“Notas” – 24/07/2015

Leonardo Padura Fuentes no “Roda Viva”

Não li o livro de o escritor cubano sobre o assassinato de Leon Trotsky, “O Homem Que Amava Os Cachorros” nem qualquer outro de sua autoria. Conheço sua reputação de narrador hábil,e os elogios à obra citada-a qual mereceu de  Olavo de Carvalho e diversas citações e elogios, como uma comparação favorável ao “O Homem Que Amava…” sobre o “1984” de George Orwell.

Logo, me interessei pela entrevista, a qual pude conferir no “YouTube”. Revi alguns trechos com atenção, e é entrevista que penso ter seu lugar entre as entrevistas clássicas do programa.

A imprensa governista celebrou a resposta dada à jornalista Nathalia Watkins – e penso que esta imprensa comemora o gol contra da jornalista de “Veja”, pois referências vaga à “Fome” é passe para o artilheiro – um escritor talentoso não deixaria a bola passar sem a finalização certeira: ”Ninguém morre de fome em Cuba”.

O romancista declara cumprir seu papel – o de escrever- sem se envolver em qualquer militância e ninguém o lembra que fosse ele escritor de país sob ditadura de Direita ele seria cobrado a assumir alguma posição. Claro que ele responderia que isto deve ser colocado aos patrulheiros e não a ele, mas a falta de qualquer malícia dos entrevistadores choca o telespectador mais habituado a leituras e questionamentos.

O questionamento sobre sua posição de “privilegiado” também foi confortável, pois ele assumiu sua condição de privilegiado por viver de literatura e ao mesmo tempo apresentar-se como homem do povo, um sujeito que escolheu continuar vivendo no país onde suas raízes estão alicerçadas e que o faz sem esforço.

Não acho desonesto viver de literatura e ganhar em moeda estrangeira, e aplaudo sua disposição em retratar aspectos duros da realidade do seu país (fez menção a um livro seu onde aborda a situação dos interioranos de Cuba que fugindo da penúria de sua região encontram em Havana realidade sórdida), mas me incomoda sua pronta determinação em defender seu país (com o expediente de acusar país que o recebe- brasileiro tolera tudo) da reputação de país mergulhado na miséria, quando ele mesmo admite doar sabonetes de hotéis ao dentista. A sua admoestação (tão celebrada por governistas) à jornalista não mereceu a réplica necessária, que seria esta:

“O Sr. diz não opinar sobre países que visita, mas acaba de opinar; isto é jogo de palavras. O Sr. fique tranquilo, não se questionará mais Cuba neste programa”.

Ah, o temor de soar rude, ainda que o interlocutor dê a oportunidade sendo rude.

Estes visitantes cubanos sabem a quem se dirigem – a moralistas de classe média pouco -ou nada- familiarizados com seus truques retóricos, tivessem como antagonistas mentes treinadas em debates,  teriam que elaborar explicações sobre a casta dirigente de Cuba (se esta também se vira com o que a população ganha, se ela também só come o que consta da “caderneta”, etc, etc), ou a situação das prisões políticas após anúncio de aproximação com os Estados Unidos, por ex.

Ocorre que eles nem se dão ao trabalho de preparar respostas para perguntas incômodas por saberem nossos jornalistas pouco familiarizados com debates internos da “Ilha”, ou por intuir que quase nenhum ali acompanha com atenção mesmo o jornal oficial, o qual de alguma maneira fornece subsídios para questionamentos concretos.

O confronto na base de valores da “democracia burguesa”é  ineficaz aos habituados a reduzir discursos sobre democracia, eleições livres, etc, a fantoches frágeis diante do que eles entendem ser dados concretos:

“Com suas eleições livres, os interesses da população são contemplados, ou os interesses dos contribuintes de campanhas?”

”Vocês mencionam a fome de Cuba, porventura aqui não há bolsões de miséria?” (a resposta que ele deu à jornalista)

“Prisões políticas em Cuba há, aqui prisioneiros esperando julgamento em prisões lotadas não são de certa forma prisioneiros políticos?”

Enfim, esta gente (sobretudo por ser intelectual), sabe se livrar de cobranças moralistas como se remove migalhas de pão da camisa com piparote. Deixar que eles defendam o regime de seu país e colher nesta defesa a munição para questionamentos melhor embasados, é algo que parece ser superior à capacidade do jornalista brasileiro. Muito do que o próprio Padura mencionou seria melhor questionado não fossem os jornalistas tão afoitos. Há que colocar o visitante porta-voz de país que os vigia mesmo no exterior contra as cordas. Mas sem ser boxeur tarimbado de nada adianta levar oponente às cordas, pois estes cantores da “Ilha vítima do Embargo” voltam ao centro do ringue mais dispostos a nocautear, e foi um nocaute em toda a bancada de entrevistadores a performance de Padura Fuentes.

Sua defesa de uma “utopia de igualdade” não foi sequer apresentada por algum debatedor mais atento como a mesma que animou Josef Stalin e tantos outros candidatos a “Consertadores do Mundo”- qualquer um que ignore que o inimigo jurado do “Bom” é o “Perfeito” e que a luta contra injustiças não termina nunca, e que o combate deve ser sem pausa, pois o Homem sempre criará Infernos de “Perfeição”, pode se tornar Stalin.

Dias depois, o condutor do programa, Augusto Nunes, e seu ex-chefe, José Roberto Guzzo gravaram conversa em vídeo para o site “Veja.com” e falaram justamente de Cuba. Apostaram que a última ilusão das Esquerdas nacionais está na véspera do fim, pois a aproximação com os Estados Unidos tirará de Cuba sua aura de “pureza ideológica”.

Ora, a aproximação tirará apenas (o que não é pouco) desculpa do embargo para todas as mazelas do regime cubano e peso sobre a população cubana que sofre efeitos de ação que nada conseguiu do objetivo norte-americano de enfraquecer o regime.

Os dirigentes de Cuba não cederão em nada na Política, pois não se comprometeram a ceder, receberão os negócios e as embaixadas com sorriso no rosto – o sorriso de quem aprendeu com o exemplo chinês que é possível abrir para negócios e ouvir críticas de estrangeiros sem relaxar a vigilância sobre os cidadãos, no mais mínimo que seja. As fantasias que esta imprensa alimenta sobre a queda para daqui a pouco de regime que dura décadas são observadas com o mesmo sorriso pelos carcereiros de Cuba.

São os conselheiros do que se toma por Oposição no País e são, os dois jornalistas citados, cultos e inteligentes.

Quem opina baseado nas fantasias destes dois veteranos é que sei garantia de uns tantos anos mais de hegemonia intelectual dos simpatizantes do regime cubano.

Certos inimigos livram qualquer um do encargo de procurar amigos.

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