“Notas” – 16/07/2015

“Esquerda Caviar” não é “Radical Chic”

O Brasil em quase tudo imprime a marca da obra realizada pela metade, ou como preferem tantos, da “cópia mal feita”. Quem não se lembra do “Vampiro Brasileiro” do Chico Anysio, personagem que confirmava em seu ofício o amadorismo e improvisação do País?

Alguns conceitos sociais, por exemplo, são aproximações grosseiras de definições cujo sentido, em seus países de origem, é descrição fiel, e portanto a conceituação é precisa. Aqui a abstração aproximada basta. O sujeito é qualificado como “fascista” por ser favorável a criminosos responderem por seus atos sem atenuantes etários, ou o classe média -alta sem maiores posses é tomado como “Membro da Alta Burguesia”.

Sei que não falo qualquer novidade, mas no Brasil é sempre preciso repisar significados dos termos correntes, pois a discussão pública corre o risco de se revelar, pelo subjetivismo, mero exercício de (má) literatura.

Esquerda e Direita (ou o que responde por isto no Brasil das definições inexatas) são pródigos em discutir política sentimentalmente, descuidados da precisão semântica e do cálculo do efeito a se alcançar. E aí vale quem tiver maior capacidade de juntar gente e ensaiar corais de gritadores. A “Democracia do Grito” tem neste exercício de definições mal ajustadas muito do seu combustível.

Rodrigo Constantino colocou em circulação o termo “Esquerda Caviar” para designar o esquerdista bem-nascido, geralmente integrante do mundo artístico. Sempre houve quem se referisse aos esquerdistas do tipo como “Esquerda de Salão” ou “Esquerda Festiva”. Estes termos eram mais aproximados, pois referiam-se aos esquerdistas de salões literários (extensões na alta sociedade do ambiente de suplemento literário de jornais e revistas) e aos esquerdistas de bares de luxo (fenômeno que embora tivesse sua extração mais brilhante no Rio de Janeiro reproduziu-se em qualquer cidade, mesmo do interior, onde houvesse algum centro de educação de nível superior e bons bares ).

No apartamento de frente para o Central Park do maestro Leonard Bernstein houve recepção a alguns integrantes do grupo esquerdista “Black Panthers”e, além de celeridades da TV, Cinema e Jornalismo, ali esteve o escritor Tom Wolfe (como jornalista) que descreveu roupas, móveis, a opulência do apartamento, e mesmo o cardápio e lançou para a posteridade o termo “Radical Chic”- o título de sua reportagem:”Estas Noites Radical Chic” (publicado no Brasil, tanto em versão reduzida, na coletânea “Décadas Púrpuras” ou inteira,  na tradução do livro que continha o texto e outro sobre os programas assistenciais nos guetos dos anos ’60).

Lendo o texto integral de Tom Wolfe, conhece-se a diferença entre o fenômeno norte-americano e sua versão brasileira: os convidados do Maestro, gente como Barbara Walters e Otto Preminger e o próprio Maestro Bernstein, confrontam as estrelas da noite, os Panteras Negras,questionando seus métodos e planos caso conquistassem o Poder nos Estados Unidos. Não permitiram que aquele programa social “engajado” fosse de todo estúpido. Não abdicaram de sua condição de gente culta, bem -informada, e portanto, questionadora.

O modo como Wolfe descreve a hipocrisia de esquerdistas que sublinhavam sua posição social com o bom gosto no vestir e pelo hábito de manter criados “não-negros” (antecipando, já nos anos ’60, o “politicamente correto”) em vez de banir o costume de se manter criadagem (não eram igualitários?) é igualmente ferino na narrativa do confronto entre intelectuais bem preparados para polemizar e populistas semiletrados  esmagáveis, sem dificuldade, em uma discussão sobre valores, pretensamente comuns a todos e mesmo capacidade de suportar dificuldades.Enfim, Wolfe foi feliz na descrição de uma comédia social.

Lembro de recepções promovidas no final dos anos ’80 por Chico Buarque em sua mansão a líderes como Leonel Brizola e Lula – aquilo foi o mais aproximado em termos de qualidade intelectual dos convidados (gente como  Antônio Callado, entre outros artistas e intelectuais), mas questionamentos críticos não eram bem-vistos (lembro da reportagem de, salvo engano, Bob Fernandes, para a “IstoÉ”- ainda fundida com “Senhor”? -em que um convidado, ou penetra, fora considerado inadequado por questionar Lula) e Marieta Severo (cito de memória, logo…) assegurava que “a democracia da Casa vai até os limites da Esquerda”.

O que Constantino chama de “Esquerda Caviar” (ao menos quando trata de esquerdistas brasileiros) não pode sequer ser objeto de comparação com os membros da família intelectual americana (daquele período, pelo menos) que brincava de ultra esquerdismo de salão social: atores e roteiristas da “Rede Globo”, astros da MPB em notável decadência, jovens aspirantes a astros da MPB (os barbudinhos de camisa xadrez e óculos de armação quadrada, quase sempre brancos, não raro  ruivos, parceiros de patricinhas fantasiadas de hippies – quase todos petistas, ou psolistas), humoristas (de humor a mim incompreensível, inalcançável; não consigo esboçar sorriso vendo-os), e claro, os regentes deste coral, os Professores Universitários, membros por ritos de aceitação e fidelidade, da Casta Acadêmica.

O contraste é deprimente, pois se os convivas perfumados da recepção aos “Panteras” ousaram colocar os revolucionários contra a parede, aqui a adesão é muito mais que ato de vontade, e sim incapacidade de sequer perceber traços nos discursos de seus objetos de adoração que os tornariam simplesmente extinguíveis em nome de uma noção primária de justiça. Vejo defensores de “movimentos sociais” que seriam  conduzidos, sem maiores contemplações de ordem metafísica, à condição de trabalhadores manuais , pois “é necessário extinguir privilégios”.

O que conheço de gente que condena certos movimentos e ideologias e que afirma votar em Jean Wyllys, inconsciente da contradição, me lembra o quanto temos que caminhar sob o sol mesmo em termos de esquerdismo para socialites.

Vejo gente reproduzindo o termo “Esquerda Caviar” nas redes sociais como ofensa aos defensores de causas que contam com apoio somente do mundo universitário e do mundo “artístico” sem se importar com a inexatidão da munição retórica, pois há, mesmo entre vítimas despossuídas da violência quem se mostre contrário às leis severas para criminosos, por mero espírito de adesão ao que vem da Universidade – um filho universitário agindo como “agente social”, reproduzindo o que ouve de professores que a rigor não são sequer classe média alta. Logo, onde apressados percebem ações de uma pretensa “Esquerda Caviar” há o trabalho persistente da casta acadêmica, que atinge tanto artistas como favelados (embora o apoio entre a massa esteja diminuindo) vítimas de militantes de batina ou de uniforme de universitário (camiseta com a imagem de Guevara, jeans surrado, talvez dreadlocks).

A distância entre a cobertura de Leonard Bernstein e nossa realidade cultural é maior e mais terrível que a espaço-temporal.

Graus de civilização e cultura – à Esquerda e à Direita- agem como elementos da equação.

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