitários visivelmente chegam ao doutorado sem ler uma linha a mais que o indicado por seus orientadores, e depois dele parecem não abrir mais nenhum livro, o clero cultural  será, mesmo por desistência dos  senhores atuais do Poder cultural,  renovado pelos que de fato estudam e produzem, por não contarem com reserva de mercado ou proteção de círculos. Em outros países o intelectual não acadêmico é ouvido na mídia, e entre nós já foi assim – nos dias em que os membros da Academia não temiam concorrência.

Quando voltaremos a ser um país rico de mentes?

Apostaria na desmoralização do clero universitário como condição primeira para o florescimento de uma cena cultural aberta, com revistas (ainda que eletrônicas) de ensaios e/ou de ficção. As editoras se não quiserem ser ultrapassadas por este movimento  terão que agregar estes escritores de ficção e não-ficção surgidos na internet.

O que anima o verdadeiro intelectual não-acadêmico é precisamente a dimensão destes desafios, ao contrário do que imaginam os ocupantes de cargos e lugares na mídia.
Viemos para derrubar o trono, e eles o sabem.

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