“Notas” – 11/06/2015

“Democracia do Grito”

A capacidade de juntar bandos para berrar pode muito mais no Brasil de hoje que arrecadar fundos para eleger candidatos.

Aprova-se sistema de cotas no STF ou adia-se votação para tratar de assunto que interessa à maioria, como a de impedir que criminosos continuem desfrutando do fetiche jurídico da idade sem precisar de gastos de campanha ou propaganda para convencer eleitores.

A passividade de autoridades eleitas (ou nomeadas por eleitos, como os Ministros do Supremo) diante de autoproclamados representantes de entidades estudantis (grupetos que dominam a máquina estudantil, cada vez mais composta de profissionais) e “movimentos sociais” (grupos de pressão com costas quentes na mídia) mostra ao cidadão comum que a democracia está mesmo ameaçada e que ele, o cidadão não filiado a qualquer grupo, conta consigo e com a sorte apenas.

Barbudinhos nada másculos de braços dados com patricinhas conseguem calar deputados e ninguém se atreve a conter a palhaçada, como se estes filhinhos de papai poupados dos choques da vida real de fato representassem uma porção consistente da massa, e não fossem apenas filhotes da casta acadêmica repercutindo os professores.

Imagino usuários de serviços de telefonia que recebessem cobranças indevidas e mesmo após provar o erro na cobrança conseguissem a mera devolução do dinheiro pago e não a indenização (como aconteceu com minha mãe) ou usuários do transporte coletivo ruim protestando com a mesma folga. Ou eleitores insatisfeitos, que tal?

Aposto que a polícia do legislativo agiria com rigor.

Lembro da agressão sofrida pelo ex-deputado federal Hermano Alves nos anos ’80, quando ele, trabalhando como jornalista, mesmo após explicar que não iria ao plenário e sim ao comitê de imprensa, foi atacado por seguranças por não estar com a gravata bem ajustada. Ele trabalhava à época na “Afinal” que publicou matéria a respeito. Era um jornalista respeitado, um ex-deputado cassado pela Ditadura, e ainda assim agredido.

Mas quem tocará num fio de barba de filhos da classe média com poder de achincalhar representantes eleitos, protegidos por regras de etiqueta que decretam ser feio conter estudantes “defensores de direitos humanos”?

Os deputados que aliaram-se aos manifestantes deveriam sofrer punição, pois agiram contra o Legislativo, mas quem agirá contra minorias com capacidade de gritar e impor rótulos? Por muito menos alguns parlamentares são ameaçados pelo regimento, mas gente como Maria do Rosário parece poder tudo.

E podem,eis a verdade!

Onde os grupos favoráveis ao fim do fetiche jurídico da idade? Onde comitês de familiares de vítimas? Onde os representantes de porções da sociedade neste momento- organizam-se, ao menos para boicotar órgãos de comunicação que decretam igualdade moral entre vítima e criminosos? Formam grupos de discussão com vistas a prazos longos?

Eu há alguns anos tenho feito minha parte escrevendo no blog, sem qualquer eco, exceto o citado aqui (menção no twitter do Francisco Carlos Garisto), e continuarei a fazer, adianto aos que porventura me cobrem coerência.

Esta gente, os militantes da Democracia do Grito, é organizada, vive em reuniões, estuda (ao menos a cúpula) dinâmicas sociais e pensadores do processo de hegemonia e circulação de ideias enquanto o resto da população só se lembra de emitir protesto em datas determinadas pelos acontecimentos. Esta gente (os militantes) determina acontecimentos, eis a diferença.

Que tudo fique como está se a sociedade não se organiza, sobretudo para discutir penas alternativas a crimes menores (que estes crimes sejam dados como agravantes na ficha do criminoso autor de barbaridades, exibindo-o delinquente contumaz) ou outras modalidades de punição, mais graves ou mais brandas, não importa.

Pelo menos a massa não toma parte em simulacros de mudanças institucionais.

Biografias – vitória no STF

Meu pai sempre dizia: ”O Perfeito é inimigo do Bom”.

A possibilidade de autores serem processados por critérios subjetivos persiste no quadro atual, mas ainda é melhor que ter que se pedir permissão ao tataraneto de algum Conselheiro do Império para que este varão ilustre possa ser biografado.

Penso no sentimento de dó que acometerá as gerações por chegar ao Mundo quando pensarem que em um país com tantos biografáveis como o Brasil houve tantos obstáculos aos escritores, percebidos como vilões famintos por lucrar com cadáveres notórios.

Escrevi no blog sobre editores que “investindo em livros no Brasil são de temerário heroísmo” e não exagerei. Há vídeos no YouTube com Ruy Castro, o biógrafo mais ilustre do Brasil, narrando suas desventuras, e de sua editora, a “Companhia das Letras”, sempre às voltas com herdeiros e seus advogados. Como uma biografia, a de Guimarães Rosa, foi abortada por temor de mais dores de cabeça e pedidos de indenizações alucinados.

O sonho de muitos destes lamentadores da decisão do STF é um país sem livros que não sejam reminiscências da Ditadura, ou ensaios extraídos de teses acadêmicas. Utilizam- se de possíveis sentimentos familiares feridos para impor, uma vez mais, seus lobbies, suas proteções.

Que venham todas as biografias possíveis! Que muitos destes advogados do obscurantismo sejam biografados, ou seus chefes. Ou seus defensores (e os há!) na imprensa.

Este foi um marco histórico – trouxe o Brasil novamente ao Séc.XX, de sua suspensão em tempo histórico nos dias do Brasil colônia, que parece causar nostalgia incontida em tantos que ganham o pão e garantem postos cassando livros, maldizendo escritores.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s