“Notas”- 01/08/2015

“E estamos em Agosto”

Acabo de voltar da rua, instrumento de aferição mais confiável que estudos recheados de estatísticas: os corpos se deixam arrastar na espera do fim do pesadelo; ninguém parece compreender como acordou no mundo onde os dias se superam em desespero e ruína.

Previu-se o Fim do Mundo para Julho, e estamos em Agosto.

“Esse governo do PT veio para arregaçar com tudo”, o mote de gente que votou no dito PT e não sabe por quê votou, manifestando estranhamento da sua porção que entrou no recinto de votação como que mergulhado em transe de sonambulismo.

 

Feições carregadas de ressentimento com o que colaboraram, ainda que sem malícia consciente.

Não lembram, por mais que se esforcem, de menções na campanha ao “ajuste fiscal” como apresentado agora pelo Governo, e portanto desconfiam ter sido vítimas de um golpe de “João Sem Braço”. Com sentimento de honra barateado pelos vendedores de fantasias, vibram à espera de uma revelação que, surgida em qualquer destes escândalos, venha abreviar este pesadelo. Entalados em outra armadilha, pois nada garante que mesmo com este governo derrubado, algo melhore em suas vidas.

Não costumo ser muito repreensivo com estes eleitores convertidos ao petismo em 2002 – a situação parecia tão desesperadora a tantos deles que, resolveram enfim dar um crédito ao partido que desprezaram em três eleições seguidas. Outro ponto a favor destes iludidos, foi a maneira pela qual o PSDB tratou a candidatura José Serra, com o então presidente Fernando Henrique Cardoso encantado, como intelectual, com um momento histórico.

E o descontentamento com suas condições de vida mais um partido indeciso empurraram o eleitor estranho ao petismo à paixão por Lula.

Mesmo a reeleição de uma presidente desastrosa como Dilma Rousseff é algo explicável pelo comportamento do PSDB (e da mídia simpática ao partido) na campanha e pelo medo de perder o mínimo que fosse do que entendiam ser vantagens.

O desespero tem destes truques – quem não entende a massa de frustrados sexuais adquirindo cursos de autoajuda em sedução,  ainda que os gurus do ramo nunca tenham provado possuir haréns? Ou gurus em finanças que vivem de vender fórmulas – fossem os mestres que apregoam estariam ocupados gerindo seus impérios e não dando cursos – de enriquecimento veloz? Pois políticos vivem de vender sonhos de sucesso sem esforço, transformando mérito em categoria de pensamento elitista.

A mercadoria ora entregue não está sendo do agrado de quem a comprou.

Tudo propaganda, tudo vontade de acreditar em algo que atenue o sentimento de impotência. A vida é muito árida sem estas miragens, mas as miragens continuam sendo miragens, e a vida é mesmo árida. E os dias nascem cobrando a conta.

As massas não são piores que elementos com suposto discernimento, com suposta identidade. Vi no ambiente universitário justificadores profissionais do Governo, e sei que, embora um pouco menos arrogantes, continuam dando expediente. Sobretudo entre professores e aspirantes ao clero acadêmico.

Não sou bom de metáforas, e penso mesmo que o momento atual do Brasil é rico em símbolos por si, mas se fosse descrever literariamente o que noto em gente que converso na fila do supermercado, no ponto de ônibus, conversas que ouço no ônibus, ou o que vejo impresso nos olhares, nas cabeças enterradas nos ombros, descreveria o seguinte: hoje todos querem escapar do vagão superlotado, nele as janelas são poucas e pequenas, e a porta demasiado estreita. Não chega nunca a parada para lanche, ou ida ao banheiro e não se conhece o condutor. O destino é um mistério, e todos esqueceram como e quando decidiram embarcar. Quem sabe na próxima curva a salvação venha em um choque…

Os aumentos comem o dinheiro que já não acompanha a corrida dos preços em disparada; o supermercado, uma surpresa em cada prateleira e nem se cogita mais em protesto quando se anuncia aumento das passagens de ônibus.

Parece haver uma sucessão de pragas na cobrança por sabe-se lá quais pecados coletivos..

Todas as modalidades de aviltamento estão pesando sobre os brasileiros que não entendem o que fizeram para se arrastar sob estes escombros. Não se imagina como se reconstruirá o País, em resumo. Não se confia mais no Governo, e não se percebe segurança na Oposição; mesmo os que pediam intervenção militar (outra alucinação trazida pelo desespero) em passeatas e nas redes sociais não estão mais confiantes em um exército que não se sabe bem a feição ideológica – mesmo se o tem, para começar.

Há quem sugira “Vá pra Cuba” aos simpáticos ao PT, ignorando que os atuais detentores do Poder já criaram aqui sua utopia, o País enfim degradado à semelhança deles. E os traços impressos na fisionomia do Brasil demorarão a se transformados, não se imagina cirurgião plástico tão competente na devolução dos traços de dignidade, de alegria, de confiança (ainda que sem elementos concretos) no futuro.

Sob certos aspectos, acho que mesmo a comparação com Cuba é desfavorável: não temos os botes e estamos longe demais dos países que parecem ser férteis de oportunidades. Estamos mesmo condenados a permanecer até alguma piora – ou melhora- definitiva. Mesmo o sonho americano parece absurdo a muitos.

E resta a prostração, no cálculo do que se necessita para a reconstrução do País – ao perceber a dimensão da fatura, o desespero e o temor do amanhã só aumentam. O sol, assim, torna-se o novo inimigo de milhões de brasileiros.

E é sobre estes ombros que carregam carga que imaginam ter sido atirada de um avião, ou recebida de um pesadelo, que repousa também o Poder – de se obrigar à participação política e de recusar o que a classe política oferece: a conciliação entre os generais da casta acadêmica que comandam o PT e o PSDB.

Estas vítimas podem recusar mesmo ouvir o que qualquer político instalado em qualquer das duas agremiações diga a respeito dos problemas que ambos os partidos criaram.

Mesmo José Serra, crítico e lúcido quanto aos erros diversos do PSDB, passou da hora de desertar do partido; ou ele faz este gesto ou não merecerá- mesmo ele -ser tomado como líder a se levar em consideração.

E saberemos todos que a Oposição não tem nome para apresentar às massas. E que por inércia, o Governo ganhou esta etapa.

O Governo pareceu assumir próximo de ceder, e no entanto, sobreviveu de mês em mês e estamos em Agosto.

Previu-se para Julho o Fim do Mundo…

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