“Notas” – 04/07/2015

Vestindo a Carapuça 

Augusto Nunes, em artigo publicado em sua coluna no site de  “Veja” no 25/06/2015 assim se refere aos que, não afinados com o Governo, não exibem otimismo:

“Quem acredita nessa miragem (a que mostra este sistema estar forte e robusto, a despeito do atual governo estar fraco; nota minha, Fernando Pawwlow) agride a verdade, insulta os que jamais admitiram a hipótese da capitulação, ofende os que não se renderam mesmo quando confrontados com adversários bem mais temíveis”.

Bom, embora ele não tenha se referido especificamente a este blog e a mim (quem sou eu?) tenho a bondade de vestir a carapuça, pois sou dos que não acreditam mesmo que estes militantes de um projeto totalitário chegaram até aqui para desistir na primeira onda de impopularidade a um Governo do qual eles podem (com possibilidade real de êxito) tentar se desvencilhar. Tenho escrito sobre isto neste blog e sei que Augusto Nunes conhece este espaço – uma de suas comentaristas mais assíduas e sua colaboradora mais brilhante, Valentina de Botas, já comentou aqui algumas vezes, e AN mesmo deu o link deste blog vez ou outra, contrariando meus pedidos.

Logo…

Visto a carapuça (embora nada me autorize concretamente) – e me obrigo a responder.

Nunca admiti a hipótese de capitulação, apenas combato sem esperar vitória em meu tempo de vida. Não preciso me iludir sobre possível renúncia ou cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff para me animar a escrever – de graça, sem receber qualquer promoção de meu blog – contra sistema de forças que, no meu entender, e de alguns tantos outros, é mais poderoso e temível que a Ditadura iniciada em 1964.

Escrevo contra este sistema sem nada ganhar por não conseguir me omitir, somente isto. Mas sem esperar ver a queda de todo estes beneficiários desta ilusão vendida às massas antes de eu completar meus noventa anos.

O fato é que há três eleições, pelo menos, os otimistas compram caixas de foguetes que se avolumam na despensa. Contagens regressivas na coluna de Augusto Nunes e de Ricardo Setti (que, salvo engano, publicava mesmo um reloginho com a contagem regressiva para o fim da era PT) são encontradiças se consultados os arquivos – minhas advertências aqui no blog nas últimas duas eleições presidenciais estão igualmente disponíveis.

Logo, não me arrependo e não me sinto desrespeitoso com quem acredita que Governo que aparelhou o Estado, que criou ministérios povoados por militantes – concursados ou não – e que conta com parcerias com governos de esquerda na América Latina, além de boas relações com Rússia e China cairá somente por índices de desaprovação – sem dúvida, inéditos- ou de escândalos de corrupção que penso difíceis envolver de forma conclusiva a Chefe de Governo. Não acredito em saída indolor desta armadilha.

Não me julgo insensível aos que não podem esperar nem meio segundo para ver esta página da História virada e rasgada, mas sei que não será tão fácil como o desejam. O sonho de acordar com isto sendo apenas má lembrança exigirá enorme disposição de pagar o preço que colocar todo este edifício erguido por este conjunto de forças abaixo cobrará- todo o arsenal de sabotagens que estes setores beneficiados com o Governo colocará em funcionamento assim que pressentir o fim de privilégios e de posições conquistadas no exercício do peleguismo. Eles não largarão as tetas com docilidade – qual de nós as largaríamos se estivéssemos delas desfrutando?

Não basta impedir a Presidente, ou prender seu patrono, Lula.

Há enorme linha demarcada – em décadas, não em meses- de territórios políticos conquistados a partir da Universidade, e dos movimentos sociais em parceria com setores da Igreja. Há ainda um eleitorado residual que se perguntará se sua existência como consumidor estará assegurada em novo quadro político- ontem mesmo um inconfundível petista me segurou pelo braço, e me mostrando o shopping lotado, perguntou:”Você está vendo crise?”

Há a casta acadêmica – professores universitários, filhos de professores universitários e seus círculos de relação – que também tem o que temer e trata de assegurar nas redes sociais o apoio ao Governo mesmo se este for derrubado antes que eu termine de redigir este texto.

Há a imprensa governista -a mesma à qual eu me referia como ameaçadora ao Augusto Nunes e este me assegurava que eram pobres-diabos de nenhum público – que dará jeito de subsistir ainda que as verbas oficiais sejam cortadas da noite para a madrugada. E que fará sua parte no sentido de colocar as massas contra um possível novo Governo assim que as dificuldades inevitavelmente surgirem.

Há os movimentos sociais que contam com auxílio financeiro de ONGs do exterior e que não se darão por vencidos de uma hora para a outra. Farão sua parte com a energia que sempre faltou à Oposição, falando nisto. Têm prática de arregimentar contingentes de desesperados e não perderam o domínio deste ofício nos últimos anos, ao contrário.

Logo, nós, os pessimistas que insultamos os otimistas com nossos crocitares, temos base fatual para insistir nas advertências e delas não recuaremos – e que os otimistas que contam os segundos para a volta ao Brasil pré-2002 façam bom proveito desta ilusão.

O Brasil surgido do petismo é, mesmo crítico ao Governo, nada saudosista dos dias tucanos. Conheço muitos que votaram no Aécio Neves por ser ele a opção possível, nada mais.

Aqui mesmo, em Belo Horizonte, o ânimo era e é este – o de lamentação quanto ao horizonte pobre de opções, o repúdio ao PT e a nenhuma simpatia pelo PSDB. E aqui Aécio Neves já teve seus dias de aceitação máxima, hoje convertida em aceitação puramente ocasional, resignada.

Os que se referem à imprensa governista como escoadouro sanitário tampouco apreciam “Veja” e demais integrantes do que os MAVs chamam de “PIG”, esta é a verdade.

Portanto, não sei em que círculo social Augusto Nunes colhe seu otimismo.

Acredito que nos mesmos círculos do campo contrário onde gente como Marieta Severo e outros membros da classe artística colhem o seu com este Governo, em reuniões de seus iguais, nos restaurantes onde se encontram, e que  tomam como amostras fiéis do vasto mundo fora dali.

Eu, por onde ando, só vejo desespero e a rendição ao niilismo – e não me atrevo a censurar. Nunca o Brasil se mostrou tão desalentador, e o acúmulo de seus erros tão desestimulante.

Eu debito na conta de oposicionistas bem situados muito deste abandono, mas respeito quem julga que o Governo fez tudo isto sem ajuda.

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2 respostas para “Notas” – 04/07/2015

  1. Valentina de Botas disse:

    Oi, Fernando!
    Não pretendo falar por ninguém, a não ser por mim mesma, também não pretendo explicar o otimismo que me atribuem por reconhecer a falência do projeto de poder dos lulopetistas. Não quero repisar argumentos e não tenho nada de novo a dizer além do que você já conhece. Registro apenas o agradecimento por sua generosa consideração quanto ao que escrevo e que reconheço no cotidiano duro do país que nossas mazelas nem de longe estão ameaçadas de cura. O que insisto é que não é possível sequer falar a respeito delas enquanto o PT estiver no poder e que não há como colocar no mesmo balaio a qualidade de gestão, por exemplo, dos tucanos e a lulopetista. Me dá preguiça só de pensar em fazer o paralelo absurdo. O PT é uma anomalia e, por definição, não acomoda comparações. Se o PT vai sair do poder por bem ou por mal, eu não sei, nem acho que isso seja questão de otimismo ou pessimismo. O fato é que ele não tem mais como sustentar o sonho de poder perene e o que vem depois, me desculpe, vem depois. Isso é razão o bastante para celebrar, é oque faço: celebro a morte desse projeto nefasto. O cadáver insepulto, pornográfico, vaga assombrando somente os que se deixam assombrar. Enquanto isso, todos os nossos dramas tão bem apontados por você e a agonia irreversível do lulopetismo são realidades que se superpõem até que a decência vença. Um abraço

    • fernandopawlow disse:

      Valentina, não considero o seu ânimo despropositado,mas também não posso me iludir com sinais equívocos enviados pelo centro de comando,como parece fazer o titular do espaço que você abrilhanta com seus comentários.
      Como você mesma diz,não vem ao caso discutir quando o petismo acabará,mas Augusto Nunes encomendou foguetes nas duas últimas eleições presidenciais,enquanto o pessimista do Pawwlow aqui recomendava fortalecer o espírito para mais uma temporada deste partido no Poder.
      Não tracei em qualquer momento paralelo entre as gestões tucana e petista,mas sou honesto:O PT não seria possível sem a picada aberta pelo PSDB e pela incompetência tucana na luta pelo Poder.
      Entendo que é necessário combater com realismo,com o coração gelado,como combatem os que agora estão na colheita.
      Se isto soa como capitulação ,ou exercício de ânimo derrotista,lamento.
      Mais uma vez,obrigado pelo prestígio e pelo comentário.
      Abraços do Pawwlow

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