“Notas” – 30/07/2015

O preço é alto mesmo?

Quem lê o que escrevo, e é favorável ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, ou de sua renúncia ao cargo costuma me interpelar:

“Você, Pawwlow, acha divertido ela se desintegrar até 2018 porque não pensa no custo que isto terá. O preço será tão alto, o País chegará tão arrebentado até o fim de seu mandato; vivemos em dias em que o senso de humor deve ser considerado um luxo desnecessário.”

Fosse só vontade de rir, fosse apenas o prazer de assistir a Presidente amaldiçoar a incompetência da Oposição…talvez eu revisse meus escritos sob ótica de urgência: livremos o Brasil primeiro deste Governo, depois escrevamos sátiras sobre este grupo político.

O que está em jogo é a educação política de nossos compatriotas, penso que é exclusivismo odioso permitirmos que a massa permaneça atada à apatia política, esperando de uma instância mágica, o Estado, todos os meios de subsistência. Não, os dias amargos em que milhões estão acordando da ilusão não pode ser desperdiçado por conta de matemática simplista que marca o dia e a hora de nossa quebradeira, desconsiderando o que podemos recuperar caso a cultura do atraso seja superada.

O desmonte de programas assistenciais mal executados não terá outro efeito que o de forçar especialistas na matéria elaborar programas eficazes e sustentáveis, que possam ser mantidos por décadas, seguros das crises cíclicas. Mesmo as ditas ações afirmativas poderão ser repensadas; no lugar de cotas, cursos pré-universitários específicos, de alta qualidade. E esforço concentrado para aumento real de vagas no ensino superior.

A desmoralização de iniciativas mal copiadas dos Estados Unidos podem se converter em experimentos que além de minimizarem dívidas sociais antigas possam promove rum nivelamento pelo alto em escala nunca antes imaginada por aqui.

O Brasil não pode ser reduzido aos ânimos de torcida que vejo ser insuflados por articulistas até bem intencionados, mas de visão histórica pouco lapidada; julgam que a História vai até 2018, esquecidos de que somos elo de corrente que continuará bem depois de sermos menos que lembranças, e nem pó restar destas estruturas que disputam o Poder em país com urgências  ignoradas.

Se mais esta oportunidade de educar as massas for desperdiçada por artes de impeachment, quando eleitores adquirirão o gosto por leitura e discussão política? Parece que, a muitos, isto possui importância apenas literária, como se algo bom pudesse restar de uma massa desiludida por não ter recebido tudo que a campanha prometeu, quando deveríamos ter povo consciente do caráter nocivo de certas demagogias.

Quando outra oportunidade surgirá (se interrompermos o duro aprendizado no meio) para que as massas tomem ódio de vigaristas que as tentem envolver com a conversa pastosa de que meritocracia é ideologia de Direita?

Como se recuperará o interesse, talvez inédito no País, por siglas partidárias e mesmo por Ministros do Supremo? Qual será o remédio que usarão para curar a ressaca que virá, quase certo, após outro longo recesso cívico  se,como disse, o aprendizado, por duro, for interrompido no meio?

Entendo que a Oposição e a imprensa desejem reaver oportunidades que elas próprias deixaram escapulir – por imprevidência, por prepotência, por contar com o ovo ainda na galinha- mas não penso que este desejo de acertar contas com a história enquanto esta corre deva ser atendido com prejuízo de algo maior: a extirpação, nas mentes de milhões, de focos de populismo, sobretudo os instalados pela propaganda governamental (sobretudo nos sites e blogs patrocinados por estatais e bancos públicos) pelo Governo nos últimos anos.

Ganharia o Brasil o quê com a interrupção do mandato da presidente Dilma? Que fariam os novos ocupantes em dois anos para anular ações que debilitaram o País e que o tornaram indefeso diante de gente decidida, disposta a tudo? Acreditam mesmo estes partidários da solução instantânea que com setores inteiros do funcionalismo público simpáticos (não falo de militantes e contribuintes) do PT nada será feio no sentido de tornar a governança deste sucessor um inferno de sabotagens e inoperância calculada?

Dois anos passam depressa, e se o abacaxi for passado a outras mãos, o PT terá como apontar dedos e acusar “quem retirou do poder um Governo popular e honesto para nos atirar em uma aventura”. Como o referido processo de aprendizado terá sido suspenso, as massas, ainda por se formar politicamente, tenderão a ceder aos tocadores de bumbo pela volta do PT.

Não aposto um centavo na hipótese, remota, do Governo não ter incluído este cenário (interrupção do mandato e pausa para preparar a volta) em seus planos, pois sei que os atuais governantes são gente acostumada a planejar e analisar causas de derrotas. Também não acredito em testemunhos de feições insones e de gestos de descontrole emocional da cúpula do partido no Poder. Já escrevi no blog sobre o que ser o “Pós-PT”, ambiente político no qual os personagens atuais do drama corrente voltariam com poderes aumentados, pois agindo através de grupos de pressão auto- proclamados “movimentos sociais”, ou “coletivos de cidadania”.

Que este sistema – que  seguirá o que já é morto, embora seus integrantes afetem chorar não por um morto, mas por um ferido grave- pareça a muitos delírios ou tentativas de análise política empreendidas por um amador, me é apenas confirmação de que estes militantes sabem muito bem o que fazem.

Quando escrevi (texto publicado em 25/09/2014) sobre a necessidade de se renunciar à candidatura já no Primeiro Turno se surgisse nome capaz de vencer a candidatura à reeleição houve quem me considerasse imbecil e derrotista.

Há anos alerto alguns articulistas sobre o estrago que blogs governistas promovem na mente de quem os toma por fonte confiável de informação – e formação política- e sempre recebi conselhos para não perder tempo. Contei isto aqui no blog, muitas vezes.

E por que volto ao assunto? Por que volto ao elenco de enganos cometidos por quem agora cobra pressa da História?

Para ressaltar que omissões não podem ser desfeitas com um hipotético Terceiro Turno e que há muito a ser destruído ainda. O preço econômico pode ser alto, mas menos letal que a volta de todo este sistema, que ocorrerá caso nos livremos dele sem as massas o vomitarem, com plena consciência do veneno que ingeriram.

A vida não acaba em 2018.

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