“Notas”- 25/06/2015

Ignorância Dolosa

Alguns leitores amigos e mesmo a comentarista Valentina de Botas (que abrilhanta com seus textos a coluna de Augusto Nunes) discordaram de meu texto sobre a missão oposicionista brasileira na Venezuela. O comentário (como sempre, muito bem escrito) de Valentina assegura que “zombar do que fizeram os senadores brasileiros é reduzir a atividade política à atividade eleitoral( …) é virar as costas para nossos vizinhos massacrados…”

Concordo que a dramatização da política tem seu lugar em ocasiões em que todas as características de uma democracia tornam-se opacas (quando não meros  ornamentos) como é o caso da Venezuela, mas penso que um gesto teatral seria mais eficaz se executado em um palco central do Mundo.

Outros leitores protestaram comigo em conversas, argumentando que “agora a máscara do Maduro caiu”. Qual mascara? Caiu para quem?

Quem, lendo um mínimo, ainda pode alegar ignorância do que ocorre na Venezuela?

Há os que torcem, sem utilizar eufemismos, para a consolidação daquele regime em todo o continente, e estes operam em seu território de fantasias desde os dias em que o Foro de São Paulo era (como sempre observa Olavo de Carvalho) o tema- tabu nas redações. Estes entusiastas da “Pátria Grande” são tudo, menos ignorantes sobre o que é a democracia como a entendem os estrategistas do Foro.

E há os ignorantes de fato, que são ignorantes por conveniência. Talvez a parcela mais numerosa da população.

Como sabem que saber sobre política é por consequência se obrigar a tomar algum partido, e não desejam se decidir e se comprometer sobre qualquer coisa, fogem do noticiário político. São portadores do que considero ser a “Ignorância Dolosa”, a mesma que vitimou muitos populares nos países e dias de Hitler e Stalin. Nada sabem por não desejarem saber.

Não, não falo dos que não têm tempo para leituras, mergulhados em rotina de trabalho que avilta e torna milhões vítimas de mecanismos engendrados por gente que, sabendo o valor do tempo, emprega-o para aumentar sua cota de Poder.

Falo de uma classe média que confirma o juízo que faz dela Marilena Chauí (seu partido de coração ocupa o Poder  pela estupidez que a professora detectou na classe média), pois nada lê, a Política sendo a estes alienados assunto mortalmente tedioso.

Acordaram no meio de um ensaio de tirania sem perceber como foram parar em um pesadelo em curso, e não entendem como “de repente” a economia do País revelou-se um desastre.

A estes, a missão senatorial brasileira soou como visita recreativa.

Portanto, onde a serventia de uma “demonstração” em país onde milhões arrastam-se à espera de uma virada do destino? Tudo soa como amadorismo, ou provocação.

Reitero o que escrevi por ocasião de protesto de aluno contra palestrantes na PUC – estes gestos nada esclarecem a quem busca o conhecimento, apenas divertem os governistas e tranquilizam os beneficiários do atual sistema.

Os que escolheram não se importar estão, com a piora da situação econômica, começando a pagar pela escolha da viseira, e acredito que não despertarão em quem advertia muita compaixão.

O Brasil atravessará seu roteiro de pesadelos, ele mal começou.

Os que optaram por ignorar deveriam receber os piores bocados, mas quem pode escolhe ser chicote ou corpo no meio de um desastre social?

 

Tom Wolfe- o gosto ruim  na releitura

Consegui encontrar em sebo a edição brasileira (L&PM) de uma coletânea de textos de não-ficção de Tom Wolfe, “Décadas Púrpuras”-, lançada nos anos’90.

A leitura destes textos me reforça a constatação de que Tom Wolfe traz de longe seus defeitos mais irritantes.

Como foram lançados em edição mais reduzida alguns dos textos, alguns textos na verdade releio.

Hoje muitos apontam o excesso de onomatopeias e ênfases exageradas nos livros mais recentes do autor de “Fogueira das Vaidades” e me lembrava do prazer na leitura de seus textos de não-ficção, e considerava (mesmo por ter lido – e gostado – de “Fogueira das Vaidades”) estes críticos como uns excessivos no exercício da chatice.

Mas… como Wolfe envelhece mal- suas explicações dentro das piadas anulam qualquer graça e lembram mesmo o personagem de Chico Anysio que explicava as piadas contadas por calouros em programa de humor (personagem dos anos ’90). As onomatopeias e uso “literário” de pontuações tornam textos que seriam antológicos pela descrição da fauna nova-iorquina e observações sociológicas agudas de fenômenos como o mercado de arte e o esquerdismo de luxo (“Radical Chic”, sua expressão ainda definitiva) maçantes, cansativos, infantiloides. Quando comparado com seus rivais no “New Journalism”, ele diminui de tamanho de forma dramática- como compará-lo a Truman Capote, Gay Talese, ou Norman Mailer?

Há quem o considere superior aos nomes citados por mera simpatia ideológica, por prevenção contra estes nomes talvez demasiado incensados – a comparação é, se avaliarmos os textos de Tom Wolfe com rigor, humilhante.

Paulo Francis muito o elogia no prefácio de “Fogueira das Vaidades” e isto deve ter sido o argumento definitivo a favor de sua aceitação no no Brasil como “O Verdadeiro Grande Escritor do New Journalism”.

Demorarão quanto para admitir que superestimaram um escritor com virtudes de observador e satírico, porém assassinado pelo próprio “estilo”?

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