“Notas” – 06/08/2015

247 – Agora Entendo

Quando Lobão lançou sua autobiografia, procurei na internet tudo que dissesse respeito ao Claudio Tognolli, seu auxiliar nas pesquisas para o livro. Encontrei então, no “YouTube”, entrevista de Tognolli ao “Pânico na Jovem Pan”, concedida por aqueles dias onde ele anunciava um novo site de notícias e opinião, e que este site aceitaria colaborações de quem escrevesse.

Como já tinha meu blog há alguns anos (acredito que há quase três) vi neste lançamento de imprensa eletrônica oportunidade de divulgar um blog que dependia até então da sorte – de algum internauta buscando algum tema topar com meu endereço de textos – e de meus esforços para divulgá-lo pessoa por pessoa.

Enviei um texto (um tanto fraco, admito) sobre o que considerava merecedor de críticas na minha cidade, Belo Horizonte, e que não tivesse devida divulgação no resto do Brasil, onde muitos acreditavam ser BH cidade excelente, sem problemas, entre outras exportações da imprensa mineira. Texto que não constava (nem consta) de meu blog. Respondeu-me o jornalista que dirigia o jornal eletrônico, Leonardo Attuch, demonstrando interesse em abrigar meus textos na grade de comentaristas, que incluía outros blogueiros e o vlogueiro Felipe Neto – salvo engano, o nome mais conhecido daquela grade, exceto Claudio Tognoli e o próprio Attuch, jornalistas conhecidos, com passagens por órgãos importantes da imprensa.

Mandei durante alguns meses meus textos lançados no blog, e trocava correspondência com Attuch. Vez por outra, o jornalista recomendava mudanças no texto, sugerindo supressões de termos mais agressivos ao Governo, mas nunca impondo, ou editando ele próprio. Eu estava satisfeito com arranjo que embora não envolvesse dinheiro ou promessa de contratação como colaborador, divulgava meu blog. Era desagradável ler alguns comentários, mas eu tomava ataques de simpatizantes de um partido a um crítico deste partido um elemento da democracia – “não quer ouvir vaias não suba ao palco”, pensava.

Mas as críticas aos textos tornaram-se, cada vez mais, descargas de desqualificação ao que escrevia, à minha competência redacional, e fiz ver ao Attuch que era duro dar de graça o trabalho e ser insultado em nome da “pluralidade”. Attuch recomendou ignorar comentários, que, segundo ele, nem eram lidos pela redação. Mas os ataques pessoais e tentativas de desqualificação viraram norma naquele espaço, aos pés de todo artigo, de qualquer colunista. Uma correspondente do 247 na França, jornalista Roberta Namour, foi alvo de um comentarista boçal que “visualizava” a jornalista atacada fisicamente -por ocasião de um texto seu sobre a “Legião Estrangeira” – e uma menina, sim, uma menina, que publicava textos de seu blog de moda, foi também alvo de boçalidades várias.

Ensaiava-se uma moderação de comentários, logo abrandada, e depois francamente suspensa. Protestei diversas vezes ao Diretor, fornecendo exemplos de comentários ofensivos e caluniosos, de autoria de “anônimos”. Escrevi sobre isto no blog, para sair ali, o texto “Caixa de Comentários ou Caixa de Esgoto?”

Acabei deixando de colaborar, mas também por outro dado que me pareceu inquietante: políticos do PT foram, nem tão aos poucos, inundando a grade de comentaristas e os textos de blogueiros como eu iam caindo, muitas vezes, um ou dois dias após publicação. O blog do José Dirceu era publicado ali umas duas vezes por semana, no mínimo, fora os demais astros do petismo.Quando propus ao Attuch mandar mais coisas do meu blog por semana, fui vetado. Entendi que o PT tomara o site para si. E que o incomodado que tratasse de providenciar mudança.

Afastei-me sem brigas (afinal Attuch sempre fora simpático nos contatos) e somente mandei texto por ocasião da morte do Chico Anysio  (lera no dia de sua morte entrevista do gênio ao Attuch, para a “IstoÉ”),  pois enviando email ao jornalista parabenizando-o pela entrevista e revelando estar escrevendo texto, recebi o pedido:”Manda prá gente, Pawlow”, e o texto saiu simultaneamente no blog e no 247. Minha biografia no 247 encerrava-se  ali. Nunca mais, que me lembre, tive contato com Lenardo Attuch (o qual me garantiu, no email em que comuniquei a decisão de desertar daquele espaço, estar com as portas abertas caso desejasse voltar a colaborar).

Assisti à transformação do que prometia ser um espaço de bom jornalismo e divulgação de novas vozes em um panfleto petista de baixíssimo nível – os MAVs moldando o espaço ao feitio selvagem deles, o grotesco sendo a opção preferencial pelo jornalismo irrigado por patrocínios estatais.

Nunca entendi o que houvera, nunca entendi como simples anúncios de estatais pudessem transfigurar de tal maneira um órgão de imprensa em pouquíssimo tempo.

Embora não brigado com Attuch, nunca deixei de escrever (em meu blog, ou em comentários nas colunas de Augusto Nunes e Ricardo Setti para o site”Veja.com”) o que achava de pernicioso neste jornalismo governista que incentivava militância na internet e era leitura indicada por professores petistas aos alunos, numa reprodução em série de péssima educação jornalística, cívica e ética- num esforço concentrado de nivelamento pelo esgoto. Recebia como resposta dos dois jornalistas conselhos no sentido de não perder tempo, lamentavam minha preocupação com pobres-diabos sem leitores. Hoje Augusto Nunes pede CPI (e clama por cadeia) desta imprensa de assessoria de gabinete do PT.

O balanço que faço do meu caso pessoal é que o site não alavancou no mínimo que fosse meu blog, por conta do público que ele criou. Um público de baixo nível jamais serve como formador de opinião, e portanto divulgador de conteúdo, frente ao público que um blogueiro com pretensões deseja atingir. Todos, mas todos, interlocutores de algum nível desconheciam meus escritos ali, a divulgação do blog continuou a ser feita leitor a leitor, voltando a contar também com a sorte de um leitor perdido na internet, encontrando meu blog em uma busca por determinado assunto…

Não se trata de jogar pedras na árvore que me deu frutos mas na árvore que não deu por conta do apetite financeiro dos autores de uma iniciativa que, repito, tinha tudo para frutificar em um portal interessante. Os blogueiros que publicavam em meu tempo ali – e que foram um a um, desertando com a tomada do espaço por petistas – eram interessantes e muitos lamento não ter tomado nota de seus nomes, de seus blogs, e não ter seguido, etc. Além de me sentir constrangido a sempre emendar uma explicação quando menciono sobre meu período de colaborador (voluntário) no site:”Ainda não era tão governista”.

A mim sempre pareceu inexplicável a guinada que Attuch imprimiu ao site – em pouquíssimo tempo, repito. Em coisa de meses, o site tornou-se símbolo pronto do que havia de pior em jornalismo governista e em comentários de porta de latrina. Vejam os articulistas de hoje, comparem com os do período inicial (nem me incluo nesta conta, se quiserem), leiam os comentários (até melhoraram um pouco, pois obrigatório comentar por perfil de Facebook), as manchetes cafonas e mal redigidas, o clima forçado de indignação com a “Imprensa Golpista”, adoção de vocabulário de gente que sempre relacionou Leonardo Attuch a Daniel Dantas…enfim, tudo me era difícil de entender somente considerando a publicidade oficial.

E agora a “Operação Lava-Jato“revela contratos milionários de “prestação de serviço” e tudo ganha sentido; o site, ao que parece,preparava caminho para se beneficiar de negócios com o Governo. Investigações talvez revelem como a sereia seduziu o navegante, ou se o navegante apenas afetou independência no primeiro estágio do site para não levantar suspeitas, ou valorizar a adesão ao governismo.

Não aposto nada, apenas começo a compreender o que me pareceu na ocasião mero oportunismo editorial, na base do “Eles são maioria, ficarão no Poder por muito tempo, nesta me torno o Samuel Wainer do petismo”.

Vejo agora que a ambição foi menor, a motivação pecuniária sendo o motor de um processo de queima de reputação profissional de um jornalista e o destino de um site que nasceu contando com gente disposta a trabalhar de graça apostando no sucesso da iniciativa (projetando assim o pagamento, em divulgação).

Agora entendo – e preferiria ter continuado sem entender.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s